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Sérgio Figueiredo - Jornalista. Primeiro diretor da edição diária em papel do Jornal de Negócios
22 de Dezembro de 2005 às 13:59

Amorim volta ao BCP

A Telefonica anuncia uma grande aquisição no Reino Unido e a Espanha inteira ergue-se e aplaude. O Millennium bcp revela a mesma ambição, quer adquirir dimensão europeia, avança para o maior banco romeno e os investidores fogem.

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Dá que pensar, como o mesmo movimento gera reacções absolutamente contraditórias em Espanha e em Portugal. Por que carga de água a ousadia empresarial é compensada num país e castigada noutro. Porquê?

Não existe uma explicação convincente. Mas é possível especular: parece que, no nosso caso, ninguém acredita na capacidade de um grupo nacional adquirir um concorrente extra-fronteiras, tomar conta do negócio e acrescentar-lhe valor.

A reputação demora a construir. E há muitos que continuam a fazer a mesma pergunta a várias empresas que, há uns anos, fizeram grandes aquisições internacionais.

A EDP comprou a Cantábrico e o que aconteceu? A PT está na maior operadora móvel do Brasil e o que aconteceu? Também o BCP, apesar da Polónia, não tem «track record» nesta matéria.

E foi incapaz de convencer que iria «digerir» o ex-monopolista estatal da Roménia, um mercado já de si complicado, traduzindo-o num prazo razoável em mais valor para os seus accionistas.

A história recente até lhe construiu uma reputação. Só que má. Os sucessivos aumentos de capital foram realizados para suportar aquisições. Mas queimaram recursos, destruiram valor, defraudaram expectativas, derrubaram as cotações e delapidaram património de quem confiou.

Sucede que as circunstâncias da derrota romena do Millennium bcp não se esgotam no resultado propriamente dito. Uma esgota-se no banco, é verdade, e é de uma simplicidade cruel: o que fica depois desta derrota?

A gestão de Paulo Teixeira Pinto colocou muita ênfase no BCR, explicou que a aposta era decisiva, como a aposta saiu gorada, alguém tem de responder à pergunta desagradável «e agora?». A um fracasso decisivo só pode suceder uma nova aposta decisiva.

A segunda questão é mais vasta e transversal à sociedade. A esta nossa colectividade recreativa e à forma como se colocou perante esta operação: na dúvida, não se apoia. A inveja não é o pior dos males, quando falta ambição. Os portugueses pensam pequenino e não gostam de quem ousa sair do quadrado.

É aqui que Amorim «entra» no BCP, vinte anos depois de ter ficado associado ao seu nascimento. O «senhor Américo» deu-nos uma outra lição de coragem e de visão. Resolveu o imbróglio da Galp com um cheque – algo que as dezenas de candidatos não mostraram, porque não tinham ou porque não arriscaram.

Não se esperava o aplauso que Botín ou Alierta recebem em Espanha, mas dispensava-se o velho espírito lusitano: quem está por detrás disto? a quem vai vender a seguir? que raio de golpe está o homem a preparar? O homem em causa já vendeu, comprou, voltou a vender e a comprar, mas anda por cá a investir e a criar empregos há quase sessenta anos. Mas não chega, não agrada. Tal como o BCP na Roménia, enquanto não perder, é um alvo a abater. Raio que os parta!

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