Weekend Luís Filipe Rocha: Portugal continua a ser um país muito corporativo

Luís Filipe Rocha: Portugal continua a ser um país muito corporativo

“Cinzento e Negro” é o último filme do cineasta Luís Filipe Rocha e está em digressão nacional. Em preparação, encontra-se um documentário sobre a família de Zeca Afonso, diz este contador de histórias com mais de 40 anos de filmografia.
Luís Filipe Rocha: Portugal continua a ser um país muito corporativo
Bruno Simão
O bisavô contava-lhe histórias, à luz do petróleo, num pequeno tugúrio, no meio da mata na Beira Alta. Histórias de vida e de viagens. Ele, o bisneto, ainda hoje gosta de ficar no aeroporto a observar pessoas, a imaginar a vida dos outros. À espera das suas histórias. Desta vez, foi uma imagem que foi ao seu encontro. A imagem de uma mulher com uma bota ortopédica. "Cinzento e Negro" é o último filme do cineasta Luís Filipe Rocha e está em digressão nacional. Segue-se um documentário sobre a saga familiar dos pais e irmãos de Zeca Afonso, passada em Timor, entre 1939 e 1946. Com mais de uma dezena de filmes, Luís Filipe Rocha é licenciado em Direito e foi durante o curso que decidiu abraçar o "teatro bom" e afastar-se do "teatro mau", aquele que ocupa o palco da justiça. "Portugal continua a ser um país corporativo e a justiça é uma das mais fortes corporações em Portugal", diz o cineasta.


Diz que pertence a um núcleo de realizadores e escritores que acham que não inventam histórias, que acham que são as histórias que os escolhem. É um contador de histórias?

Sim, sim, eu tinha quatro anos quando comecei a ficar fascinado por histórias. Sei exactamente quem as contava, o meu bisavô, sei exactamente onde ele as contava, era num pequeno tugúrio, no meio da mata na Beira Alta, à luz do petróleo. Havia um tio meu que era também um admirável contador de histórias, e o meu próprio pai contava-as muito bem. A pouco e pouco, fui ficando fascinado por essa ancestralíssima e humaníssima forma de comunicação e de vivência humana. E quem tem tanto fascínio por ouvir contar histórias, um dia mais tarde começa a pensar em contar as suas histórias também. E foi um pouco assim. 

 

Recorda-se de algumas das histórias que o seu bisavô lhe contava?

Lembro-me de algumas, sim, eram histórias, sobretudo, de vida ou de viagens. O meu bisavô era uma personagem curiosíssima, ele tinha sido guarda da Penitenciária de Lisboa e, por isso, contava uma série de histórias que tinham muito que ver com o universo prisional. O meu tio era um grande contador de outro tipo de histórias, histórias que tinham sempre que ver com a vida concreta das pessoas. E, depois, eu próprio, sozinho, cheguei à literatura, cheguei cedo, cheguei com o (Robert Louis) Stevenson, lembro-me bem. O primeiro livro que li terá sido o "Raptado", uma história muito forte sobre um miúdo de sete, oito anos. E, como fui para um colégio interno, para o Colégio Militar, uma das maneiras de sair do colégio era ler muito lá dentro. Passava a vida cá fora porque lia muito.

 

Esta arte ancestral de contar histórias está a perder-se? Já não temos tempo para contar histórias? Já não temos tempo para ouvir contar histórias?

Temos, elas são é muito más, são as novelas ou certo tipo de cinema e de televisão. As pessoas não conseguem viver sem histórias. O Oliver Sacks dizia que um homem que não conseguisse contar a sua vida com uma pequena história, provavelmente, estaria insano da cabeça. As histórias são um instrumento de conhecimento da alma humana, dos comportamentos, da psicologia, do passado ou até do presente, as histórias são uma maneira de nos conhecermos e são, sobretudo, uma maneira de as pessoas poderem fazer alguma evasão do seu, às vezes, pesadíssimo quotidiano.

 

São as histórias que chegam até si. Será, naturalmente, muito observador…

Sou muito cusco, sou (risos). Sim, sou muito observador. A maior parte das pessoas que conheço fica muito impaciente quando tem escalas de duas ou três horas num aeroporto. Eu divirto-me muito sentado no aeroporto a ver as pessoas. Viajei muito quando vivi sete anos em Macau e aquelas escalas de três, quatro horas, não só não me maçavam nada como eram muito estimulantes, muito interessantes. Olho para as pessoas, observo-as, ponho-me a imaginar.

 

O seu próximo documentário ("Rosas de Ermera") vai ser sobre a história da família do Zeca Afonso, não?

Estou a trabalhar num documentário sobre uma pequena saga familiar dos pais e irmãos do Zeca Afonso, passada entre 1939 e 1946. A dada altura, a família divide-se em Lourenço Marques. Os dois rapazes, o Zeca e o João, vêm para Portugal, para Coimbra, viver com uma tia, irmã do pai, e com o apoio de um outro irmão do pai, o tio Filomeno. Os pais e a irmã, a Mariazinha, que teria então sete anos, vão para Timor – o pai deles era Procurador da República, tinha concorrido para juiz, ficou em primeiro lugar e escolheu Timor. Não levou os miúdos porque eles estavam a chegar ao liceu e o ensino praticamente não existia em Timor. Partiu convencido de que iria para uma missão de dois anos. Chegaram em Setembro de 1939, quando rebenta a guerra na Europa. E lá são apanhados pela guerra do Pacífico e pela invasão japonesa e passam por uma série de peripécias até acabarem no campo de concentração, que foi a localidade de Liquiçá, onde a Mariazinha fez o seu exame de quarta classe.

 

Fez a quarta classe no campo de concentração?

Sim, foi lá no campo de concentração. Entretanto, as comunicações são interrompidas, há um "blackout" e, de certa forma, a família que estava cá convence-se de que os familiares em Timor tinham, eventualmente, morrido, e há ali um buraco negro de dois anos e meio. Até que, de repente, quando a guerra acaba, eles vêem no jornal o nome dos pais e da irmã. Reencontram-se todos em Fevereiro de 1946.

 

E continua a existir algum silêncio sobre esta parte da História de Portugal, ainda hoje.

Não é falada essa [parte da História], nem é falada, suficientemente, a meu ver, a queda da Índia. Foram situações deliberadamente escondidas pelo próprio salazarismo. Salazar tratou Timor, durante a ocupação japonesa, mais ou menos da mesma maneira que tratou, depois, a queda da Índia. A circunstância de haver centenas de portugueses em dois campos de concentração que depois se fundiram, em Timor, foi muito pouco falada do ponto de vista da História de Portugal.

 

Conhece a família do Zeca Afonso? Esta história também foi ter consigo?

Sim, há muitos anos. Há quase 20. Em 1996, 97, a irmã do Zeca Afonso ofereceu aos seus quatro filhos quatro caderninhos manuscritos por ela, com memórias de Timor. Dada a minha relação de amizade com ela e com a família, ao ler esses cadernos, eu e um amigo que já morreu, o Alfacinha da Silva, o escritor Alface, pensámos fazer um documentário sobre essas memórias da Mariazinha Afonso Lima. O tempo foi passando, não fizemos o documentário, e, há quatro anos, quando cheguei à Fado Filmes, o Luís Galvão Teles disse-me para tentar avançar. Então, reformulei a ideia inicial e fiz uma espécie de abordagem familiar, aproveitando o testemunho dos dois irmãos [o João Afonso e a Mariazinha]. Quero ouvir os dois irmãos a falar sobre essa saga familiar. Cheguei a ir a Timor e o documentário deverá estrear para o ano.

 

O seu último filme, "Cinzento e Negro", que está em digressão nacional, não surgiu a partir de uma história, mas a partir de uma imagem.

É a primeira vez que faço um filme a partir de uma imagem. Normalmente, faço-os a partir de histórias, de uma ideia, de um livro, de uma notícia de jornal... Fui a uma agência funerária tratar do funeral de um familiar, e havia uma única pessoa para me atender, era uma mulher de 40 anos, que tinha uma bota ortopédica e, talvez porque eu estava mais sensível na altura, fixei-a. Provavelmente ter-me-ia esquecido dela se não a tivesse reencontrado três semanas depois, numa pequena rua de Almada, cheia de sacos de compras de supermercado. Ela a coxear e, ao lado, estava um homem que, pela sua indiferença, aparentemente sem intenções de a ajudar, só podia ser o seu companheiro. Essa imagem foi, de facto, muito forte porque clamava, claramente, por vingança. Depois disto, ainda escrevi e fiz o filme "A Outra Margem" (2007). Houve tempo para aquela imagem se esfumar completamente da minha vida, mas, de repente, a imagem volta e eu parti dela para a escrita do filme.

 

É uma história de traição, roubo e fuga, perseguição e vingança. De amor, solidão e morte. Esta é a sinopse de uma história portuguesa?

É uma história humana… E decidi partir dos trágicos gregos, não na tragédia a, b, c ou d, mas da leitura de estudos sobre a tragédia grega, que continua a ser, para mim, um dos instrumentos mais esclarecedores da alma humana. Estão lá os recônditos mais obscuros, mais nocturnos e mais complexos da alma humana.

 

Anda de volta da alma humana, mas alguns dos seus filmes têm uma forte ligação à realidade social, como é o caso de "Camarate" (2001), um filme sobre a justiça. O cinema deve ser um "agitador" social?

Não, de todo. Não acredito que o cinema possa mudar o mundo, nem acredito que possa mudar uma pessoa sequer. Pode, sim, levar a pessoa a questionar-se ou a questionar o mundo, mas não a muda. Mas acho que o cinema, ou a arte em geral, é a melhor companheira para a viagem que cada um de nós faz desde que nasce até que morre. Porque é a forma mais profunda, mais complexa, mais rica, de comunicarmos uns com os outros e de interpelarmos um pouco a própria vida, o que somos, quem somos. Acho que a arte é a mais bela das companhias que podemos ter na viagem. Acho que ajuda, sobretudo, à viagem.

 

O filme "Camarate" continua actual? Dizia, então, que justiça era uma das mais fortes corporações em Portugal. Portugal continua a ser um país demasiado corporativo?

Sim, Portugal continua a ser um país corporativo e eu acho que é muito visível diariamente que as grandes corporações continuam a ter um papel absolutamente decisivo na nossa vida colectiva. Para mim, a justiça é o principal pilar de qualquer Estado de direito democrático e, em 1995, pressenti, por meia dúzia de "fait divers" que recolhi de notícias de jornais, que a justiça estaria à beira de entrar numa crise muito complexa e que não tinha só que ver com a questão da morosidade. Como tirei o curso de Direito, tenho uma sensibilidade particular em relação à justiça. Na altura, tropecei em dois processos que eram duas faces de uma mesma e exacta moeda, Camarate – para mim, era claríssimo que havia matéria para se ter feito um julgamento – e o processo do padre Frederico – a meu ver, era claríssimo que não havia matéria para julgar, e muito menos para condenar, mas julgou-se e condenou-se. Tudo isto levou-me a escrever um filme sobre justiça, que não tinha nada que ver com um processo em concreto. Aliás, até tinha um título (inicial), chamava-se "O Grande Frio". Passaram quase 16 anos e eu acho que a justiça está pior do que estava.

 

É o nosso passado recente que justifica o peso das corporações?

Viemos de um Estado assumidamente corporativo, filosófica, ideológica e politicamente corporativo e, depois, o desenvolvimento social, económico e político português permitiu que as corporações mantivessem uma importância muito grande.

 

E a sociedade civil portuguesa, não deveria ser mais activa? É um observador. Como observa o ser português, como observa o ser­-se português?

Acho que há uma forma de ser, de estar e de fazer as coisas que é profundamente individualista, para o mau e para o bom. É essa característica que permite, por exemplo, que a nossa diáspora seja aquilo que é. O português é um ser muito individualista que consegue ter uma grande capacidade de adaptação, que consegue ser um camaleão universal. A adaptação e o desenrasque do português são a face positiva da face negativa do individualismo do salve-se quem puder. 

cotacao Em Portugal,  há uma visão  da cultura como um instrumento decorativo.  Há uma visão  de corte. 

"Individualismo" como defesa?

A presença e a pata do Estado foi sempre muito visível desde cedo, houve sempre uma espécie de poder central muito forte – o rei, os partidos e as máquinas partidárias, o Estado central. Um poder tão forte, uma pata tão forte, leva a que, necessariamente, as pessoas tenham de procurar, quase individualmente, formas de sobrevivência, de desenrascanço, de afirmação. Quando se sai para fora do país, esse individualismo pode ser muito bom – acabei de comprar um livro que se chama "Cartas do Tibete", de António de Andrade, sobre o primeiro europeu a atravessar as montanhas do Tibete, e foi um português. Mas, depois, cá dentro, o individualismo cria uma falta de sentido do colectivo. Há individualismos e individualismos. Há individualismos de profundo sentido cívico da vida comunitária e depois há um individualismo pequeno, mesquinho, que pensa exclusivamente em si, e que atira o lixo para o quintal do vizinho, e isso é muito português, e por isso não me admira que depois possa existir um poder exagerado por parte das corporações, por parte da partidocracia que nos governa, por parte do exterior, venha ele de Bruxelas, venha de onde vier. Mas, enfim, eu não sou a pessoa indicada para falar sobre o ser português, eu observo mais o ser humano, seja português, seja japonês.

 

Ainda mais quando somos todos uma mistura.

Eu pergunto: na final do Europeu, quantos dos 22 jogadores em campo eram de origem africana? Quando nos pomos com nacionalismos… não faz sentido. Somos, todos, uma mistura. Aqueles jogadores em campo respondem muito àquilo que, para mim, é hoje uma das coisas mais inquietantes e perturbantes, que é o recrudescimento dos nacionalismos, dos chauvinismos, da xenofobia, do racismo. Há pouco tempo enviaram-me um vídeo na internet ("The DNA Journey") espantoso, pegam em várias pessoas das mais diversas raças, fazem um pequeno questionário e testes de saliva e de ADN, e, no final, um tipo ariano de olho azul descobre que tem 40% de sangue negro… Somos todos mestiços, mas a nossa cabeça mantém essas divisões.

 

Achávamos nós, ingenuamente talvez, que essas divisões estariam a esbater-se na nossa cabeça.

Não estão, e não sei se algum dia estarão. Não sou muito optimista. Sou um incorrigível optimista em relação a um ser humano concreto, mas sou um absoluto pessimista em relação à humanidade. Por isso é que me interessam as tragédias gregas, estamos cheios de ódios, cheios de rancores, cheios de ambição.

 

E, por isso, terá escolhido, como palco do "Cinzento e Negro", o vertiginoso Pico.

A partir dos trágicos negros, comecei a procurar um palco trágico – na antiga Grécia, o teatro era representado ao ar livre, normalmente no fim do dia para aproveitar a queda da luz, e, em geral, os teatros ficavam em sítios relativamente elevados. E o Pico, visto do Faial, é um palco trágico, com uma cereja no topo do bolo, que é o facto de ser vulcânico. E esta é uma história trágica e vulcânica. Muito cedo, na escrita do filme, os Açores, em particular Faial e Pico, impuseram-se como quinta personagem do filme. O Faial também porque é, de alguma forma, o símbolo da viagem, o Peter’s, os marinheiros, que andam para cima, que andam para baixo. Há séculos que o Faial é uma espécie de ponto de encontro, de símbolo de viagem.

 

O seu filme "Adeus, Pai" (1996) faz agora 20 anos e foi visto por mais de 100 mil pessoas em sala e mais de um milhão em televisão.
O que mudou ao longo destes anos? O que se passa, exactamente, com o cinema português?

Levo quarenta e tal anos de profissão exclusiva de realizador de cinema de longa-metragem, e o "Cinzento e Negro" foi filmado em condições técnicas e artísticas semelhantes àquelas que tinha quando comecei com o "Cerromaior" (1981), e em alguns aspectos até mais apertadas. Há filmes que, do ponto de vista da produção, eu já não poderia fazer, como "Amor e Dedinhos de Pé" (1991), "Sinais de Fogo" (1995) e "Camarate" (2001). Tenho um projecto que acho que já não vou conseguir fazer, é a adaptação de "O Teu Rosto Será o Último", de João Ricardo Pedro. Mas isto é um dos mais velhos a falar. Felizmente, há um outro lado. Finalmente, entraram com significado, força e resultados, cineastas novos no meio. Passou-se um bocadinho em Portugal aquilo que se passou durante várias décadas em Itália. Pela escassez do meio, e dos meios, foi sempre difícil a entrada de gente mais nova. Entretanto, com uma espécie de democratização da produção e com a desaparição natural dos mais velhos, surgem os mais novos. Mas, depois, há o lado da distribuição e, sobre esse lado, eu prefiro quase nem falar. Estreei o "Cinzento e Negro" com cinco cópias, é um bocadinho mais do que com o "Cerromaior", que estreei com uma. Mas com uma cópia do "Cerromaior", em 1981, eu fiz trinta e tal mil espectadores, e com cinco cópias do "Cinzento e Negro", devo ter feito três mil.

 

A frase é sua: "A dicotomia comércio/arte não tem solução no cinema nacional porque não existe mercado, e sem mercado não existe indústria, e sem indústria não se sai da subsídio-dependência e com esta não se sai dos amiguismos e das influências", disse à Take Cinema Magazine. 

Portanto, não pode haver indústria. A dicotomia comércio/arte é resolvida por quem, no fundo, permite que a gente filme ou não filme. Ou é o Estado, por um lado, ou são os distribuidores. E, não, eu não gosto da palavra subsídio-dependência. Eu gostaria de ser reconhecido, ou não, por mecanismos não administrativos de apreciação e avaliação do meu trabalho. Mas sei que não tenho outra solução, se quiser continuar a fazer cinema, que não ser sistematicamente avaliado. Imagine o exemplo, caricatural e forçado, de um cirurgião que, de cada vez que vai fazer uma operação complicada, tem de ser avaliado antes de entrar para a sala. Eu já tive as avaliações todas possíveis. Várias dezenas de prémios.

 

Considera que já tem um estatuto que deveria permitir a dispensa de avaliações, é isso?

Eu só estou a falar profissionalmente, devia quase que poupar-me a uma coisa profundamente humilhante que é estar sistematicamente a ser avaliado por pessoas que eu não conheço, por pessoas que, se calhar, não conhecem o meu trabalho.

cotacao Com ou sem 25 de Abril, nós hoje, provavelmente, estaríamos onde estamos. Seria uma evolução natural.

Mas porquê humilhante?

Porque são métodos de avaliação que não reconheço como validamente profissionais. Não há em Portugal dezenas de pessoas entendidas, do ponto de vista técnico-profissional, em cinema para preencher os júris todos que anualmente o ICA tem de ter. E é humilhante porque eu acho que não deveria ser sistematicamente avaliado, projecto a projecto, como se estivesse a fazer um primeiro filme. E quando digo eu, digo os meus colegas que já têm provas dadas, nacional e internacionalmente. E, além disto, depois há uma espécie de chegada, ao sistema produtivo, do lado da distribuição, e isso está a formatar o cinema que interessa aos distribuidores com um único género, a comédia, e a comédia dita à portuguesa. Por aqui me fico.

 

Considera que "falta inscrever o cinema português como uma necessidade cultural do povo português". Que há 40 anos era uma necessidade de ordem social, uma espécie de ponto de encontro, mas nunca foi uma necessidade cultural.

E não é só o cinema. São as artes. Isso é muito visível quando a democracia chega a Portugal. Ou seja, nós passámos de uma taxa exorbitante de analfabetismo durante a ditadura para uma taxa exorbitante de iliteracia. A seguir ao 25 de Abril, as necessidades por satisfazer eram tantas e tão predominantemente materiais que as necessidades ditas culturais não eram, de forma alguma, prioridade. E, depois, nestes 40 anos de democracia, tem havido quase sempre uma visão da cultura como um instrumento decorativo, tem existido uma visão de corte. Eu não consigo entender porque é que as artes não fazem parte do currículo obrigatório do sistema educativo português. Não só formariam pessoas mais ricas como criariam novos públicos. De outra forma, estamos sujeitos, de facto, àquilo que tem sido a tal subsídio-dependência, que eu abomino, mas com a qual tenho de conviver. Eu uso essa palavra porque a usam contra mim. Há 20, 30 anos, quando eu chegava a um hospital e declarava a minha profissão, ou não sabiam o que era um cineasta, ou então olhavam-me – então, tu és um dos que vive da subsídio-dependência. E há muita gente, e gente intelectualmente preparada, que continua a achar que o Estado não tem de apoiar o cinema.

 

E tem?

Num país como Portugal, no aqui e no agora, claro que tem. Mas deveria ter, de facto, um objectivo, a médio e longo prazo, que fosse, progressivamente, criando uma pequena indústria à nossa escala. O volume de negócios do cinema português, apesar de tudo, é significativo. As centenas ou milhares de trabalhadores que vivem exclusivamente da actividade cinematográfica também. Na Europa, fala-se muito das indústrias criativas, mas aqui é uma espécie de adereço. E o cinema, pior. Aliás, durante o Governo de Passos Coelho, ao contrário dos outros sectores de criação artística que são apoiados pelo Estado, o cinema não viu reduzidos os seus apoios, o cinema, simplesmente, fechou durante um ano. Estas coisas, depois, têm as suas consequências.

 

E os actores do sector não deveriam unir­-se mais? O Luís Filipe Rocha participou na fundação de produtoras, das duas associações de realizadores. Mas diz que não volta a pertencer a uma associação. "Nunca pertenci a grupos, gerações, tribos ou seitas, nunca frequentei capelinhas", disse ao Público, em jeito de crítica.

Sou muito individualista. Aí, sou muito português. Cansei-me disso tudo. Cansei-me de produzir os meus filmes, cansei-me de formar produtoras e de, depois, ter de as fechar ou de sair delas, cansei-me de participar colectivamente na criação das duas associações de realizadores que ainda existem, como se nós tivéssemos centenas de realizadores… a própria Academia Portuguesa de Cinema. Acho uma coisa um bocadinho "sui generis" haver uma academia de cinema, num país como Portugal. De facto, a minha independência foi sempre muito radical, nunca pertenci a grupos, a famílias partidárias, intelectuais ou culturais, nunca "pertenci" ao Frágil, ao Lux, enfim, fui sempre radicalmente muito independente. De há uns vinte anos para cá, até vivo fora de Lisboa, ao pé da Ericeira, e foi mesmo por cansaço. 

 

Licenciou-se em Direito, mas um dia trocou o "teatro mau" da justiça pelo "teatro bom" que era o grupo cénico da Faculdade de Direito.

Como muitos da minha geração, influenciado pelos filmes do Perry Mason, eu quis ir para Direito para defender os fracos e os oprimidos. Tinha uma visão desbragadamente idealista, estava cheio de vontade de ser advogado e de ajudar a que a justiça fosse justa. No segundo ano, sem que ninguém mo pedisse, saía da faculdade, comia uma sandes e ia de metro até à Boa Hora assistir a julgamentos. Estava muito ávido de ver o território da justiça. Ao fim de uns meses, percebi tudo aquilo que não imaginava, percebi que a justiça era humana, que era feita por seres humanos, que era profundamente aleatória, que era injusta e que, ainda por cima, era teatralmente má, porque aquilo é um teatro mas os actores, a maior parte deles, são fracos. Nessa altura, percebi que me tinha enganado redondamente na escolha que tinha feito e, então, eu e o meu pai fizemos um acordo de cavalheiros, disse o meu pai – faz o que quiseres desde que me tragas um curso. Nunca mais chumbei e pus-me a fazer teatro, mas o bom teatro.

 

Depois, exilou-se no Brasil. Porquê no Brasil?

Fui para o Brasil e não para a Europa porque entendi que a circunstância de não querer fazer a guerra colonial era uma tomada de posição política clara naquele contexto e, portanto, a América Latina seria a região onde, eventualmente, poderia, quer na frente cultural quer na frente política, se fosse caso disso, prosseguir a consciência política que tinha na altura. Tinha um bilhete de avião que dava para percorrer o Brasil, o Uruguai e a Argentina e, depois, chegar ao México, de onde iria para Cuba. Não cheguei a ir para Cuba porque, entretanto, deu-se o 25 de Abril e eu virei o bilhete ao contrário. Se não, teria ido para Cuba trabalhar com o (encenador nascido na Argentina) Adolfo Gutkin. Depois de termos trabalhado juntos, ele foi para Cuba e formulou-me o convite, só que na altura a entrada em Cuba não era "cheguei", e, então, comecei a tratar da minha ida com o escritor cubano Alejo Carpentier na embaixada cubana em Paris. Estava a caminho de Cuba, se quiser, quando acontece o 25 de Abril.

 

Nunca pensa em como teria sido a sua vida se tivesse ido mesmo para Cuba?

Penso, penso, não sei que vida teria sido se eu tivesse dito – eh pá, desculpem mas eu agora tenho outras coisas para tratar que não da democracia em Portugal.

cotacao Portugal continua a ser um país muito corporativo. As grandes corporações continuam a ter um papel decisivo na vida colectiva. 

Mas sentia uma espécie de obrigação ou necessidade de voltar?

Senti, obrigação, sim.

 

Sentia-se comprometido socialmente? "Barronhos – Quem Teve Medo do Poder Popular?", que considera a sua primeira obra oficial, é, um pouco uma resposta a isso mesmo?

Foi no Verão Quente e foi algo muito forte. "Barronhos" não é bem um documentário, é um docudrama, é a história de um crime num bairro de lata que se conta através dos depoimentos e da montagem do filme, por isso, eu considero-o o meu primeiro filme, filmado em pleno Verão Quente, quando era muito difícil ter uma "perspectiva de 360 grau" do que se estava a passar no país.

 

E desde então, mais de quarenta anos depois, as utopias caíram todas?

Sim, todas. Vou dizer-lhe algo de uma maneira anedótica. Com ou sem 25 de Abril, nós hoje, provavelmente, estaríamos onde estamos. Seria uma evolução natural. Porque nós não vivemos sozinhos ao cimo da terra. Espanha não precisou de nenhum 25 de Abril. O 25 de Abril teve que ver com a guerra, e essa, sim, era uma questão que era preciso resolver. Em relação às utopias que caíram, isso já era visível, de certa forma, em "Barronhos". Tinha um bocadinho que ver com a inevitabilidade de certas contradições do próprio processo revolucionário, social ou político. Se quiser, uma das coisas que está claramente dita no "Barronhos" é que aquilo que foi a grande utopia, se quiser, da esquerda à esquerda, durante o PREC, o chamado poder popular, a criação de órgãos de base, acabou por ser "derrotado" pela democracia "normal", com os seus partidos, com os seus órgãos de soberania, etc. Se calhar, foi aí a última vez que na Europa se viu essa utopia. Isso desapareceu. Por isso é que eu digo, tirando essa espécie de ebulição que foi o PREC, nesse ano de 75, chegaríamos aqui, como Espanha chegou, com os seus problemas complexos, mas foi-lhe possível fazer uma transição pacífica, ainda que com a tentativa de golpe de Estado em 1981. Nós precisámos de um turbilhão dito revolucionário também porque vínhamos de uma ditadura, não tão sangrenta e violenta como a espanhola, mas sobretudo porque tínhamos uma guerra colonial em três frentes, e isso, para mim, é que era a grande resolução do 25 de Abril. 





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