A Europa poderá recuperar, até 2050, mais de metade das matérias-primas críticas de que precisa a partir do lixo eletrónico e de outros resíduos industriais. A conclusão surge no novo relatório do projeto europeu FutuRaM, que aponta a chamada “mina urbana” como peça-chave para reduzir a dependência externa de metais essenciais à transição energética e digital.
Hoje, telemóveis, computadores, painéis solares, frigoríficos ou turbinas eólicas concentram quantidades significativas de cobre, alumínio, cobalto, terras raras e outros materiais considerados estratégicos pela União Europeia (UE). O problema é que grande parte acaba perdida em sistemas de recolha deficientes, exportações ilegais ou processos de reciclagem incapazes de recuperar os elementos mais valiosos.
“A transição europeia para uma economia verde e digital depende de um fornecimento seguro e estável de matérias-primas”, sublinha o relatório 2050 Critical Raw Materials Outlook, desenvolvido no âmbito do projeto FutuRaM, financiado pelo programa Horizon Europe.
Os investigadores estimam que, em 2022, os países da UE, juntamente com Reino Unido, Noruega, Islândia e Suíça, tenham gerado 10,7 milhões de toneladas de resíduos elétricos e eletrónicos, cerca de 20 quilos por pessoa. “Neste lixo estavam incorporadas cerca de um milhão de toneladas de 29 matérias-primas críticas distintas”, refere o estudo.
Apesar desse potencial, apenas 54% dos resíduos eletrónicos foram recolhidos e tratados de forma considerada adequada pelas regras europeias. Os restantes acabaram em circuitos paralelos, lixo indiferenciado ou canais não documentados. “Os restantes 46% dos resíduos elétricos e eletrónicos não são recolhidos nem tratados de forma conforme, aumentando o risco de perda de materiais valiosos e de libertação de substâncias perigosas para o ambiente”, alerta o relatório.
Ainda assim, o estudo calcula que tenham sido recuperadas cerca de 400 mil toneladas de matérias-primas críticas apenas em 2022. Entre elas estavam 208 mil toneladas de alumínio, 162 mil toneladas de cobre, 12 mil toneladas de silício e menores quantidades de tungsténio e paládio.
O potencial é, no entanto, muito superior segundo o FutuRaM, que aponta que a quantidade total de lixo eletrónico na Europa poderá atingir entre 12,5 e 19 milhões de toneladas anuais até 2050, impulsionada pelo aumento do consumo tecnológico e pela expansão de equipamentos ligados à transição energética. Os painéis fotovoltaicos deverão registar uma das maiores subidas, passando de 150 mil toneladas em 2022 para mais de dois milhões de toneladas anuais em meados do século.
Ao mesmo tempo, o volume de matérias-primas críticas incorporadas nesses resíduos poderá aumentar até 1,9 milhões de toneladas por ano. Dependendo da evolução dos sistemas de recolha e reciclagem, a recuperação efetiva poderá variar entre 900 mil toneladas e 1,5 milhões de toneladas anuais.
O cenário mais ambicioso prevê uma economia mais circular, com produtos concebidos para durar mais tempo, serem reparáveis e mais fáceis de desmontar. “Melhorar o design dos produtos para facilitar a desmontagem, expandir a capacidade de recuperação na Europa e criar incentivos económicos mais fortes serão fatores essenciais para aumentar a recuperação destes materiais”, defendem os autores.
O relatório destaca ainda que alguns materiais já são recuperados em escala significativa, como o cobre e o alumínio. Outros continuam particularmente difíceis de recuperar, sobretudo terras raras presentes em ímanes, discos rígidos ou ecrãs. Nestes casos, a chave estará em melhorar a separação dos componentes durante a desmontagem dos equipamentos.
Os responsáveis pelo FutuRaM defendem que a “mina urbana” europeia poderá assegurar “mais de metade das necessidades de materiais críticos” do continente até 2050, caso sejam implementadas políticas mais ambiciosas de recolha, reutilização e reciclagem.
A investigação surge numa altura em que Bruxelas procura reduzir a forte dependência europeia de importações de matérias-primas críticas, muitas delas concentradas em poucos países. O Critical Raw Materials Act, aprovado pela UE, pretende precisamente reforçar a autonomia estratégica europeia num momento em que a corrida global aos minerais essenciais se intensifica.