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Depois da década mais quente de sempre, o clima está em “estado de emergência”

Relatório da Organização Meteorológica Mundial revela que os últimos 11 anos registaram as temperaturas mais altas desde que há memória e alerta para impactos duradouros no oceano, gelo e nas economias.

13:50
Miguel Baltazar/Negócios
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O clima da Terra entrou numa fase de desequilíbrio sem precedentes na história, com sinais cada vez mais claros de aquecimento acelerado e impactos globais duradouros. O alerta é da Organização Meteorológica Mundial (OMM), no relatório State of the Global Climate 2025, divulgado esta segunda-feira.

“O estado do clima global está em emergência. O planeta Terra está a ser empurrado para além dos seus limites. Todos os principais indicadores climáticos estão a piscar a vermelho”, afirma o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.

O relatório confirma uma tendência que preocupa os especialistas, que apontam que o período entre 2015 e 2025 corresponde aos 11 anos mais quentes desde que há registos. No ano passado, a temperatura média global ficou cerca de 1,43 graus celsius acima dos níveis pré-industriais (1850-1900), sendo o segundo ou terceiro ano mais quente de sempre. “Quando a história se repete onze vezes, já não é coincidência. É um apelo à ação”, reforça António Guterres.

Um dos dados mais relevantes deste relatório é a inclusão, pela primeira vez, do chamado desequilíbrio energético da Terra como indicador-chave, que mede a diferença entre a energia que entra no sistema terrestre e a que é libertada para o espaço. Esse desequilíbrio atingiu um novo máximo em 2025, reflexo do impacto crescente das emissões de gases com efeito de estufa.

“Os avanços científicos melhoraram a nossa compreensão do desequilíbrio energético da Terra e da realidade que o nosso planeta enfrenta”, explica a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo. “As atividades humanas estão a perturbar cada vez mais o equilíbrio natural e viveremos com estas consequências durante centenas e milhares de anos”, acrescenta.

Os oceanos desempenham um papel central neste processo, porque absorvem mais de 91% do excesso de calor acumulado, funcionando como amortecedor do aquecimento atmosférico. Em 2025, o calor oceânico atingiu um novo recorde, com uma taxa de aquecimento que mais do que duplicou desde 2005.

Este fenómeno tem efeitos em cadeia, nomeadamente na subida do nível médio do mar, que já está cerca de 11 centímetros acima dos níveis de 1993, agrava tempestades tropicais e acelera a perda de gelo. O gelo marinho no Ártico registou níveis mínimos históricos, enquanto a Antártida apresentou a terceira menor extensão já medida. Ao mesmo tempo, o degelo de glaciares continua a acelerar, com perdas particularmente severas em regiões como a Islândia e a costa pacífica da América do Norte.

Os eventos extremos são outro sinal evidente desta nova realidade climática, em que ondas de calor, incêndios, secas, tempestades e inundações são apontadas como responsáveis por milhares de mortes e prejuízos de milhares de milhões de dólares em 2025. “No dia-a-dia, o nosso clima tornou-se mais extremo”, sublinha Celeste Saulo.

Estes fenómenos têm impactos profundos nas economias e sociedades, alerta ainda o relatório. A insegurança alimentar, impulsionada por eventos climáticos, está a tornar-se um risco crescente, com efeitos em cadeia na estabilidade social e nos fluxos migratórios.

O relatório destaca ainda os impactos na saúde, com doenças como a dengue – já considerada a doença transmitida por mosquitos com crescimento mais rápido no mundo – que estão a expandir-se, enquanto o stress térmico afeta cerca de 1,2 mil milhões de trabalhadores.

“Num tempo de guerra, o stress climático expõe outra verdade: a nossa dependência dos combustíveis fósseis está a desestabilizar tanto o clima como a segurança global. O relatório de hoje devia vir com um aviso: o caos climático está a acelerar e o atraso é fatal”, avisa António Guterres.

A OMM reforça que muitos destes impactos são irreversíveis à escala de séculos ou mesmo milénios, sobretudo no que diz respeito ao aquecimento dos oceanos e à subida do nível do mar. “Quando observamos o presente, não estamos apenas a prever o tempo – estamos a proteger o futuro. O futuro das pessoas. O futuro do planeta”, conclui Celeste Saulo.

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