As florestas são uma peça central da resposta à crise climática, à perda de biodiversidade e à pressão sobre os recursos naturais, mas continuam sob ameaça. No prefácio do Global Forest Goals Report 2026, António Guterres lembra que as florestas “sustentam os meios de subsistência de milhares de milhões de pessoas, acolhem a maior parte da biodiversidade terrestre do mundo e desempenham um papel crucial na regulação do clima”. Ainda assim, acrescenta o secretário-geral das Nações Unidas, estão ameaçadas pela “desflorestação, o aumento das temperaturas, a incerteza económica e as divisões geopolíticas”.
O relatório faz o balanço dos progressos face ao Plano Estratégico das Nações Unidas para as Florestas 2017-2030. A conclusão é de que há avanços em várias frentes, embora o mundo continue longe de cumprir integralmente as metas definidas para o final da década.
Dos 26 objetivos analisados, apenas sete são considerados “globalmente cumpridos”, ou seja, alinhados com a trajetória necessária. Outros 17 estão apenas parcialmente alcançados e dois estão completamente fora da rota – o aumento da área florestal mundial e a erradicação da pobreza extrema entre populações dependentes da floresta. O relatório sublinha que, “embora a maioria das metas esteja a avançar na direção certa, são necessárias maior ambição e mais ação”.
Travar a perda de floresta tem de ser prioridade
Entre 2015 e 2025, a área florestal mundial diminuiu mais de 40 milhões de hectares, o equivalente a quase 1% da cobertura global. A perda incluiu 16 milhões de hectares de florestas primárias, particularmente relevantes para a biodiversidade e para o armazenamento de carbono. A agricultura continua a ser apontada como uma das principais pressões sobre a floresta, sobretudo através da conversão de áreas florestais para outros usos do solo.
Apesar disso, a taxa líquida de perda florestal tem vindo a abrandar em relação às décadas anteriores. Segundo os dados citados no relatório, a perda média anual foi de 4,12 milhões de hectares entre 2015 e 2025, abaixo dos 10,7 milhões registados entre 1990 e 2000. A ONU considera que a meta de aumentar em 3% a área florestal mundial está “fora da rota” e defende esforços renovados para travar a perda de floresta, em particular de florestas primárias.
Falta investimento
O relatório estima que o financiamento global para a gestão sustentável das florestas tenha atingido 84 mil milhões de dólares em 2023, cerca de 72 mil milhões de euros. Mas esse valor fica muito abaixo dos 300 mil milhões de dólares anuais, cerca de 258 mil milhões de euros, considerados necessários até 2030. A própria ONU assinala que existe “uma grande diferença entre os recursos financeiros atualmente disponíveis para a gestão sustentável das florestas e as necessidades identificadas”.
O relatório nota que a diversificação para lá do financiamento público é ainda reduzida e que há uma necessidade urgente de desbloquear novas fontes, incluindo instrumentos de financiamento misto, obrigações verdes, pagamentos por serviços dos ecossistemas e mecanismos ligados ao carbono ou à biodiversidade.
Ao mesmo tempo, o relatório reconhece avanços, nomeadamente na área de florestas sob planos de gestão de longo prazo, que aumentou entre 2015 e 2025, e a proporção de produtos florestais provenientes de fontes geridas de forma sustentável também cresceu. Mas o progresso é desigual e enquanto a Europa apresenta cobertura superior a 90% em planos de gestão florestal de longo prazo, África, Oceânia e América do Sul ficam abaixo dos 30%.
António Guterres escreve que são necessárias “medidas urgentes” para expandir a área de florestas protegidas, aumentar os recursos financeiros para a gestão sustentável e reforçar parcerias e modelos de governação. A menos de cinco anos de 2030, o desafio passou a ser a execução e, pelos números do relatório, essa execução continua subfinanciada.