A sustentabilidade entrou definitivamente no vocabulário das empresas portuguesas, mas o mesmo não se pode dizer, ainda, sobre a profundidade com que entrou nos seus modelos de negócio. Em entrevista ao Negócios, Rita Nabeiro, presidente do BCSD Portugal, considera que as empresas estão a definir metas, a assumir compromissos públicos, a reforçar o reporte e a integrar critérios ESG nas decisões. No entanto, reconhece, essa integração “nem sempre é sistémica”.
Num contexto marcado pela instabilidade geopolítica, pela pressão sobre os custos da energia e por algum recuo na ambição regulatória em matéria ESG, poderia parecer que a sustentabilidade corria o risco de voltar a ser vista como um tema acessório. A presidente do BCSD, eleita há um ano, rejeita essa leitura. Pelo contrário, defende que é precisamente nestes momentos que a sustentabilidade ganha relevância, porque se cruza com temas muito concretos da gestão empresarial: eficiência energética, redução de custos, cadeias de abastecimento mais robustas e maior resiliência.
“Muitas empresas estão a concentrar-se na eficiência energética, na redução de custos e na robustez das cadeias de abastecimento e isso é sustentabilidade”, afirma. Por isso, sustenta, o tema “dificilmente regressará a um estatuto de extra” e tem tendência a afirmar-se como fator de competitividade.
Ao longo dos últimos 25 anos, o BCSD tem acompanhado a evolução e visto, segundo Rita Nabeiro, uma mudança profunda no mindset empresarial. A sustentabilidade deixou de ser vista apenas como “imperativo moral, filantropia ou abordagem periférica ao negócio”, e passou a ser encarada como critério estratégico na forma como as empresas criam valor. Os avanços mais sólidos surgiram na descarbonização, através da transição energética, e na economia circular. Muitas empresas começaram a medir, reportar e reduzir emissões, enquanto a circularidade ganhou tração como fonte de inovação e de eficiência de recursos.
Mas a passagem dos compromissos à execução continua a enfrentar obstáculos relevantes, que importa endereçar para garantir o sucesso. O financiamento é um bloqueio real, sobretudo para as PME, que têm mais dificuldade em mobilizar capital e em traduzir o retorno financeiro de investimentos cujos benefícios são muitas vezes de longo prazo. A isso somam-se entraves de liderança e cultura organizacional, nem sempre capazes de alinhar internamente a empresa, e a escassez de talento em áreas técnicas como medição de impacto, descarbonização ou reporte ESG.
Num país particularmente exposto a fenómenos extremos, Rita Nabeiro sublinha que “os riscos climáticos são também riscos para os negócios”, com impacto direto nas operações, nas cadeias de fornecimento e nas comunidades.Integrar esse risco na estratégia, reforçar planos de continuidade operacional e investir em prevenção e resiliência passa, por isso, a ser também uma decisão económica.
Por outro lado, a dimensão social também tem vindo a ganhar peso nesta jornada rumo à sustentabilidade. Em Portugal, diz Rita Nabeiro, “a consciência sobre a importância da agenda social tem aumentado”, com as empresas a reconhecerem cada vez mais o seu valor estratégico. As prioridades, acrescenta, passam por áreas “que têm impacto direto nas pessoas e na qualidade do trabalho”, como “as condições de trabalho e bem-estar dos trabalhadores, a promoção da diversidade, equidade e inclusão, o impacto das empresas nas comunidades onde operam e os direitos humanos ao longo de toda a cadeia de valor”. A sustentabilidade, sublinha, já não pode ser reduzida à agenda ambiental.
O maior desafio, porém, estará na capacidade de levar esta transformação ao conjunto da economia. Até 2050, ano em que a Europa prevê atingir a neutralidade carbónica, será essencial que as PME deixem de encarar a sustentabilidade “como um custo ou imposição externa” e passem a integrá-la “na sua estratégia de negócio”. Para isso, defende a presidente do BCSD, é necessário garantir “financiamento acessível”, disponibilizar “ferramentas simples de medição e gestão de impacto”, promover “formação e capacitação em sustentabilidade” e assegurar uma “integração ativa nas cadeias de valor”, com as grandes empresas a apoiarem os seus fornecedores. Caso contrário, estes instrumentos podem tornar-se “apenas um fator de exclusão para as PME”, em vez de um motor de transformação.
Em discurso direto: 3 perguntas a Rita Nabeiro
A sustentabilidade continua a ganhar peso real na estratégia das empresas ou corre o risco de voltar a ser vista como um extra?
Hoje, cada vez mais empresas trabalham a sustentabilidade ao nível estratégico: definem metas, assumem compromissos públicos, integram critérios ESG nas decisões e reforçam o reporte. Ainda assim, essa integração nem sempre é sistémica.
Estamos, por isso, numa fase de transição: a sustentabilidade já não é periférica, mas também ainda não é plenamente estrutural. Em vez de ser encarada como um elemento acessório ou meramente reputacional, assume um papel cada vez mais estratégico e pragmático, ligado à gestão de risco, à eficiência operacional e à resiliência.
Neste enquadramento, a sustentabilidade dificilmente regressará a um estatuto de “extra”. Pelo contrário, tende a tornar-se mais visível no discurso e mais integrada nas decisões estruturais, afirmando-se como um fator de competitividade.
Onde estão hoje os bloqueios mais difíceis?
Os bloqueios não se concentram num único fator, mas sim na interseção de vários. O financiamento é um fator de bloqueio real, especialmente para as PME. Ainda existe a dificuldade de traduzir o retorno financeiro, especialmente quando os benefícios serão a longo-prazo.
Um dos maiores entraves é também a liderança e a cultura organizacional, que nem sempre é capaz de criar alinhamento interno ou capacidade de integrar a sustentabilidade nas decisões do dia-a-dia.
Por fim, a escassez de talento e competências específicas também é outro fator relevante, sobretudo em áreas mais técnicas como medição de impacto, descarbonização ou reporte ESG.
Olhando para 2050, que mudanças têm mesmo de acontecer no tecido empresarial português?
Para que a sustentabilidade se generalize no tecido empresarial português até 2050, são essenciais mudanças estruturais sobretudo culturais, organizacionais e sistémicas. Desde logo, é necessário que as PME deixem de a encarar como um custo ou imposição externa e passem a integrá-la na sua estratégia de negócio.
Muitas PME enfrentam limitações como a falta de financiamento, de conhecimento técnico e de recursos humanos especializados. É importante ter acesso a financiamento acessível, que permita às PME investir em eficiência energética e tecnologias limpas; disponibilizar ferramentas simples de medição e gestão de impacto assim como promover a formação e capacitação em sustentabilidade; e integração ativa nas cadeias de valor, com grandes empresas a apoiarem os seus fornecedores na transição.
Esta transição não é simples, é uma reconfiguração estrutural da economia. Todos estes instrumentos podem ser um motor poderoso de transformação, mas exigem alinhamento e apoio das grandes empresas, para que não se tornem apenas um fator de exclusão para as PME.