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Donald Kaberuka
29 de Outubro de 2014 às 19:26

Pegar fogo à casa

O que é necessário para gerar uma resposta mundial a uma ameaça global? A crise financeira de 2008 e as ameaças decorrentes da insurreição e do terrorismo em 2014 são vistos por todos como "perigos evidentes e actuais" - e ambos provocaram uma reacção à escala mundial.

Entretanto, as alterações climáticas, e os efeitos devastadores das emissões de dióxido de carbono, constituem ameaças ainda maiores e de mais longo prazo, e no entanto nos últimos 30 anos suscitaram uma fraca reacção por parte da comunidade global. Em Nova Iorque, no passado mês de Setembro, o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, organizou uma cimeira de líderes mundiais para debater este fenómeno global, que precisa urgentemente de uma intervenção colectiva.

O mundo já se perde há demasiado tempo em argúcias políticas no que diz respeito às alterações climáticas. Os imperativos eleitorais ou económicos imediatos nunca alterarão o facto de o aquecimento global vir a ter consequências tão nefastas para o mundo rico como já tem para o mundo pobre.

O planeta não tem sido capaz de responder ao Protocolo de Quioto, assinado em 2005. Actualmente, emitimos mais gases com efeito de estufa do que em qualquer outro período da nossa história. Sabemos que temos de manter o aquecimento global abaixo dos 2º Celsius para evitar uma catástrofe planetária, mas, ainda assim, o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas informou-nos no ano passado que estamos a caminho de registar uma subida média da temperatura mundial entre 3,7º e 4,8º Celsius até ao final do século.

Nenhuma região do mundo é imune ao impacto das emissões de CO2. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, desde 1970 registaram-se no mundo inteiro mais de 8.000 catástrofes ligadas ao clima, às condições meteorológicas e à água, o que ceifou perto de dois milhões de vidas e custou cerca de 2,4 biliões de dólares. Um terço destes casos ocorreu em África, tendo sido responsáveis por perto de 700.000 mortos, com os prejuízos económicos a ascenderem a aproximadamente 27 mil milhões de dólares. Só em 2012, o continente africano vivenciou 99 fenómenos climáticos extremos, que é o dobro da média a longo prazo. Em 2050, mais 20% dos africanos estarão em risco de fome devido às alterações climáticas.

Os custos de adaptação às alterações climáticas também são elevados, tal como a adaptação necessária para lhes fazer face: entre 45 e 50 mil milhões de dólares por ano até 2014 e 350 mil milhões de dólares por ano até 2070. Se África não conseguir dinheiro para financiar a adaptação, o prejuízo total poderá ascender a 7% do PIB africano no final deste século.

No mínimo, precisamos que as Nações Unidas produzam quatro resultados. O primeiro é um compromisso global de redução das emissões de gases com efeito de estufa através de uma regulação e políticas económicas e orçamentais inteligentes e eficazes - incluindo a fixação do preço do carbono, a redução dos incentivos aos combustíveis fósseis e o estabelecimento de padrões de desempenho. Isto não só ajudará a combater as alterações climáticas como também beneficiará o crescimento, a competitividade e a criação de empregos. É algo particularmente visível em África, onde alguns países se encontram numa alarmante trajectória para se tornarem grandes emissores de gases com efeito de estufa, apesar dos abundantes recursos naturais que podem ser desenvolvidos de forma sustentável e com uma baixa pegada de carbono.

Em segundo lugar, precisamos de um acordo global de estabelecimento de um mecanismo que angarie e canalize um apoio financeiro suficiente e previsível e que permita acelerar a transferência de tecnologias para os países em desenvolvimento, especialmente em África. Os actuais níveis de financiamento não são suficientes. Estive no grupo consultor de alto nível da ONU para o financiamento do combate às alterações climáticas, que concluiu em 2010 que podemos mobilizar 100 mil milhões de dólares por ano se impusermos um imposto por cada tonelada de CO2 emitido. Mas, até agora, o mundo não demonstrou ainda vontade política para o fazer.

Em terceiro lugar, os líderes mundiais devem comprometer-se a eliminar todos os obstáculos a um acordo universal juridicamente vinculativo, na conferência sobre o clima mundial que terá lugar em Paris em Dezembro de 2015. E quando esse acordo for alcançado, terá de ser implementado de forma rigorosa. A fixação de uma coima pelo incumprimento desse acordo será um sinal claro do reconhecimento colectivo de que o nosso futuro económico está inextricavelmente ligado ao nosso futuro ambiental.

Por último, tem de haver um compromisso específico por parte dos líderes africanos para criar um clima propício à captação de apoio do sector privado no que diz respeito ao desenvolvimento verde. Os investidores privados mais clarividentes estão já à procura de investimentos ecológicos que ofereçam uma rentabilidade razoável naquele continente. África tem de tornar essas oportunidades fáceis de encontrar, implementando de forma consistente boas políticas ambientais, criando mapas nacionais de "crescimento verde" e instrumentos financeiros inovadores para minimizar os riscos, bem como reduzindo os custos de transacção.

Os líderes mundiais têm de actuar em todas as frentes dos desafios globais. Evitar falências de bancos e travar ataques terroristas são objectivos importantes; contudo, se não atacarmos seriamente as alterações climáticas, é provável que cada vez haja mais ocorrências daquelas duas naturezas.

Presidente do Banco Africano de Desenvolvimento. 

© Project Syndicate, 2014.

www.project-syndicate.org

Tradução: Carla Pedro

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