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A economia global continua a pagar para destruir a natureza

Relatório das Nações Unidas mostra que o capital continua massivamente orientado para atividades prejudiciais aos ecossistemas. Por cada dólar gasto em proteção, são aplicados 30 na sua destruição.

18:41
Nuno Almeida
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A economia mundial continua a investir muito mais na degradação da natureza do que na sua proteção, segundo o relatório State of Finance for Nature 2026, do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP). Em 2023, os fluxos financeiros diretamente prejudiciais aos ecossistemas atingiram 7,3 biliões de dólares, enquanto o investimento em soluções baseadas na natureza se ficou pelos 220 mil milhões.

O documento traça um retrato claro de um sistema financeiro desalinhado com os limites do planeta e mostra como, por cada dólar aplicado na proteção, conservação ou restauração da natureza, mais de 30 dólares continuam a financiar atividades que degradam solos, água, biodiversidade e clima. “A continuação do modelo atual empurra-nos para uma degradação ainda maior dos ecossistemas”, alerta o relatório, que sublinha que esta trajetória ameaça “os ecossistemas, as economias e o bem-estar humano”.

Do total de financiamento considerado negativo para a natureza, 2,4 biliões de dólares correspondem a subsídios públicos ambientalmente prejudiciais, concentrados sobretudo nos combustíveis fósseis, na agricultura intensiva e no uso da água. Os restantes 4,9 biliões resultam de investimento privado, sobretudo concentrado em setores como o das utilities, indústria pesada, energia e materiais básicos. Para o UNEP, estes fluxos “continuam a ser o maior obstáculo à transição das sociedades para resultados positivos para a natureza”.

Em sentido contrário, o financiamento destinado a soluções baseadas na natureza, como a restauração de ecossistemas, a gestão sustentável da terra, a proteção da biodiversidade ou a adaptação climática, cresce lentamente. Em 2023, o total global atingiu 220 mil milhões de dólares, um aumento de apenas 5% face ao ano anterior. “O financiamento público para soluções baseadas na natureza é oito vezes superior ao financiamento privado”, refere o relatório.

Segundo as estimativas do UNEP, cumprir os compromissos internacionais assumidos no âmbito das três Convenções do Rio exige uma aceleração significativa. “Para cumprir os compromissos globais, o investimento em soluções baseadas na natureza terá de aumentar mais de duas vezes e meia, para 571 mil milhões de dólares por ano até 2030”, lê-se. Em paralelo, defende-se que os fluxos financeiros prejudiciais devem ser progressivamente eliminados ou reconvertidos.

Há, ainda assim, sinais de mudança, nomeadamente uma maior consciencialização do setor financeiro para os riscos associados à degradação da natureza. Mais de 730 organizações já aderiram às recomendações da Taskforce on Nature-related Financial Disclosures (TNFD), representando 22,4 biliões de dólares em ativos sob gestão. Apesar disso, o UNEP reconhece que esta tomada de consciência “ainda não se traduziu numa transformação estrutural dos fluxos de capital”.

“Virar o rumo do financiamento para resultados positivos para a natureza é essencial”, conclui o UNEP, que defende uma “grande viragem” que alinhe o capital com a proteção dos ecossistemas e a resiliência económica de longo prazo.

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