O comboio de tempestades que devastou o centro do país no início do ano deixou uma conta de 1.500 milhões de euros em prejuízos e só a Allianz pagou 150 milhões, dez vezes mais do que na última grande catástrofe natural registada em Portugal. Os números ilustram, melhor do que qualquer discurso, a dimensão das mudanças que o sistema financeiro tem de aprender a gerir num contexto de maior risco de eventos climatéricos extremos.
Foi este o pano de fundo do debate “Como se financia a adaptação às mil e uma mudanças?”, integrado na Grande Conferência Negócios Sustentabilidade 20|30, moderado por Hugo Neutel, jornalista do Negócios. A sessão reuniu Miguel Maya, CEO do Millennium BCP, Teresa Brantuas, CEO da Allianz Portugal, Sérgio Frade, CEO do Crédito Agrícola, e Pedro Leitão, CEO do Banco Montepio.
O Governo avançou com um modelo de seguro obrigatório para habitações com crédito, como alicerce de um futuro Fundo de Catástrofes. “Temos que preparar tanto as famílias como as empresas, como o nosso país, a comunidade, para este tipo de eventos, com alerta e com prevenção”, disse Teresa Brantuas. Com apenas 50% das habitações cobertas por seguro multirriscos, a CEO da Allianz reconhece que as famílias “não estão preparadas” e que a literacia financeira é um caminho que ainda está por fazer.
Miguel Maya concorda com o princípio, mas alerta para os incentivos errados. “Se chegarmos a criar a ideia de que agora já não é preciso fazer o seguro, porque se não fizer o seguro há um backup, o que estamos a fazer é destruir valor”, avisou. O fundo deve proteger quem não tem capacidade para se segurar e não quem opta por não o fazer, e a diferença é crucial para garantir que o modelo se sustenta.
O risco climático entrou nos modelos de crédito
A questão já não é se os riscos climáticos importam para a banca, mas antes como integrá-los de forma eficaz. Pedro Leitão, do Banco Montepio, explicou que a incorporação destes fatores deixou de ser “uma questão de conformidade e de compliance” para passar a ser parte estrutural da análise de crédito. Quando as tempestades de janeiro afetaram uma zona que representava 15% a 18% da carteira de crédito de vários bancos naquela região, o impacto potencial tornou-se impossível de ignorar.
Sérgio Frade, que lidera a rede bancária com maior implantação territorial do país, foi mais longe na dimensão comunitária e recordou como as Caixas de Crédito Agrícola abriram portas ao sábado e domingo durante o apagão, “disponibilizando dinheiro vivo aos clientes ainda que sem sistemas”. “Isto também revela a proximidade e o apoio às comunidades que os bancos podem e devem dar”, sublinhou.
Inércia pode custar caro
A crise geopolítica e os custos de energia adicionaram pressão aos negócios em praticamente todos os setores, o que alterou a forma como os gestores atuam. Miguel Maya observa nos empresários uma mudança de mentalidade, que passou da lógica do just-in-time para o just-in-case, e defende que a crise pode “acelerar” a transição energética. Mas avisa que há quem não esteja a ver o cenário completo. “Quem tiver a miopia de olhar para o dia de hoje ou mesmo só para o dia de amanhã, provavelmente vai atrasar investimentos, vai ficar à espera da estabilidade, e quando despertar para o tema, provavelmente é tarde demais”.
Sérgio Frade partilha do otimismo com reservas e reconhece uma sensibilidade crescente para os temas ESG, sobretudo entre os empresários mais jovens que herdam os negócios de família. “Com a certeza também que, se não acompanharmos, vai haver um conjunto relevante de empresas que não vão sobreviver porque não fizeram esses investimentos no momento em que os deviam fazer”, avisa.
Sobre a questão social, o Banco Montepio publicou o primeiro relatório de impacto social de um banco em Portugal, com mais de 1.100 milhões de euros canalizados para a economia social e 465 mil pessoas impactadas. “Se a componente social ficar para trás, temos outro problema para resolver que não faz muito sentido”, alertou.
A IA como acelerador
Na reta final do debate, a conversa virou para a tecnologia, com Teresa Brantuas a descrever uma transformação acelerada à boleia da explosão da IA. No Crédito Agrícola, Sérgio Frade sentiu ganhos de produtividade de 25% em equipas de desenvolvimento, mas garante que o objetivo não é reduzir efetivos.
A última palavra coube a Miguel Maya, que considera que o grande risco da IA não é tecnológico, mas humano. “A tecnologia, por si só, não é o problema. O risco está na forma como é usada pelas pessoas.”, disse.
