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IA e robotização estão entre o entusiasmo e o medo do desconhecido

Empresas, autarquias e academia debateram como integrar a inteligência artificial sem perder o que é humano, mas também sobre a importância de definir regras.

18:00
Oradores debatem negócios e sustentabilidade em evento
Oradores debatem negócios e sustentabilidade em evento Fernando Costa
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Ana Trigo Morais, João Pinto, Luís Almeida Capão, e Patrícia Gonçalves, defenderam no painel moderado por Helena Garrido, que a inteligência artificial já está a transformar empresas, escolas e autarquias, mas que a sua adoção exige literacia, dados estruturados, regulação clara e capacidade para preparar pessoas e organizações para funções cada vez mais apoiadas por tecnologia.

Ninguém tem a certeza do que aí vem e nem mesmo os fundadores da Anthropic concordam. Dario Amodei disse, em 2025, que metade dos empregos juniores vai desaparecer e a sua irmã Daniela disse o contrário, defendendo que o impacto será menor. Foi com esta contradição que Patrícia Gonçalves, representante da Diáspora Jovem na área de Tecnologia e Inovação, abriu a sua intervenção no debate sobre a adaptação à inteligência artificial (IA) e à robotização, integrado na Grande Conferência Negócios Sustentabilidade 20|30. “Nem eles estão certos. O CEO da Microsoft diz que a IA é como uma bicicleta, um andaime para o potencial humano, e passado um ano faz um dos maiores despedimentos da história da empresa, de 15 mil trabalhadores”, recordou. Com este nível de incerteza, os participantes no debate acreditam que é importante agir já, mesmo sem saber exatamente quais as consequências desta revolução tecnológica.

Não vale a pena parar o vento com as mãos. Ana Trigo Morais, CEO da Sociedade Ponto Verde

Ana Trigo Morais, CEO da Sociedade Ponto Verde, chegou ao debate com projetos concretos. A organização lançou há quatro anos o Resource, um programa de inovação aberta com startups de 40 nacionalidades para resolver problemas da reciclagem, de onde saíram um braço robótico para separar embalagens e um sistema de georreferenciação com IA para otimizar os ecopontos. Internamente, a CEO lançou o AI Boost para promover a literacia e a produtividade em IA para todos os colaboradores e um primeiro inquérito revelou a divisão típica: uns convictos de que vão trabalhar menos, outros com medo de perder o emprego. “Não vale a pena parar o vento com as mãos”, admitiu. “Comecei a perceber que havia imensos colaboradores que, em diversas áreas, já estavam a usar ferramentas de IA”, contou, lembrando que é preciso assegurar uma boa estrutura de dados. Caso contrário, avisou, “não conseguimos ter boas soluções”.

Mudanças sentem-se no ensino e nos municípios

O conhecimento geral, que é aquele que faz evoluir a sociedade, pode ser posto em causa. João Pinto, Dean da Católica Porto Business School

João Pinto, Dean da Católica Porto Business School, explicou que a escola criou em 2024 um código de conduta para professores, alunos e staff, exigindo que os estudantes declarem em detalhe, num anexo assinado à dissertação, que ferramentas e prompts utilizaram. No entanto, e apesar de reconhecer as mais-valias da tecnologia, alertou para o risco do “colapso do conhecimento” e sublinhou que a especialização promovida pela IA pode comprometer o saber geral. “A partir do momento em que tenho todas estas ferramentas e o conhecimento específico é gerado por elas, o conhecimento geral, que é aquele que faz evoluir a sociedade, pode ser posto em causa”.

A inteligência artificial vai colmatar aquilo que os quadros médios não conseguiriam fazer, dando-lhes skills que não têm agora. Luís Almeida Capão, Vice-presidente da Câmara Municipal de Cascais

Desfazer o mito do funcionário público não produtivo foi o que fez Luís Almeida Capão, vice-presidente da Câmara Municipal de Cascais, que considera a ideia “um mito urbano surpreendentemente errado” e defende mesmo que a IA, a nível local, pode ser uma alavanca para as autarquias recuperarem competitividade. “A inteligência artificial vai colmatar aquilo que os quadros médios não conseguiriam fazer, dando-lhes skills que não têm agora”, acredita.

Em termos práticos, Cascais está a testar IA no contact center e no orçamento participativo, com o objetivo de libertar funcionários das tarefas repetitivas, como as 120 mil chamadas mensais só na área do ambiente, para o contacto humano. Em tom de brincadeira, o autarca comparou a IA a uma “versão tech do Ozempic”, que “todos usam e ninguém assume”.

Quem é que vai impor estas regras? É o Dario Amodei, da Anthropic? É o Sam Altman, do ChatGPT? É a Comissão Europeia? É o governo português? Somos nós? Patrícia Gonçalves, Diáspora Jovem

Com uma perspetiva internacional apoiada na sua experiência no Fórum Económico Mundial, Patrícia Gonçalves reconheceu os avanços em medicina molecular e na substituição de tarefas penosas, mas perguntou quem será responsável por regular a tecnologia. “Quem é que vai impor estas regras? É o Dario Amodei, da Anthropic? É o Sam Altman, do ChatGPT? É a Comissão Europeia? É o governo português? Somos nós?”, deixou no ar. O debate em torno do AI Act ficou, disse, aquém das expectativas e lembrou que a pressão da competitividade tende a esvaziar o sentido de agência das instituições, um risco que a sociedade não deve correr com a IA.

Quanto ao emprego, foi pragmática e disse acreditar que os jovens não vão ser substituídos, mas que vão transformar-se em “maestros” que coordenam agentes de IA. “Tudo o que for detalhe, estamos safos. Por enquanto”, rematou.

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