pixel

Negócios: Cotações, Mercados, Economia, Empresas

Notícias em Destaque
Luís Todo Bom - Gestor de Empresas | Autor do livro “Manual de Gestão de Empresas Familiares”
01 de Setembro de 2008 às 13:00

Uma sociedade de aversão ao conhecimento

As vantagens competitivas favorecem cada vez mais as organizações que conseguem mobilizar conhecimento, capacidades tecnológicas e experiência para criarem novos produtos e serviços (Tidd, Bessant & Pavit). A gestão da inovação está intimamente ligada à produção, aquisição e gestão do conhecimento e dos processos de aprendizagem.

Este conhecimento pode ser individual ou colectivo, explícito ou tácito. O novo conhecimento é gerado a partir da interacção dinâmica e da combinação destes dois tipos de conhecimento, e ainda pelo processo de transferência e assimilação entre o conhecimento individual e colectivo, dentro das organizações inovadoras (Nonaka & Takeuchi).

As competências e capacidades obtidas através da incorporação do conhecimento constituem "activos não replicáveis" das organizações inovadoras que lhes permitem manter níveis de competitividade sustentáveis e estruturais ao longo do tempo (Teece & Pissano).

As organizações inovadoras surgem e fortalecem-se em ambientes sociais colectivos que privilegiam o conhecimento. Uma sociedade de aversão ao conhecimento nunca produzirá um número suficiente de organizações inovadoras com capacidade de influência, capazes de suportarem e dinamizarem o desenvolvimento económico, cultural, tecnológico e social dessa sociedade.

As entidades que produzem e difundem o conhecimento são, por excelência, as universidades. A existência de um conjunto alargado de universidades de qualidade, prestigiadas, internacionalmente reconhecidas e em competição entre si, constitui a essência dum sistema nacional de criação e utilização do conhecimento e do desenvolvimento e consolidação de organizações inovadoras.

O meio envolvente social é outro factor crítico para este processo.

A sociedade tem que dar sinais claros de apoio, empenho e valorização do conhecimento, premiando as organizações e indivíduos que o detém e utilizam em benefício dessa mesma sociedade, priorizando e privilegiando as acções e movimentos que têm o conhecimento na sua base.

No âmbito deste modelo, Portugal é, infelizmente, uma sociedade de aversão ao conhecimento.

As universidades portuguesas com qualidade e prestígio europeu contam-se pelos dedos, e mesmo nestas só uma parte dos alunos adquire e consolida uma quantidade de conhecimento que lhes permita encarar com confiança os desafios profissionais duma sociedade tecnologicamente evoluída. Os estabelecimentos de ensino superior, públicos e privados, que não preenchem critérios mínimos de qualidade na criação e transmissão de conhecimento continuam infelizmente, a existir, com números preocupantes de alunos e cursos sem níveis de exigência universitários. Como resultado a produção intelectual das universidades e institutos superiores, a adequação e actualização dos cursos e a prestação de serviços de alto conteúdo de conhecimento à sociedade portuguesa continuam a ser muito limitadas.

O diagnóstico não é animador mas as previsões de evolução são ainda mais sombrias, por uma razão simples: a sociedade portuguesa dá os sinais errados para a construção duma sociedade do conhecimento.

O modo como a comunicação social relata detalhadamente e os portugueses acolhem as opiniões de quase-analfabetos, que mal sabem falar português, só porque são ricos (os membros das sociedades de aversão ao conhecimento têm fascínio pelos ignorantes que enriqueceram, porque acreditam que também o vão conseguir, obviamente sem o esforço que o estudo exige!), os mecanismos de nomeação para cargos públicos de indivíduos com cursos generalistas provenientes de universidades manhosas, em que o cartão partidário vale mais do que o conhecimento, são sinais claros que os jovens absorvem e interiorizam, desviando-os do estudo sério e aprofundado.

Mas a cereja no topo do bolo, são as universidades de Verão dos partidos políticos. Organizadas por quem não possui nenhum grau académico estruturado, em ambiente exactamente oposto ao universitário, onde não se privilegia a reflexão e o tratamento aprofundado dos temas, sem qualquer pesquisa bibliográfica de suporte, sem um programa coerente com objectivos de aquisição e avaliação de conhecimentos, as universidades de Verão constituem uma mensagem clara da sociedade política de desrespeito pelo conhecimento. A preservação da espécie dos "boys" que alimentam os famosos aparelhos partidários está assim garantida. Como é que professores universitários de universidades prestigiadas participam nesta farsa constitui, para mim, um enigma.

Com estes sinais da sociedade, continuaremos a ser uma sociedade de aversão ao conhecimento. Se não os alterarmos não será possível construir um país desenvolvido suportado no conhecimento porque o país não produzirá quadros competentes em qualidade e quantidade suficiente. Continuando por este caminho, dentro de alguns anos, teremos garantido o último lugar entre os países da União Europeia. E é pena, porque não tinha de ser assim.

Ver comentários
Ver mais
Publicidade
C•Studio