Mao Tsé-Tung: Livro Vermelho, história negra
Num país de rituais milenares, Mao Tsé-Tung criou o seu próprio ritual, regido pela ideologia em vez das leis. Criando um dogmatismo que desaguou no “Livro Vermelho”, agora reeditado em Portugal.
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Na célebre entrevista que deu a Edgar Snow, Mao Tsé-Tung (ou Mao Zedong, na actual grafia) descrevia-se como "um monge solitário caminhando na chuva debaixo de um guarda-chuva com buracos". Talvez tenha sido um monge solitário, mas isso fez-se à custa de ir abatendo os que estavam à sua volta e de considerar que toda a razão estava do seu lado. Mao Zedong foi um político prático, a quem interessava apenas o poder. Ou seja, como obtê-lo, como mantê-lo, como voltar a ganhá-lo. Para o segurar, nenhum sacrifício era enorme. A sua longa marcha, desde que tomou as rédeas do Partido Comunista Chinês (depois de Chiang Kai-shek ter dizimado a antiga liderança do PCC), até ocupar Pequim e durante décadas até à sua morte, tem que ver com o exercício do poder. Mao não era um bom poeta, nem um bom calígrafo (uma das maiores artes da China), era um mau orador de voz monótona. Mas ele sabia o que queria, e como consegui-lo. Num país de rituais milenares, ele criou o seu, regido pela ideologia em vez das leis. Criando um dogmatismo que desaguou no "Livro Vermelho", agora reeditado em Portugal com um magnífico trabalho introdutório de Manuel S. Fonseca e um aspecto gráfico irrepreensível.
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