Um estudo do Instituto de Potsdam para a Investigação do Impacto Climático (PIK), publicado esta semana na revista científica PNAS, avisa que os sistemas de pastoreio baseados em pastagens, que hoje cobrem cerca de um terço da superfície terrestre e representam o maior sistema de produção alimentar do mundo, vão sofrer uma redução severa à medida que o planeta aquece. As estimativas apontam para que entre 36% e 50% das áreas atualmente com condições climáticas adequadas possam perder viabilidade até 2100, afetando mais de 100 milhões de pastores e até 1,6 mil milhões de animais de pastoreio.
Aquilo que os investigadores definem como “espaço climático seguro” para o pastoreio de bovinos, ovinos e caprinos, está agora em risco. Até agora, estes sistemas agrícolas prosperaram dentro de certos intervalos de temperatura (entre -3 a 29 graus celsius), precipitação (entre 50 e 2627 milímetros por ano), humidade (de 39% a 67%) e velocidade do vento (entre 1 e 6 metros por segundo). Fora destes limites, a atividade torna-se cada vez mais difícil de sustentar.
“As alterações climáticas vão deslocar e contrair significativamente estes espaços a nível global, deixando menos áreas para os animais pastarem”, alerta Chaohui Li, o autor principal do estudo. Antigo investigador do PIK e atualmente no Barcelona Supercomputing Center, avisa ainda que “grande parte destas mudanças será sentida em países que já enfrentam fome, instabilidade económica e política e níveis mais elevados de desigualdade de género”.
Num cenário em que os fenómenos extremos e as condições climáticas se agravam, o pastoreio baseado em pastagens, que depende “fortemente do ambiente”, será diretamente afetado pelas altrações climáticas, responsáveis por “reduzir os espaços onde o pastoreio pode prosperar, desafiando de forma fundamental práticas agrícolas que existem há séculos”, explica Maximilian Kotz, coautor do estudo e também investigador no Barcelona Supercomputing Center e no PIK.
Portugal pode ser afetado
No contexto português, existe evidência de que as pastagens nativas e a pecuária extensiva já enfrentam desafios climáticos significativos. Uma investigação do CITAB, Inov4Agro e UTAD, focada no Norte de Portugal, concluiu que as pastagens são altamente sensíveis às secas de curta duração e que a projeção futura indica uma redução geral do vigor das pastagens, sobretudo em cenários de aquecimento mais intenso. Nestes casos mais pessimistas, a consequência será a alteração do ciclo natural de crescimento e poderá exigir adaptações no pastoreio para manter a produção de forragem e a sustentabilidade das explorações rurais.
Mas se Portugal está entre os países mais expostos na Europa, é no continente africano que está o principal foco de risco. Segundo os autores, as pastagens em África podem reduzir em 16% num cenário de baixas emissões ou até 65% num futuro em que o uso de combustíveis fósseis continue a crescer. As temperaturas em muitas regiões africanas já estão perto do limite superior do espaço climático considerado seguro para o pastoreio.
Com o aumento das temperaturas, os nichos climáticos que hoje sustentam regiões críticas como as terras altas da Etiópia, o Vale do Rift da África Oriental, a Bacia do Kalahari e a Bacia do Congo vão deslocando-se para sul.
“Este afastamento do que identificamos como espaço climático seguro põe seriamente em causa a eficácia das estratégias de adaptação que têm sido usadas em lugares como África em tempos de dificuldade, como a mudança de espécies ou a migração de rebanhos”, explica Prajal Pradhan. O coautor do estudo e professor assistente da Universidade de Groningen sublinha que “as alterações são simplesmente grandes demais para isso”.
Perante este cenário, Chaohui Li defende que a mitigação é crucial e reitera que “reduzir as emissões, afastando-nos rapidamente dos combustíveis fósseis, é a melhor estratégia que temos para minimizar estes danos potencialmente existenciais para a pecuária”.