Os verões europeus estão a ficar mais longos e a tendência pode intensificar-se nas próximas décadas, segundo um novo estudo científico. Os cientistas apontam que, até ao final do século, a estação mais quente do ano pode ganhar até 42 dias adicionais, caso se mantenha o atual ritmo de aquecimento global.
Publicado na revista Nature Communications, o trabalho recorre a uma abordagem original e, em vez de depender apenas de dados meteorológicos recentes, os investigadores analisaram sedimentos acumulados anualmente em lagos da Finlândia e do Reino Unido, criando um registo contínuo da duração do verão ao longo de cerca de 10 mil anos.
Esses sedimentos funcionam como uma espécie de “arquivo natural”, que permite analisar os efeitos desta estação do ano no planeta durante este período. A espessura das camadas formadas no verão e no inverno permite estimar quantos dias durou cada estação ao longo do tempo. Segundo os autores, o método mostra uma relação clara entre a duração do verão e a diferença de temperatura entre as regiões mais a Sul e mais a Norte da Europa.
O estudo conclui que a redução da diferença de temperatura entre o Sul e o Norte da Europa está associada a verões mais longos, um fenómeno que está hoje a intensificar-se devido ao aquecimento mais rápido do Ártico.
Os resultados mostram que, durante um período quente do passado, entre 8 mil e 3500 anos atrás, o verão durava em média quase 195 dias por ano, muito acima do que é habitual atualmente. Para os investigadores, este período é uma “referência natural” do que pode acontecer num clima mais quente.
“Uma diminuição de 1 grau Celsius na diferença de temperatura entre o Sul e o Norte da Europa está associada a um prolongamento do verão em cerca de seis dias”, refere o artigo.
Com base nesta relação, os autores estimam que, num cenário de emissões elevadas, “o verão poderá prolongar-se até mais 42 dias até 2100”. Embora alertem que estas projeções envolvem incertezas, sublinham que a tendência é consistente com o que já se observa nas últimas décadas.
O estudo reconhece ainda que fatores humanos, como as emissões de gases com efeito de estufa, tornam o contexto atual diferente do passado distante. Ainda assim, conclui que olhar para milhares de anos de história climática ajuda a compreender melhor o futuro e que o possível prolongamento do verão levanta desafios concretos na agricultura, saúde pública ou gestão da água que não podem ser ignorados.