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59% dos gestores ibéricos não esperam a neutralidade carbónica antes de 2060

Apesar do avanço da transição energética, 45% das empresas da região investem pelo menos 20% do capital nestas áreas, abaixo da média europeia. As conclusões são de um inquérito da Bain & Company.

31 de Março de 2026 às 20:14
Petróleo valoriza face a tensões geopolíticas e impacto nos mercados
Petróleo valoriza face a tensões geopolíticas e impacto nos mercados vichie81 / iStockphoto
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A transição energética continua no terreno, mas com menos pressa, mais cautela e um foco maior no retorno dos investimentos. Na Península Ibérica, 59% dos executivos do setor não acreditam que a neutralidade carbónica seja atingida antes de 2060 e 45% dizem que as suas empresas já investem pelo menos 20% do capital em áreas ligadas à transição energética. O valor está abaixo da média europeia, de 55%, mas acima da média global, de 39%. O retrato, traçado pela mais recente edição do  global de Energia e Recursos Naturais da Bain & Company, mostra um setor a ajustar a ambição às condições do mercado.

O estudo – realizado entre dezembro e janeiro junto de mais de 800 executivos dos setores de oil & gasutilities, químico, mineração e agroindústria – conclui que as empresas estão a dar prioridade a investimentos com maior viabilidade económica, num contexto marcado por “volatilidade dos mercados”, tensão geopolítica e incerteza regulatória. 

“Embora os executivos continuem focados em garantir acesso a energia limpa, acessível e fiável, observa-se um consenso crescente de que o calendário global da descarbonização poderá estender-se para além do inicialmente previsto”, afirma Andrea Beccia, sócio da Bain & Company. “A volatilidade dos mercados, a geopolítica e a incerteza regulatória influenciam cada vez mais as decisões de investimentos no setor”, sublinha.

Segundo a análise, o capital está agora a ser canalizado para projetos com perspetivas mais claras de rentabilidade, o que ajuda a explicar por que razão os combustíveis fósseis continuam a captar investimento, numa altura em que muitos executivos acreditam que a procura global de petróleo vai continuar a crescer na próxima década. Entre os gestores europeus de oil & gascerca de metade considera que o pico da procura poderá surgir antes de 2035, mas na América do Norte 41% dizem que esse momento não deverá acontecer antes de 2050. O relatório sublinha, aliás, que as empresas continuam a perspetivar que a economia mundial se mantenha fortemente dependente destas fontes de energia nos próximos anos.

Ao mesmo tempo, e apesar de alguns sinais políticos em sentido contrário, a transição energética está longe de desaparecer das prioridades. Mais de metade das empresas europeias já dedica uma parte significativa do capital, mais de 20%, a investimentos ligados à transição, um peso superior ao de outras geografias. Mas o movimento já não é uniforme e as empresas que apostaram cedo e de forma mais robusta mantêm a trajetória, enquanto os investidores mais seletivos começam a recuar. 

O inquérito identifica como áreas com melhores perspetivas de negócio o armazenamento de energia, os materiais críticos para a transição e a tecnologia nuclear avançada. Pelo contrário, os executivos mostram menos entusiasmo em relação ao hidrogénio de baixo carbono, aos combustíveis sintéticos e à captura direta de carbono.

A consultora destaca ainda quatro tendências que deverão marcar o setor nos próximos anos. A primeira é o efeito da geopolítica, que está a levar muitas empresas a privilegiar investimentos nos seus mercados de origem. A segunda é a perspetiva de mais reestruturações, com dois terços dos executivos a antecipar um aumento de alienações, consolidações e encerramentos de ativos nos próximos dois anos. A terceira é a inteligência artificial (IA), uma área onde o entusiasmo continua elevado, mas o retorno permanece escasso. A quarta é a pressão que a IA está a colocar sobre o sistema elétrico, ao aumentar a procura de energia e obrigar as utilities a apostar nas soluções mais rápidas e “bancáveis”, como o armazenamento, o prolongamento da vida útil dos ativos e o reforço das redes.

Em linha com o resto da Europa, os executivos portugueses e ibéricos revelam, nota o inquérito, um foco cada vez maior na disciplina de investimento e na seleção de projetos com maior previsibilidade de retorno. “Num contexto de elevada incerteza, a disciplina de investimentos volta a assumir um papel central”, conclui Andrea Beccia. “As empresas que conseguirem equilibrar rentabilidade, segurança energética e transição serão as que estarão em melhor posição para competir nos próximos anos”, remata.

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