As tempestades que assolaram Portugal no início de 2026 deixaram um rasto de destruição que vai muito além dos danos patrimoniais e obrigaram empresas, setor segurador e Estado a repensar a forma como o país se prepara para fenómenos climáticos extremos. Foi esse o mote do debate de abertura da Grande Conferência Negócios Sustentabilidade 2030, “A crescente importância da economia da adaptação”, moderado por Paulo Moutinho, editor executivo do Negócios.
As perdas para o setor segurador deverão situar-se entre 1 e 1,5 mil milhões de euros, começou por enquadrar Pedro Carvalho, CEO da Generali Tranquilidade, que disse mesmo que, em 250 anos de história em Portugal, a companhia nunca tinha registado tal evento. “Em termos de ventos ciclónicos, não tínhamos este registo e não estávamos particularmente preparados. O Atlântico Norte tipicamente amenizava estes fenómenos, mas desta vez não amenizou”, apontou. O impacto vai além dos edifícios residenciais e dos pequenos estragos em espaços comerciais. “Desta vez vamos ter empresas a deixar de produzir, a perder clientes ou simplesmente a não reabrir. Tem um impacto insustentável na economia”, lamentou.
A questão da falta de preparação estatal foi colocada diretamente a Rodrigo Camacho, economista do Governo de Abu Dhabi, que respondeu de forma pragmática, argumentando que Portugal pode aprender com países que já convivem diariamente com eventos climáticos extremos. “Os Emirados são um país onde as tempestades de areia são o nosso pão de cada dia, a seca é permanente há décadas e as temperaturas chegam aos 50 graus no verão. E ainda assim foram um sucesso económico tremendo, porque souberam adaptar-se”, considera.
Mais financiamento, menos improviso
Para Luís Guimarães, Chief Commercial and International Officer do Banco Português de Fomento, a resposta financeira à calamidade foi célere e permitiu disponibilizar mais de mil milhões de euros aprovados em financiamento em menos de dez dias, em parceria com a banca comercial. “Estivemos anteontem em Porto de Mós, num evento com mais de 200 empresários, e já se sentia energia na sala. As pessoas começaram a pôr as mãos à obra logo no dia seguinte”, partilhou.
“A descarbonização e a luta contra a perda de biodiversidade não são um imperativo económico, são um imperativo existencial e, portanto, cultural”, sublinhou, comparando-as à recolha do lixo. “Ninguém justifica recolher o lixo com derramas económicas positivas. Fazemo-lo porque queremos um bairro limpo”.
A fatura da resiliência
Um dos temas em cima da mesa foi a proposta, que circulou logo após o comboio de tempestades, para enterrar toda a rede elétrica nacional, algo que Nuno Ribeiro da Silva considerou uma falácia de soluções emocionais. “É perfeitamente utópico. Há lições a tirar, e pode haver reforço pontual em zonas críticas, mas temos de perceber que aumentar a resiliência tem sempre um custo”, explicou o consultor para o setor energético. O especialista criticou ainda o rumo da transição energética, lembrando que, apesar dos avanços nas renováveis, “nunca se consumiram tantos barris de petróleo por dia como no ano passado”. “Não estamos a fazer uma transição energética, estamos a fazer uma adição energética”, sublinhou. A eletricidade, alertou, representa apenas um quarto da procura final de energia do país, enquanto os restantes 75%, da mobilidade ao calor industrial e aos processos produtivos, exigem uma transformação muito mais profunda do que a simples instalação de painéis solares.
Para quem lida diariamente com probabilidades e estimativas, Pedro Carvalho alertou que a catástrofe do início deste ano não será um caso isolado e considerou que o fundo anunciado pelo Governo, embora útil, chega tarde. “Vem depois desta catástrofe, mas outras haverá no futuro”, disse o líder da seguradora. “A maior ineficiência é que vem a catástrofe e depois distribuímos dinheiro sem saber bem para onde e como, e desperdiça-se muito, porque não estávamos preparados”.
O exemplo de Espanha foi referido como positivo, lembrando que, após as inundações de Valência, o mecanismo de distribuição de apoios funcionou com muito maior eficácia precisamente porque existia um fundo gerido em conjunto pelo Governo e pelas seguradoras. Portugal é, sublinhou o CEO da seguradora, a única economia europeia sem esse mecanismo e uma das cinco do mundo com maior exposição do PIB ao impacto de catástrofes.
A questão, concordam os oradores, não é a falta de instrumentos financeiros ou de regulação, mas de cultura. A adaptação tem sido feita, mas “lenta e muito pressionada pelo curto prazo”, criticou Pedro Carvalho.
