Sistemas distribuídos vs unidades centralizadas
A opção entre sistemas distribuídos ou unidades centralizadas aplica-se em muitas áreas da gestão empresarial e do próprio desenvolvimento económico do país.
A opção entre sistemas distribuídos ou unidades centralizadas aplica-se em muitas áreas da gestão empresarial e do próprio desenvolvimento económico do país.
No domínio da gestão empresarial, a discussão mais aprofundada em torno destas duas opções tem-se situado no âmbito dos sistemas de informação das várias unidades produtivas e dos sistemas de distribuição.
No caso dos sistemas de informação, as modernas teorias de gestão apontam, na grande maioria das situações, para as vantagens dos sistemas distribuídos. Por razões de maior controlo e faseamento dos investimentos, maior flexibilidade das operações, melhor ajustamento às condições de mercado e, sobretudo, uma maior difusão do conhecimento das tecnologias de informação por toda a estrutura técnica e operacional das organizações.
Temos assistido, assim, a uma evolução clara de unidades centralizadas, com sistemas proprietários de grande dimensão e capacidade para sistemas distribuídos, em rede, com informação e inteligência descentralizada, mais próximos dos utilizadores e produtores de informação.
A existência destas filosofias distintas em empresas em que a função sistemas de informação é critica para o negócio e que são objecto de uma fusão constitui um dos problemas de mais difícil resolução, como ocorreu na Portugal Telecom, onde a ex- Telecom Portugal tinha um sistema distribuído e o ex- TLP um sistema centralizado proprietário. A opção escolhida recaiu no desenvolvimento de um novo sistema distribuído.
No caso dos sistemas de distribuição, nomeadamente em termos de sub-sistemas de armazenagem e logística temos assistido a uma evolução semelhante, de unidades centralizadas de grande dimensão para sistemas distribuídos, em rede, com unidades mais flexíveis e mais próximas do mercado.
A função distribuição, que vem assumindo nas empresas actuais, a parcela mais relevante da sua cadeia de valor, tem beneficiado, neste processo de mudança, da própria evolução das tecnologias de informação e da maior flexibilidade e capacidade das redes de telecomunicações incluindo aqui, também, a integração de sistemas de inteligência distribuídas nestas redes.
O mundo económico evoluiu, assim, claramente, para sistemas distribuídos com inteligência descentralizada, equilibrados, com dimensões passíveis de uma gestão eficiente e com uma maior proximidade ao mercado e às necessidades dos seus utilizadores.
Numa perspectiva de desenvolvimento económico do país, a análise destas duas opções – sistemas distribuídos ou unidades centralizadas – devia ser efectuada para todas as infraestruturas essenciais ao desenvolvimento dum país, em especial as ligadas à função distribuição.
Esta análise devia, assim, em conformidade, ser efectuada em relação ao novo aeroporto da Ota que preenche todas estas características, com a agravante de se vir a realizar numa fase de grandes constrangimentos financeiros do país.
Sem pôr em causa a análise económico-financeira deste empreendimento que foi certamente realizada por técnicos sérios e competentes, nem os estudos complementares em termos de localização, a opção por um grande aeroporto na Ota, tem todas as características de uma grande unidade centralizada em detrimento de um sistema distribuído contemplando vários aeroportos de menor dimensão, interligados em rede, racionalizando os investimentos face à existência de um grande numero de pistas aeroportuárias no país, adoptando uma postura de intermodalidade com os vários tipos de transporte e maximizando o aproveitamento das capacidades disponibilizadas pelas novas redes e tecnologias de comunicação.
Estamos, assim, perante um processo de escolha de uma estratégia de desenvolvimento global e equilibrado do país e de ordenamento do espaço urbano, tecnológico e económico, contemplando médias cidades com capacidade de desenvolvimento autónomo e inteligência própria ou de uma única metrópole macrocéfala, arrogante, socialmente descaracterizada, com populações suburbanas desenraizadas, sem qualidade de vida urbana, mas monopolista do conhecimento. Eu tenho preferência clara pelo primeiro modelo que corresponde a um sistema distribuído.
Neste aspecto a situação portuguesa é diferente da espanhola, onde coexistem várias regiões em competição entre si, com dimensão adequada e grande dinamismo de desenvolvimento, servidas por vários aeroportos e onde o aeroporto de Madrid irá concorrer preferencialmente nas rotas transatlânticas numa perspectiva de posicionamento da economia espanhola cada vez mais para além da Europa.
O novo aeroporto da Ota não é um novo aeroporto para Lisboa mas sim um novo aeroporto centralizado, para Portugal, servindo toda a zona litoral economicamente desenvolvida, desde o Porto até Setúbal, condenando todos os restantes aeroportos incluindo o do Porto a um papel regional, secundário e subsidiário. Promoverá ainda o desenvolvimento mais acentuado na região litoral Leiria – Lisboa aumentando a macrocefalia da capital e reduzindo a capacidade de desenvolvimento das outras regiões, com especial prejuízo para as regiões do interior onde a desertificação se acelerará (com o Estado a suportar esses custos) e para o próprio eixo Porto – Braga que tem revelado um dinamismo interessante nos últimos anos.
Miguel Cadilhe tem razão quando afirma que a paragem do processo de regionalização em Portugal trará efeitos perversos no desenvolvimento equilibrado do nosso país, e na qualidade de vida das nossas cidades. As unidades centralizadas têm, de facto, este poder de desertificação dos círculos mais distantes do seu epicentro. São contrárias às tendências das sociedades que melhor se têm adaptado ao processo de globalização que optaram por sistemas distribuídos.
Esperemos que esta discussão possa ainda ter lugar e que a opção final tenha em consideração uma análise custos - benefícios, séria e aprofundada, entre a opção por uma unidade centralizada ou por um sistema distribuído.
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