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Mário Negreiros
23 de Julho de 2004 às 13:59

Rir de quem nos governa

Alguém disse a Santana Lopes que os primeiros-ministros são senhores muito sérios, e ele acreditou, e não se riu, e tornou-se risível.

Chorei, confesso, de rir quando assisti às cenas cómicas da posse do novo governo português - o espanto do ministro Paulo Portas (ele é tão expressivo!) e a atrapalhação de Santana Lopes (tão sério enquanto se atrapalhava!) com o próprio discurso trouxeram-me lágrimas aos olhos.

Rir é sinal de saúde. Pobre é o povo que não ri dos seus governantes. O pior sinal que já me chegou do regime chinês veio-me através de um livro do humorista brasileiro Henfil, que, depois de visitar a China, contou que, lá, o humor permitido é a favor - dos governantes, claro -, o que me parece uma contradição em termos. O humor é, por natureza, contra - crítico, denunciador de incoerências, revelador de vícios, caricatura de tiques, exagero de imperfeições.

O trabalho do humorista começa com a subtileza da observação. Cabe a ele descobrir o pequeno detalhe que, exagerado, revela a própria essência do retratado. A nós, público, cabe rir. E o melhor riso não é o que se faz da mera contemplação do ridículo alheio, mas aquele que põe à mistura o prazer intelectual de compartilhar subtilezas com o humorista, algo como a vontade de abraçar o humorista, estalar-lhe um beijo na bochecha, e dizer-lhe, reconhecido: «Eh, pá, como é que só tu foste capaz de apontar aquilo que, agora, que apontaste, fica tão evidente?».

Por isso, vivam - e vivam muito! - os humoristas que nos fizeram rir de Durão Barroso, de Guterres, de Cavaco, de Soares, de Salazar, de Afonso Henriques, de Viriato? Vivam os humoristas que nos fizeram rir de nós mesmos, revelando as nossas próprias incoerências, vícios, tiques e imperfeições (que todos as temos!).

Somos todos risíveis e, quanto a isso, não há a menor dúvida. Basta que um bom humorista nos observe durante alguns minutos - há quem esconda melhor e quem esconda pior os seus ridículos, mas os que os escondem melhor não são necessariamente menos risíveis, é só uma questão de tempo - e, mais cedo ou mais tarde, somos todos, potencialmente (a depender apenas do humorista que nos observe), motivo de estrondosas gargalhadas.

Isso é uma coisa. Outra, completamente diferente, é o primeiro-ministro de um país qualquer prescindir de humoristas, ser ele mesmo a revelação, a denúncia, a caricatura, o exagero das próprias incoerências, dos próprios vícios, tiques e imperfeições.

Há quem considere indiscutível que a subida de Santana Lopes à chefia do Governo português seja uma bênção para, pelo menos, um grupo profissional - o dos humoristas. Eu discuto. Duvido que haja nele subtilezas mais risíveis do que tudo aquilo que, na cerimónia de posse, o próprio ostentou. E o curioso é que bastava a Santana Lopes rir-se da própria atrapalhação para que boa parte (a melhor parte, do ponto de vista de quem quer rir) do seu ridículo se diluísse. Sim, porque toda a gente pode atrapalhar-se na leitura de um discurso. Mas, aparentemente, alguém disse a Santana Lopes que os primeiros-ministros são senhores muito sérios, e ele acreditou, e não se riu, e tornou-se risível. O que é verdadeiramente impagável é o ar sério com que o PM nos pretende convencer? de que é PM.

E é por isso que, depois de ter chorado de rir, não vejo nenhuma graça no nosso PM.

PS: «Oeiras respira», lia-se no carro da Câmara de Oeiras que, com as quatro patas fincadas sobre o passeio da rua Nossa Senhora do Egipto, às 10:30h da manhã de quarta-feira passada, obrigava os munícipes a andar pelo meio da estrada. Muito ecológico, sim senhor.

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