O ano que agora terminou deixa um balanço agridoce para o ambientalismo em Portugal e na União Europeia (UE). Entre conquistas relevantes, como a entrada em vigor do Tratado do Alto Mar, e sinais preocupantes de desregulação ambiental, as organizações não-governamentais ZERO e Quercus convergem na conclusão de que o contexto político se tornou mais adverso e que 2026 será determinante para o futuro da sustentabilidade.
No balanço apresentado, a ZERO enquadra 2025 como um ano marcado por “uma corrida para o abismo do business as usual”, e acusa a UE de promover “uma agenda de simplificação, que não é mais do que uma agenda de desregulamentação”, orientada para agradar a interesses instalados “mesmo que em prejuízo do bem-comum”. A associação alerta ainda para um “ataque orquestrado” aos financiamentos do movimento ambientalista europeu, sublinhando que “uma sociedade civil enfraquecida facilita o caminho para quem está apenas interessado em defender os seus próprios interesses”.
Apesar do contexto, a organização reconhece que houve sinais positivos. O mais relevante foi a ratificação do Tratado do Alto Mar, que entra em vigor a 17 de janeiro e cria um quadro jurídico vinculativo para proteger mais de dois terços dos oceanos.
O lado negativo pesa, contudo, no balanço e a estratégia “Água que Une” é apontada como um exemplo de política pública sem avaliação ambiental estratégica e excessivamente centrada no regadio industrial. A ZERO denuncia ainda o que considera ser a inércia na conservação da natureza e lembra que a inexistência do Cadastro Nacional dos Valores Naturais Classificados “dura há mais de 17 anos”, fragilizando a proteção da biodiversidade.
A Quercus lembra que Portugal viveu em 2025 “o seu verão mais quente dos últimos 94 anos”, com 1,55 graus acima da média e um recorde de 46,6 graus em Mora, contexto que ajudou a fazer deste o quarto pior ano de área ardida em três décadas, com mais de 269 mil hectares consumidos pelo fogo. A associação critica igualmente a estratégia nacional da água e o “enfraquecimento da legislação ambiental europeia”, apontando o pacote Omnibus como um retrocesso que “sacrifica a qualidade do ar, da água e da saúde pública em prol da competitividade”.
Entre as boas notícias, a Quercus destaca o embargo judicial à Barragem do Pisão, decretado por irregularidades ambientais, e a mobilização da sociedade civil contra megaprojetos fotovoltaicos, como o caso da central de Sophia, que reuniu quase 13 mil participações em consulta pública. A aprovação do programa Floresta Azul e do Mecanismo de Ação de Belém, na COP30, são também vistos como avanços relevantes, sobretudo pela integração da justiça social na ação climática.
Olhando para 2026, as duas organizações convergem nas prioridades e apontam a entrada em funcionamento do Sistema de Depósito e Reembolso, a transposição do Direito à Reparação, a finalização do Plano Nacional de Restauro da Natureza e uma resposta mais firme à crise dos resíduos e à perda de biodiversidade. Para a ZERO, este novo ano exige “pensamento a médio e longo prazo” e um reforço do papel da sociedade civil, enquanto a Quercus avisa que, sem essa mobilização, o risco é que a transição ambiental possa ficar refém de interesses de curto prazo.