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Helena Garrido - Directora do Jornal de Negócios Helenagarrido@negocios.pt
16 de Maio de 2012 às 23:30

O tempo do medo

Este é um tempo de medo. Medo do desemprego, medo da falta de dinheiro para pagar a prestação da casa, medo de deixar de ter o euro, medo de perder a paz e a liberdade. Um medo filho de uma prosperidade falsa que nos atirou para uma espécie de ressaca, um estado em que ninguém parece ter energia para lutar, em que tudo se aceita como um inevitável destino, um fado.

Este é um tempo de medo. Medo do desemprego, medo da falta de dinheiro para pagar a prestação da casa, medo de deixar de ter o euro, medo de perder a paz e a liberdade. Um medo filho de uma prosperidade falsa que nos atirou para uma espécie de ressaca, um estado em que ninguém parece ter energia para lutar, em que tudo se aceita como um inevitável destino, um fado.

Foi há um ano, como se assinala hoje em balanço na edição do Negócios, que conhecemos formalmente os compromissos assumidos por Portugal com o FMI e a União Europeia como contrapartida de um empréstimo de 78 mil milhões de euros durante três anos. A campanha eleitoral que se seguiu adiou por uns tempos o confronto com o que esse empréstimo significava. O primeiro sinal chegou-nos, pouco tempo depois, com o imposto extraordinário sobre todos os subsídios de Natal. O grande choque chegou a 13 de Outubro de 2011, quando o primeiro- -ministro, Pedro Passos Coelho, anunciou o corte dos subsídios de férias e de Natal dos funcionários públicos.

Esse 13 de Outubro de 2011 foi o dia em que se interiorizou que, desta vez, era a sério, tinha mesmo chegado o lobo que se anunciava desde 2002, quando o actual presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, disse que o país estava de tanga. De tanga ficou o país, sem olhar para si. Até ter descoberto que, de facto, estava de tanga, a 13 de Outubro de 2011.

A tanga será, agora, tanto mais pequena quanto maior for a incapacidade dos nossos parceiros do euro lidarem com a crise. Ah, se tivéssemos cortado os salários da função pública em 2002, como tudo poderia ser hoje diferente. Mas, de facto, não vale a pena falar sobre o que não se fez, sobre a incapacidade dos políticos resolverem os problemas antes de todos perceberem que cairão no abismo se derem mais um passo. Foi assim com Portugal, está a ser assim na crise do euro, agora com novos abalos com epicentros na Grécia e em Espanha.

Passado um ano dos compromissos assumidos com a troika, Portugal é o país bem comportado, o menino querido da Alemanha, mas ainda mal amado pelos mercados. Todos reconhecem que o ministro português das Finanças tem um estatuto que transcende a imagem do país e dá garantias de respeito estrito pelo programa de ajustamento. Mas nada disto é suficiente para convencer os investidores de que Portugal vai ser capaz de sair do problema financeiro em que está com maior capacidade de crescer.

O balanço que se faz de um ano de troika é um sucesso na frente financeira, mas continua a levantar imensas dúvidas sobre a capacidade de crescimento económico de Portugal e a causar frustrações sobre a incapacidade que o Governo acabou por revelar de enfrentar os grupos de pressão da energia e das parcerias público-privadas representadas pelo trio da construção civil, das concessionárias e da banca.

É esta incapacidade de reduzir o poder de alguns grupos de pressão que ameaça seriamente a mudança que traz o crescimento com desenvolvimento. A incapacidade de redistribuir os custos do emagrecimento económico está a traduzir-se em mais desemprego e desigualdade, mas também em menos eficiência, porque quem vive de rendas, salários baixos e despedimentos fáceis não tem de batalhar por melhor organização e investimentos mais eficientes.

A troika está preocupada? Claro. Nunca previu que o desemprego subisse tanto em Portugal. E sabe que o medo e o sentimento de injustiça, quando misturados, são maus conselheiros, podem ser explosivos. Entre o medo e a revolta há um pequeno passo chamado injustiça na factura da crise.

helenagarrido@negocios.pt

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