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“Foi um cenário de guerra”. Como a E-Redes recuperou a rede elétrica

Um milhão de portugueses sem luz, 50 subestações danificadas, caminhos cortados por árvores e comunicações destruídas. A tempestade Kristin pôs à prova a distribuidora de energia elétrica e revelou as fragilidades de uma rede que terá de aprender a conviver com um clima cada vez mais extremo.

15:20
Debate sobre negócios e sustentabilidade após a tempestade Kristin
Debate sobre negócios e sustentabilidade após a tempestade Kristin Fernando Costa
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Nuno Cardoso descreveu como responderam à tempestade Kristin, que deixou cerca de um milhão de portugueses sem eletricidade e obrigou a soluções de emergência para recuperar a rede.

Era madrugada quando a tempestade Kristin entrou em Portugal pelo Atlântico e, no centro de operações da E-Redes, em Lisboa, os alarmes não paravam de soar. “O nível de alarmes foi tal que não há como acorrer àquilo”, recorda Nuno Cardoso, então diretor de Ativos de Alta Tensão da distribuidora, que esteve no terreno nas semanas seguintes e foi um dos convidados da Grande Conferência do Negócios Sustentabilidade, para explicar como se recuperou a rede elétrica.

Colapsou a rede principal, colapsou a redundância e, portanto, não havia muito a fazer. Nuno Cardoso, Assessor Sénior do Conselho de Administração da E-Redes

O país sentiu um impacto sem precedentes, que deixou cerca de um milhão de pessoas sem eletricidade. Os distritos de Coimbra, Santarém e Castelo Branco foram afetados, mas foi em Leiria que esteve o epicentro da destruição. A lista de danos incluiu 50 subestações danificadas, rede de alta tensão colapsada, mesmo com os sistemas de redundância, e uma rede de média tensão urbana inundada em vários pontos. “Colapsou a rede principal, colapsou a redundância e, portanto, não havia muito a fazer”, assume o responsável, numa conversa moderada pela diretora do Negócios, Diana Ramos.

Quando a redundância também falha

A tempestade não apanhou a E-Redes desprevenida. O Plano Operacional de Atuação em Crise (POAC) tinha sido ativado dias antes, quando os serviços meteorológicos começaram a usar um termo que Nuno Cardoso já conhecia de 2009: ciclogénese explosiva. “Percebi que alguma coisa de muito grande ia acontecer”, conta. Ainda assim, a incerteza sobre o ponto de entrada da tempestade em terra tornou inútil qualquer pré-posicionamento de equipas. “Não vale a pena estarmos a adivinhar onde é que as equipas devem estar. Vamos ter de deixar passar”, concluiu na madrugada em questão.

O primeiro dia foi “de grande confusão”, porque, sem comunicações na zona afetada, as equipas eram enviadas às cegas para verificar o estado das linhas. As estradas estavam cortadas por árvores, os helicópteros e os drones não podiam voar. Só ao segundo dia foi possível lançar drones no ar, primeiro os mais pequenos, depois equipamentos de maior alcance que permitiram ter, finalmente, uma imagem do terreno. “É quando conseguimos perceber o que é que estava a acontecer. Porque o primeiro dia é apagar fogos”, explica Nuno Cardoso.

Com visibilidade sobre os danos, foi então possível montar uma estratégia. No caso da subestação de Andrinos, central para a rede de Leiria, a equipa identificou duas linhas de alta tensão danificadas, uma com 14 postes afetados e outra com 22, e tomou a decisão de abandonar a mais complexa e concentrar todos os esforços na outra. Para os troços mais difíceis, a empresa recebeu uma autorização especial da Direção-Geral de Energia e Geologia para estender o cabo subterrâneo depositado diretamente no solo. Postes foram retirados de obras em curso noutras zonas do país. “Fomos buscá-los para pôr ali. Conseguimos juntar estas peças todas”, descreve. “Foi um conjunto de manobras bastante inventivas”.

Reconstruir depressa, reforçar para o futuro

Os resultados chegaram progressivamente e começaram a ver-se na manhã seguinte à tempestade, altura em que 60% dos clientes afetados já tinham energia, sobretudo fruto do elevado nível de automação da rede. Ao fim de poucos dias, 85% dos casos estavam resolvidos. O último cliente foi reconectado passado um mês, recorda o especialista. A E-Redes continua hoje a trabalhar na zona, agora numa fase em que o foco é o reforço da resiliência. A empresa está a executar um plano quinquenal de investimentos de 1,5 mil milhões de euros para o período 2026-2030, dos quais 300 milhões são destinados à resiliência da rede.

Questionado sobre a imagem que guarda daqueles dias, Nuno Cardoso aponta que o momento mais marcante foi “chegar à Marinha Grande e ver as pessoas a fazerem fila para um fontanário com garrafões de água”. Aresiliência das equipas foi fundamental, numa altura em que vários técnicos da E-Redes que recuperavam as ligações tinham, também eles, as suas casas afetadas pela tempestade.

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