A União Europeia (UE) tem hoje empregos mais bem pagos, horários mais favoráveis e maior segurança contratual do que há dez anos, mas as melhorias não chegaram da mesma forma a todas as profissões. Entre os trabalhadores que continuam mais expostos a baixos salários e vínculos instáveis estão os que asseguram serviços essenciais, em atividades com falta de mão de obra.
Esta é uma das conclusões do relatório European Employment and Social Outlook 2026, divulgado pela Comissão Europeia, sobre qualidade do emprego e competitividade. O documento analisa três dimensões do emprego: a remuneração, a segurança profissional e o tempo de trabalho, e a sua relação com a produtividade.
A relação é particularmente visível nos setores onde a contratação se tornou mais difícil, como os cuidados pessoais, agricultura e limpeza. Segundo o estudo, “as profissões com escassez de mão de obra envolvem frequentemente horários mais atípicos, empregos menos seguros e remunerações mais baixas”.
Os empregos de melhor qualidade concentram-se, por outro lado, nas tecnologias de informação, finanças, administração pública e atividades profissionais, científicas e técnicas. A hotelaria, a restauração e os serviços administrativos e de apoio continuam a apresentar condições menos favoráveis, apesar das melhorias. O relatório assinala ainda que alguns países europeus pioraram em dois ou mais indicadores de qualidade do emprego.
As diferenças não se limitam à atividade económica e incluem género, idade, qualificação e origem. Mulheres, jovens, pessoas com menor escolaridade e trabalhadores nascidos fora da UE têm maior probabilidade de ocupar profissões com piores condições. A Comissão identifica também riscos associados à subcontratação em determinados serviços menos intensivos em conhecimento, embora as diferenças salariais se reduzam em funções semelhantes.
Para as empresas, a melhoria das condições pode representar mais do que um custo adicional. A análise europeia aponta para ganhos de produtividade associados à motivação, à retenção de trabalhadores e ao investimento em competências. Entre 2009 e 2021, os setores com mais contratos temporários involuntários registaram um crescimento da produtividade, em média, 1,4 pontos percentuais inferior.
O relatório defende ainda que salários mínimos mais elevados podem incentivar o investimento e a inovação, em condições favoráveis. Segundo as estimativas apresentadas, um aumento de um ponto percentual do salário mínimo em relação ao salário médio está associado a uma subida média de 0,1 pontos percentuais na produtividade, sem efeitos significativos no emprego.
A transformação tecnológica acrescenta novas pressões a este quadro, sobretudo para quem está a entrar no mercado de trabalho. A inteligência artificial pode ajudar a executar tarefas de maior valor, mas também reduzir a procura de algumas funções rotineiras. O estudo alerta igualmente para o risco de uma utilização excessiva destas ferramentas prejudicar o pensamento crítico e a aprendizagem pela experiência.
Apesar de a taxa de emprego ter atingido 76,1% em 2025 e de o desemprego se ter mantido nos 6%, a criação de postos de trabalho está a perder velocidade. A Comissão estima que o choque energético associado ao conflito no Médio Oriente possa significar menos 440 mil empregos criados em 2026, agravando a pressão sobre o rendimento das famílias com menores recursos.
“O mercado de trabalho europeu continua a ser forte”, afirma a vice-presidente executiva da Comissão Europeia Roxana Mînzatu, que reconhece, contudo, que “o crescimento do emprego está a abrandar, a redução da pobreza ainda não corresponde à nossa ambição e os elevados preços da energia estão a afetar especialmente os agregados familiares com rendimentos mais baixos”. Bruxelas prepara para este ano uma proposta legislativa dedicada à qualidade do emprego.