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Portugal recolhe menos de 4% do óleo alimentar usado em casa

A ZERO alerta que o país continua a perder matéria-prima essencial para a produção de biocombustíveis, num momento em que a dependência dos fósseis volta a expor fragilidades.

18:44
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Portugal continua a deitar fora um recurso que pode ajudar a reduzir a dependência dos combustíveis fósseis. O alerta é da ZERO, que acusa o país de estar a desperdiçar óleos alimentares usados (OAU) com valor ambiental, económico e energético, numa altura em que a instabilidade internacional volta a evidenciar os riscos da dependência externa.

Segundo a associação, “continuar a desperdiçar óleos alimentares usados (OAU) que são a matéria-prima mais sustentável para produzir biocombustíveis capazes de substituir a importação de combustíveis fósseis” é “uma irresponsabilidade que o país não pode aceitar”.

Os dados mais recentes recolhidos pela ZERO junto da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) mostram que, em 2023, os municípios reportaram a recolha de apenas 908 toneladas de OAU. No ano anterior tinham sido 868 toneladas. O número é residual quando comparado com a estimativa, referida pela APA, de que em Portugal são geradas entre 43 mil e 65 mil toneladas de OAU por ano, das quais cerca de 62% têm origem no setor doméstico.

Feitas as contas, isso significa que o país poderá gerar entre 27 mil e 40 mil toneladas anuais de óleo alimentar usado apenas nas casas portuguesas. Ainda assim, a recolha municipal conhecida representará apenas “cerca de 2,3% a 3,4% do potencial doméstico estimado”, o que para a ZERO significa “um falhanço grave da política pública, uma perda de matéria-prima valiosa e mais uma dependência evitável”.

O retrato torna-se ainda mais claro na análise aos municípios com mais de 100 mil habitantes. Em 2022, 24 concelhos que representam praticamente metade da população portuguesa recolheram 515 toneladas de OAU, com uma média anual de apenas 0,11 litros por habitante. O estudo identifica também uma relação direta entre a quantidade recolhida por pessoa e o número de oleões disponíveis, sugerindo que a falta de infraestrutura continua a travar a valorização deste resíduo.

Os melhores resultados surgem onde a rede de recolha é mais densa ou onde existem soluções complementares, como os sistemas porta-a-porta ou a recolha a pedido. Maia, Seixal e Oeiras destacam-se pela positiva, enquanto muitos outros municípios permanecem longe do que seria exigível.

A ZERO sublinha que, tendo em conta que cerca de um quarto do óleo alimentar é absorvido pelos alimentos durante a utilização, a meta realista de separação ronda os 2,5 a 3 litros por pessoa e por ano. Se esse potencial doméstico fosse efetivamente captado, Portugal poderia produzir “cerca de 25 a 30 milhões de litros de biocombustível por ano”, multiplicando por 25 a 30 vezes a produção atual de biocombustível de origem doméstica.

Além disso, os OAU, lembra a associação, “não devem ser despejados no lava-loiça, na sanita nem no esgoto”. Quando isso acontece, aumentam os problemas nos sistemas de drenagem e tratamento de águas residuais, agrava-se a poluição da água e geram-se custos evitáveis para os serviços públicos.

Para a ZERO, Portugal tem já “capacidade industrial e empresarial para valorizar este recurso”, pelo que o bloqueio não está na tecnologia, mas na recolha, na ambição política e na prioridade dada a este fluxo. A associação defende a instalação de mais oleões, melhor manutenção e localização, combate ao roubo e vandalismo, maior transparência dos dados e o reforço de soluções de recolha mais eficazes.

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