O workshop da tarde da Grande Conferência Negócios Sustentabilidade 20|30, dedicado ao que já estamos a fazer com a tecnologia e moderado por Filipa Pantaleão, secretária-geral do BCSD Portugal, serviu para apresentar números, casos implementados e resistências à adaptação já ultrapassadas. Da sala de urgências de Santander à rede elétrica portuguesa, do escritório de advogados ao simples saco de lixo com QR code, o que esteve em debate foi o que já está a acontecer e o que ainda falta mudar.
Eduardo Freire Rodrigues, CEO da Up Hill, abriu com um problema que qualquer português reconhece: as filas de espera nas urgências. A solução da sua empresa passa por automatizar a prescrição de exames logo após a triagem, sem esperar que o médico seja chamado. “Os hospitais que implementam este sistema conseguem atingir reduções de tempo de espera entre 25% e 30%”, afirmou. O impacto não é só operacional e inclui “o alívio do sofrimento destas pessoas, que passam a ter medicação sintomática mais cedo”.
A Up Hill já opera em cerca de 500 unidades na Península Ibérica, e Eduardo Freire Rodrigues insiste que o objetivo nunca foi substituir profissionais de saúde, mas “libertar tempo dos profissionais, automatizando aquilo que são tarefas clínicas mais repetitivas, mantendo sempre a supervisão humana”. Quando confrontado com o ceticismo dos médicos e enfermeiros, defendeu que, “quando se ultrapassam essas barreiras, aquilo que é um aparente obstáculo torna-se o maior defensor do projeto”.
Do setor da saúde ao direito, a pergunta é semelhante: como convencer um mercado conservador a mudar? Vasco Silveira, diretor de transformação digital da Abreu Advogados, está há apenas quatro meses no cargo, tempo suficiente para mapear o problema e perceber que “grande parte do trabalho pode ser automatizada” e digitalizada. “Essa é a grande mais-valia e é o potencial absolutamente fantástico que existe no mercado legal”, afirmou.
Os casos de uso identificados incluem automatizar tarefas de due diligence, produção de declarações de IRS e revisão de documentação. A arquitetura pensada pela sociedade de advogados combina diferentes modelos de inteligência artificial escolhidos consoante o caso específico. “Esta camada de orquestração é absolutamente fundamental para montarmos uma solução que seja robusta”, explicou Vasco Silveira.
A mudança implica um reposicionamento da própria profissão, porque “o perfil do advogado terá garantidamente de fazer o shift para um perfil que será um híbrido entre um advogado e um engenheiro”.
Tecnologia aplicada ao dia a dia
Usar o objeto mais banal do mundo, o saco do lixo, como ponto de entrada para a rastreabilidade e a sustentabilidade foi a proposta trazida por Natércia Garrido, responsável de ESG da Silvex, uma empresa de embalagens flexíveis.
Em municípios portugueses, sacos de recolha seletiva com QR code permitem avaliar rotas, comportamentos dos cidadãos, otimizar a logística e, num futuro próximo, premiar quem recicla melhor. Nos Estados Unidos, sacos para recolha de cápsulas de café exportados pela Silvex têm QR codes que orientam quem recicla sobre a composição do material. E numa linha de marca própria, o consumidor que lê o código recebe “sementinhas” que pode destinar a projetos de reflorestação ou limpeza dos oceanos.
“Não consigo encontrar nenhum inconveniente no uso desta tecnologia”, afirmou Natércia Garrido. “É uma forma muito fácil de todos percebermos que por trás de um simples saco há uma grande história para contar.” A empresa já tem projetos em funcionamento em vários municípios, com resultados que descreve como “muito positivos”.
O caso mais inesperado do painel veio, no entanto, do espaço, pela voz de Ricardo Cabral, cofundador e CEO da Spotlite, que trabalha com dados de satélite de alta resolução para ajudar operadores de redes elétricas a gerir a vegetação junto aos corredores de segurança.
O desafio é que, embora seja preciso cortar, também não se deve eliminar a vegetação para preservar biodiversidade. “Temos que cortar e não devemos cortar ao mesmo tempo”, reiterou Ricardo Cabral, para quem a solução passa por algoritmos de inteligência artificial que classificam a vegetação quase ao nível da espécie e produzem uma matriz de risco que o operador usa para decidir o tipo de intervenção. Os resultados permitem “poupar, do ponto de vista operacional, em alguns casos, 30% a 40% dos gastos”.
Há ainda um ganho de segurança que o CEO considera mais importante do que os ganhos operacionais e que permitiu que as equipas que antes faziam inspeções de campo em ambientes perigosos passassem, em muitos casos, a trabalhar integralmente a partir do escritório. Depois das tempestades que afetaram o centro de Portugal, a Spotlite está também a fazer o mapeamento integral da biomassa acumulada para indicar aos operadores onde intervir com maior prioridade.
