Weekend O belo prazer de incomodar

O belo prazer de incomodar

Se há papel que o cinema gosta de assumir é o do retrato do mundo. A cada dia que passa, essa tarefa está mais exigente, mais desafiante. Ao controlo, o documentário garante que não se submete.
O belo prazer de incomodar
"Cartografia de um ensaio": Ana-Maria Basto reflecte sobre a relação entre encenador e actor através de um espectáculo de Mónica Calle.
Wilson Ledo 21 de outubro de 2018 às 11:30
DOClisboa o festival de cinema documental está de regresso a lisboa para a 16.ª edição. De 18 a 28 de outubro, entre a Culturgest, o Cinema São Jorge, a Cinemateca Portuguesa  e o Cinema Ideal. 

O mundo está cada vez mais complexo e já não cabe em categorias fixas. Do outro lado do telefone, Cíntia Gil concorda. A directora do DOCLisboa recorre até à cultura cinematográfica para reforçar a ideia. "Já não há o bom, o mau e o vilão. Há muitas gradações éticas e morais."

É essa gama de variações que cabe nos 243 filmes da programação deste festival de cinema documental. Por aqui, abundam regressos ao passado para compreender a "ambiguidade política" em que vivemos.

Uma dessas viagens dá-se com "O Plano", de Steve Sprung, um filme que conta a história de um grupo de engenheiros que trabalhava numa empresa de armamento. Perante a crise, apresentaram um plano para produzir com recurso a energias amigas do ambiente. Como seria a nossa vida hoje em dia se esse plano não tivesse sido bloqueado pelas autoridades?

Já "The Silence of Others", de Almudena Carracedo e Robert Bahar, conta a luta das vítimas e sobreviventes da ditadura de Franco em Espanha. Perante o silêncio do país vizinho, acabam por avançar com um processo na justiça argentina, para tentarem ver reconhecidos os seus direitos.

Por sua vez, "Fahrenheit 11/9" traz o olhar provocador de Michael Moore sobre a presidência de Donald Trump nos Estados Unidos da América, para questionar o mundo sobre o modo como chegou até aqui. E deixar outra pergunta: haverá uma saída?

No DOCLisboa há também espaço (e muito) para a produção portuguesa. Só em competição estão 18 filmes. "Pela primeira vez, exceptuando a retrospectiva, temos filmes portugueses em todas as secções." Não é o reflexo da conjuntura, mas da própria dinâmica do sector. "Somos sempre bastante produtivos, mesmo nas dificuldades. Os artistas em Portugal fazem muito com muito pouco", remata Cíntia Gil.
"Pele de luz": André Guiomar leva o espectador até Moçambique, onde a perseguição a pessoas albinas ainda é uma realidade.
Renata Sancho, Salomé Lamas, João Manso, Paulo Abreu, André Guiomar ou Leonor Teles são apenas alguns dos que nadam contra a corrente no cinema português. Mas há outros, muitos outros, para ver durante este festival.

Em "Quatro Estações e Outono", Pedro Sena Nunes presta homenagem ao escritor, crítico e realizador Jorge Listopad, através de um olhar sobre a passagem do tempo. Em "Alma Clandestina", José Barahona conta a história de Maria Auxiliadora Lara Barcelos, uma activista política que lutou contra a ditadura brasileira nos anos 1960.

Já Jorge Cramez, em "Actos de Cinema", oferece uma "lindíssima celebração de 20 anos de cinema português contemporâneo", avança Cíntia Gil. O realizador navega nas recordações das rodagens dos filmes em que participou, convocando nomes como Teresa Villaverde, João Mário Grilo, José Álvaro de Morais, Fernando Lopes ou Miguel Gomes.

Na retrospectiva deste DOCLisboa, a viagem é até à Colômbia e a Luís Ospina, um realizador que começou a filmar nos anos 1970 e que conta hoje com uma extensa filmografia, com um "trabalho muito político e de retrato de artistas", resume a directora do festival.

Ainda antes de arrancar, o festival foi alvo de pressões por parte de duas representações diplomáticas em Portugal. Os processos estão já a ser tratados pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, mas não deixam de significar um alerta. "É preocupante porque isto nunca tinha acontecido. Significa que há um princípio tácito de que estas pressões podem ter acolhimento. Só esse princípio, em si, é muito preocupante."

O primeiro contacto veio da embaixada da Ucrânia, que pediu a retirada do filme "Their Own Republic" de Aliona Polunina. No filme, mostra-se a história de um batalhão pró-russo em Donetsk, no Leste da Ucrânia, onde tem lugar uma guerra civil há quatro anos.

O segundo contacto partiu da embaixada da Turquia em Portugal, que pediu uma reunião com a equipa do festival. No encontro considerou "inaceitáveis" as sinopses em que surgem as expressões "genocídio arménio" e "aniquilação do povo curdo". Um dos filmes em causa é "Yol: The Full Version", banido durante 35 anos na Turquia e que, entretanto, foi restaurado e estreou em Cannes no ano passado.

São pressões que, por outro lado, reflecte Cíntia Gil, mostram o "bom trabalho" da equipa de programação do DOCLisboa. Estes são os filmes certos, porque mostram diferentes mundos ao próprio mundo. Porque incomodam. 






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