Sorrisos na plateia da Nova SBE, mas com um aviso logo à entrada para que “esta discussão não seja demasiado confortável” e que “não nos leve a sorrir e a pensar que as coisas estão bem e que estamos a progredir, porque não estamos”. Foi assim que Mariana Mazzucato, economista e professora na University College London e autora de bestsellers como Mission Economy e The Entrepreneurial State, abriu a sua intervenção na Grande Conferência Negócios Sustentabilidade 2030, organizada pelo Negócios em Cascais.
O problema começa com a forma como, enquanto sociedade, olhamos para as metas de sustentabilidade, nomeadamente para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas, que considera que nunca foram levados verdadeiramente a sério. “Ao falarmos em 2030, e agora estão a mudar para 2040, foram sempre apresentados como um desafio longínquo. Com a guerra, as pessoas levam as coisas a sério e todas as ferramentas do Estado se orientam para resultados. Com o clima, voltamos à normalidade e ficamos lentos outra vez”, critica.
A economista fez uma crítica cerrada ao modelo económico dominante, lembrando que, nos últimos dez anos, as maiores empresas do mundo gastaram sete biliões de dólares em recompras das suas próprias ações para fazer subir os preços em bolsa e os bónus dos gestores. “Esta falta de reinvestimento na economia é um problema enorme”, sublinhou, recuperando uma metáfora dos fisiocratas do século XVIII. “Chamavam-lhe uma classe estéril, aqueles que apenas retiram, sem reinvestir”.
Mazzucato apontou ainda a mira ao setor financeiro, defendendo que deve ter um papel mais ativo no apoio à transição para um modelo económico sustentável e lembrando que, só no Reino Unido, 80% do financiamento vai para o próprio setor financeiro, para seguros e imobiliário. “Não precisamos de mais dinheiro para os problemas, há dinheiro em abundância. O que precisamos é de financiamento de longo prazo, paciente e comprometido com a sustentabilidade em toda a economia”.
Estado como empreendedor, não como bombeiro
Para a economista, o grande equívoco da nossa época é pensar que o papel do Estado é apenas corrigir falhas de mercado e intervir quando as coisas correm mal. “Precisamos de uma visão proativa, que molde a economia em vez de a reparar. Não esperamos que as coisas corram mal para agir”, diz.
Mazzucato apelou ao modelo das missões, desafios concretos e mensuráveis, à semelhança do que foi a corrida à Lua na década de 60. “Sabemos como fazê-lo para ir à Lua e regressar. Fingimos que não sabemos como fazê-lo com as alterações climáticas”, acusa. A NASA, recordou, começou por mudar a lei e o modelo de contratação pública para passar de uma lógica de custo-benefício estática para uma lógica orientada por missão. O resultado deu frutos que se prolongaram até ao século XXI, originando câmaras fotográficas nos telemóveis, mantas de sobrevivência e isolamento para casas.
Aplicando o mesmo raciocínio ao clima, a professora defende que devem ser criadas missões concretas e intersectoriais, como na “mobilidade sustentável, agricultura sustentável, [e no] que vestimos”, que obriguem diferentes ministérios e setores a trabalhar em conjunto com orçamentação orientada para resultados.
Na bússola deve estar o bem comum
Mariana Mazzucato prepara-se para juntar um novo livro à coleção de obras editadas, The Common Good, que propõe cinco princípios para uma economia verdadeiramente guiada por objetivos coletivos: propósito e direcionalidade; cocriação e participação na definição das missões; aprendizagem coletiva e partilha de conhecimento; acesso universal e partilha de benefícios; e transparência e responsabilização.
Apesar do tom pessimista, Mariana Mazzucato terminou a keynote lembrando que “há muitas sementes do bem comum, mas porque não temos uma bússola, perdemo-nos pelo caminho e as coisas não escalam, não transformam”. É por isso, sublinhou, que eventos como este são cruciais para que empresas e decisores possam começar a construir, em conjunto, a bússola da sustentabilidade.
