Um apelo ao Presidente
Dois empresários, de duas gerações, um mais irritado, outro descrente, aparecem nesta edição a dizer basicamente a mesma coisa: isto não vai lá com eleições. Um deles, Alexandre Soares dos Santos, até pede um Governo de iniciativa presidencial.
Dois empresários, de duas gerações, um mais irritado, outro descrente, aparecem nesta edição a dizer basicamente a mesma coisa: isto não vai lá com eleições. Um deles, Alexandre Soares dos Santos, até pede um Governo de iniciativa presidencial.
Parece um absurdo, não é? Mas é desespero. As pessoas estão desesperadas. Muitos já perceberam que a situação é grave. A novidade é que há quem diga abertamente que o sistema político bloqueou, ficou incapaz de reagir à gravidade dos problemas.
Por isso Soares dos Santos pede ao PR que toque a reunir e forme um Governo de «salvação nacional». A partir do sistema partidário, agregando o melhor que o país tem. Por isso João Pereira Coutinho, que apoiou Santana, fala em «bloco central». É a partir daqui que João Salgueiro, também neste jornal, resume o essencial do problema: «não basta mudar de Governo, não basta mudar de políticas, porque temos é de mudar de vida».
É algo que alguns teimosos andam a pregar há muito. Ninguém ouve. Porque ninguém quer ouvir. Baixar o nível de vida, se o endividamento é fácil e se depois alguém irá pagar?...
Não há retoma desde Julho, alerta Soares dos Santos. O país está parado, confirma Pereira Coutinho. É o perigo do declínio persistente, que o Presidente Sampaio vislumbrava no horizonte, quando discursava no último 5 de Outubro.
Quer saber uma coisa, senhor Presidente? O país não está a aproximar-se desse declínio persistente, apenas e só porque já lá está há muito tempo. E não há Sócrates em versão de guterrismo «recauchutado», nem há Santana já livre do santanismo, capazes de inverterem o rumo das coisas dentro de quatro ou cinco meses.
Portanto, doutor Sampaio, ouça Soares dos Santos e perceba porque quer este senhor que o seu grupo cresça na Polónia, mas que os netos não tenham de sair de Portugal.
E, já que teve a coragem de fazer implodir um Governo desnorteado, pergunte, não a outros, mas a si mesmo: «acredita? acredita que, para atacar todos os males que há anos não saem dos seus discursos, os mesmos males que persistem e nos afundam, enquanto outros prosperam e progridem, acredita mesmo que basta trocar Santana por Sócrates?».
Sempre recusei a ideia do «bloco central». Nas eleições de 2002, enquanto Ernâni Lopes já andava a promover essa saída, lembrei tudo o que o Governo do «bloco central» não fez: não fez reformas estruturais, não fez nada que ficasse para o futuro, nem a cultura de rigor do seu ministro das Finanças perdurou.
Desde então, na última década e meia, e com a única excepção da integração europeia, o «bloco central» serviu para o pior: tachos públicos, corrupção institucional, podridão de cumplicidades. O financiamento dos partidos é apenas exemplo.
Mas o país exige respostas impossíveis de sufragadas num acto eleitoral. Por isso os políticos mentem. Vão mentir na próxima campanha. A nossa sociedade pede direitos e despreza os deveres. Não sei se governos de iniciativa presidencial têm cabimento. Mas tenho a certeza de que o senhor Presidente tem de tomar a iniciativa. Aproveite a oportunidade. É a última.
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