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Brasil: Como gerir um país dividido?

Lula da Silva, que ganhou a presidência do Brasil por pouco mais de dois milhões de votos, vai governar um país com profundas divergências políticas e feridas sociais. Tem um caminho difícil pela frente para apaziguar os seus opositores, dentro e fora do Congresso. Um dos instrumentos que utilizará será a escolha do seu elenco governativo que, muito provavelmente, incluirá nomes da direita. Pôr a economia a crescer, investir na educação e combater a fome também serão prioridades.
Filipa Lino 12 de Novembro de 2022 às 11:00

Lula da Silva, que ganhou a presidência do Brasil por pouco mais de dois milhões de votos, vai governar um país com profundas divergências políticas e feridas sociais. Tem um caminho difícil pela frente para apaziguar os seus opositores, dentro e fora do Congresso. Um dos instrumentos que utilizará será a escolha do seu elenco governativo que, muito provavelmente, incluirá nomes da direita. Pôr a economia a crescer, investir na educação e combater a fome também serão prioridades. Dois cientistas políticos brasileiros refletem sobre os desafios que o próximo inquilino do Palácio do Planalto terá de enfrentar para a "casa" não cair.

Jair Bolsonaro ainda não anunciou se vai estar presente na cerimónia de tomada de posse de Lula da Silva, a 1 de janeiro de 2023, para "passar a chave" ao novo inquilino do Palácio do Planalto. O clima de divisão política no país está efervescente, com manifestações nas ruas e obstrução de vias por parte de pró-bolsonaristas, que não reconhecem o resultado das eleições presidenciais, considerando-as fraudulentas. Estes manifestantes apelam às Forças Armadas do país para que façam um golpe militar.

 

As divergências políticas entraram também nas casas dos 214 milhões de brasileiros. Há famílias em que pais não falam com filhos e casais que se separaram por defenderem candidatos diferentes. As emoções à flor da pele não vão desaparecer de repente. Com a transição de poder é certo que a poeira vai baixar, mas as feridas vão continuar abertas e Lula não será a cola que vai unir o país. Ganhou as eleições por pouco mais de dois milhões de votos. Uma margem curta que indica que terá muitos opositores dentro e fora do Congresso.

 

Rodrigo Stumpf González, cientista político e professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, refere que as diferenças políticas que existem hoje entre a população brasileira "são quase irreconciliáveis". Se no passado "essas diferenças eram toleradas de parte a parte", agora existe "um processo de ampliação da intolerância". Por isso, o que espera é que os brasileiros consigam "voltar a níveis de convivência civilizada". 

 

Uma visão partilhada por Renato Lessa, professor de Filosofia Política na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. "Lula é o único ator político no Brasil capaz, neste contexto, de construir um projeto mais inclusivo, o que não significará a conciliação de todos, porque isso não existe em nenhum país", refere. Será antes um movimento "de convergência, de integração, que é suficiente para uma pacificação e para que o processo político volte à normalidade". Mas, sem dúvida, que tem pela frente "uma tarefa muito difícil", admite o também investigador associado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL).

 

Na segunda volta das eleições, o líder do Partido dos Trabalhadores (PT) "montou uma coalizão muito ampla, que é uma espécie de protótipo de uma geringonça à brasileira", mas virada ao centro-direita. Simone Tebet, do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que também foi candidata à presidência na primeira volta, apoiou Lula e fez campanha com ele. Outro dos nomes relevantes que teve a seu lado foi Marina Silva, uma importante líder ambientalista "que havia rompido com o PT, logo após a sua saída do Ministério do Meio Ambiente, há quase 10 anos". E também se juntaram à campanha vários economistas liberais, pessoas dos movimentos sociais, intelectuais, gente do mundo cultural, "que entraram numa grande coalizão não só política, mas também social".

 

Esse movimento de alianças "implica também o isolamento da extrema-direita", defende Renato Lessa. A prova é que "até governadores eleitos pelo partido de Jair Bolsonaro (o Partido Liberal), como Tarcísio de Freitas, o governador eleito de São Paulo, já manifestaram disponibilidade para colaborar com o futuro governo federal".

 

O trabalho de bastidores

 

Nestes menos de dois meses que faltam para o início do seu mandato, o Presidente eleito terá de trabalhar nos bastidores a fim de conseguir alianças entre os partidos do Congresso Nacional, sobretudo os do chamado "centrão".

 

O politólogo Rodrigo Stumpf González acredita que vão ser oferecidos cargos no governo a alguns partidos de centro e de centro-direita que apoiaram Bolsonaro "em troca de algum apoio". Essa integração no executivo pretende passar a imagem de que este é "um governo de representação nacional, não da esquerda, nem do PT".

 

A escolha do ministro da Economia será particularmente relevante, defende o académico. Provavelmente Lula vai escolher "alguém que tenha credenciais de mercado", ou seja, "que tenha passado por um banco ou corretora", de forma a fazer uma aproximação à classe empresarial mais conservadora.

 

Na verdade, não será nada de novo. Os seus governos anteriores foram "para padrões teóricos, muito mais centristas do que de esquerda". As políticas económicas foram lideradas por pessoas "identificadas com o mercado" e essa foi a forma de "retirar o medo de que o governo seria esquerdista, que iria prejudicar a bolsa de valores, etc.". Simultaneamente, "para equilibrar, ele criou ministérios e ampliou uma pauta de reformas sociais para segmentos de minorias culturais e étnicas". Desta vez, a fórmula governativa não será diferente, prevê.

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