O investimento global em combustíveis limpos está a crescer, mas continua longe da escala necessária para cumprir as metas de descarbonização até 2030. Entre 2024 e 2025, o capital anual aplicado em nova capacidade de produção aumentou cerca de 30%, para 25 mil milhões de dólares. O problema é que, segundo o estudo “The Clean Fuels Opportunity”, da Bain & Company em parceria com o Fórum Económico Mundial, seriam necessários cerca de 100 mil milhões de dólares por ano até ao final da década. Ou seja, o mercado está a mobilizar apenas um quarto do investimento necessário.
Apesar dos muitos anúncios feitos nos últimos anos, só 10% dos projetos de combustíveis limpos previstos para entrar em operação até 2030 chegaram até agora à decisão final de investimento. Na prática, a maioria continua numa fase intermédia de anúncio ou em desenvolvimento, mas ainda sem compromisso financeiro definitivo para avançar.
Esta lentidão é particularmente relevante porque os combustíveis limpos são vistos como uma das soluções críticas para setores onde a eletrificação direta é mais difícil. É o caso da aviação, do transporte marítimo e de segmentos da indústria pesada, áreas que exigem elevada densidade energética e onde as alternativas elétricas continuam limitadas ou insuficientes. Segundo o estudo, nestes setores os combustíveis limpos poderão representar até 55% do mix energético em 2050.
Mas o mercado continua preso num círculo difícil de quebrar, aponta o documento, que refere que os custos de produção permanecem elevados, a procura ainda não é suficientemente robusta, a regulação é incerta e faltam mecanismos eficazes de partilha de risco entre governos, produtores, compradores e investidores. “Apesar do consenso sobre o papel crucial destes combustíveis na transição energética, o mercado mantém-se num ciclo de incerteza: investidores aguardam sinais claros de procura e estabilidade regulatória, mantendo projetos estagnados por custos elevados e riscos financeiros persistentes”, afirma Francisco Sepúlveda, partner da Bain & Company.
A solução, defende a consultora, passa menos pela descoberta de novas tecnologias e mais pela criação de condições económicas para acelerar a escala industrial. O estudo aponta para a necessidade de incentivos à procura, contratos de longo prazo, maior previsibilidade regulatória e mecanismos de redução de risco para projetos em fase inicial. Estes instrumentos são, considera-se, decisivos para dar confiança aos investidores e permitir que os projetos anunciados passem da intenção à construção.
“A indústria já demonstrou capacidade tecnológica. O principal bloqueio deixou de ser técnico e passou a ser económico e regulatório”, aponta Diogo Rebelo, senior manager da Bain & Company. Sem uma aceleração do investimento e da execução, avisa, “os combustíveis limpos arriscam ficar aquém do papel crítico que lhes é atribuído na transição energética global”.