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Justin Yifu Lin 05 de Maio de 2016 às 20:30

Porque pode a China crescer de acordo com o plano

O recentemente finalizado 13º Plano Quinquenal da China define a estratégia e a ambição económicas para o período 2016 e 2020. Entre os objectivos encontra-se a duplicação do produto interno bruto e dos rendimentos médios das famílias rurais e urbanas face aos níveis de 2010.

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Estes objectivos vão exigir que a economia chinesa cresça a uma taxa anual média de pelo menos 6,5% durante os próximos cinco anos. Embora seja um ritmo significativamente mais baixo do que o crescimento de 9,5% que, em média, a China verificou desde 1979, este é um ritmo inegavelmente rápido de acordo com os padrões internacionais. E, tendo em conta que o crescimento da China tem desacelerado em todos os trimestres desde o início de 2010, alguns têm questionado se é uma meta alcançável. Eu acredito que é.

 

O crescimento económico resulta de aumentos na produtividade laboral causada pelo avanço tecnológico e pelo aprimoramento industrial. Os países mais ricos, já na crista da onda da produtividade, precisam que os seus crescimentos resultem de rupturas tecnológicas e organizacionais; como tal, a sua taxa de crescimento média é de cerca de 3%. Pelo contrário, os países em desenvolvimento podem acelerar o crescimento da produtividade (e em sequência do crescimento do PIB) por usarem a tecnologia vinda de países avançados – uma forma de aproveitamento, como a China já tem feito.

 

A questão é, depois de 36 anos a recuperar o atraso, quanto tempo mais a China conseguirá beneficiar deste processo. Alguns académicos acreditam que o país alcançou os seus limites. Olhando para os dados históricos compilados pelo histórico da economia Angus Maddison, percebe-se que outros países do leste asiático experienciaram uma desaceleração do crescimento económico depois de os seus PIB per capita alcançarem os 11 mil dólares em paridade de poder de compra, relativamente aos preços constantes em dólares americanos de 1990, ou 17 mil dólares em preços constantes em dólares americanos de 2005.

 

Por exemplo, nos cinco anos depois de o Japão atingir aquele nível, a sua economia cresceu a uma taxa média anual de 3,6%. Na Coreia do Sul, o crescimento caiu para 4,8%. Em Hong Kong, abrandou para 5,8%. Dado que se estima que a China ultrapasse aquele limite este ano, muitos acreditam que o crescimento médio anual ao longo dos próximos cinco anos vai cair muito abaixo de 7%.

 

Discordo. Aquilo em que falha esta análise é que não tem em conta o facto de os países avançados não estarem sentados de braços cruzados; continuam a crescer e a promover a vanguarda tecnológica. O que cria oportunidades para que os países em desenvolvimento continuem a aprender.

 

Aqueles que prevêem um abrandamento na China estão certos ao olhar para o PIB per capital, que é um reflexo da média da produtividade laboral e, daí, do nível de avanço técnico e industrial. Mas o melhor indicador para o crescimento potencial chinês não é o PIB per capita relativamente a alguns limites arbitrários; é a diferença entre o PIB per capital da China e o dos Estados Unidos, a economia mundial mais avançada. E, tendo em conta esta medida, a China tem muito espaço para crescer.

 

Quando o Japão passou o limite de 11 mil dólares em 1972, o seu PIB per capita era 72% do nível dos Estados Unidos. Quando Taiwan o conseguiu, em 1992, o seu PIB per capital era 48% do americano. O número da China comparável é, actualmente, cerca de 30%.

 

Em 2008 – o último ano para o qual Maddison deu números antes de morrer, em 2010 –, o PIB per capital da China representava 21% do dos EUA. Ao examinar como é que outras economias do leste asiático se comportaram quando tinham este peso comparado com os EUA, podemos estimar o potencial de crescimento para a China.

 

O PIB per capital da China era 21% do americano em 1951 e, nos 20 anos seguintes, cresceu a uma taxa média de 9,2%. Nas duas décadas depois de a Singapura ter atingido aquele nível em 1967, expandiu-se a uma média de 8,6%. A história é a mesma em Taiwan, Hong Kong e Coreia do Sul: nos 20 anos após o PIB per capita ter correspondido a 21% do nível americano, cresceram em torno de 8%. Não há nenhuma razão para não acreditar que a China tem o potencial de fazer o mesmo até 2018.

 

O actual abrandamento da economia chinesa é o resultado de factores externos e cíclicos, não nenhum limite natural. A China tem sofrido as consequências da crise financeira de 2008 e da queda da procura por exportações. De 1979 a 2013, o crescimento anual das exportações foi, em média, de 16,8%. Em 2014, deslizou para 6,1%; em 2015, caiu ainda mais, para -1,8%.

 

Esta influência externa deverá continuar, já que as políticas nos países desenvolvidos impedem esforços para implementar as reformas estruturais – como redução de salários, descida de subsídios sociais, desalavancagem financeira e ainda consolidação dos défices orçamentais – necessárias para dinamizar o crescimento económico. De facto, como o Japão no início de 1991, a maior parte do mundo desenvolvido arrisca-se a décadas perdidas.

 

Para alcançar as metas de crescimento, a China vai ter de depender da procura interna, incluindo investimento e consumo. Felizmente, as perspectivas são boas nas duas áreas. Ao contrário dos países desenvolvidos, que têm muitas vezes dificuldade em descobrir oportunidades de investimento produtivas, a China pode seguir melhorias na infra-estrutura, esforços de urbanização, gestão ambiental e ainda indústrias de alta tecnologia. E, também ao contrário de países em desenvolvimento rivais, a China tem uma ampla margem orçamental, poupanças de família e reservas em moedas estrangeiras para esses investimentos. Tais  investimentos vão gerar empregos, rendimentos para as famílias e consumo.

 

Em resultado disso, mesmo que as condições externas não melhorem, atingir um crescimento igual ou superior a 6,5% está bem ao alcance da China. Nesse caso, o país vai continuar a ser o primeiro motor económico do mundo, contribuindo para cerca de 30% do crescimento global até, pelo menos, 2020.

 

Justin Yifu Lin, antigo economista e vice-presidente do Banco Mundial, é professor na National School of Development, na Universidade de Peking, e presidente fundador do China Center for Economic Research.

 

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2016

Tradução: Diogo Cavaleiro     

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