Weekend O carrossel da vida na cidade

O carrossel da vida na cidade

Sempre essa tentação de comparar as relações do presente com as memórias do passado. Mesmo quando se entra de cabeça na aventura de amar alguém, mais cedo ou mais tarde, surgem dúvidas.
O carrossel da vida na cidade
Wilson Ledo 17 de fevereiro de 2018 às 11:00
2.º Capítulo - A peça de Neil Simon, com encenação de Nádia Santos, está no Teatro da Luz, em Lisboa, até 25 de fevereiro. Todas as sextas, sábados e domingos às 22:00.

A voz de Lena d'Água rompe o escuro com que arranca e termina o espectáculo. A canção é dos anos 1980, numa altura em que os telemóveis e a internet ainda não marcavam o quotidiano. Mesmo assim, o tema "Carrossel da vida na cidade" traz já um sentido de velocidade.

É essa mesma rapidez que vemos despontar em palco em "2.º Capítulo", quando Jorge (Salvador Sobral) e Júlia (Patrícia André) se conhecem. Ele é um escritor viúvo e ela uma actriz divorciada. Dizem ambos não querer nada com o amor - até que o irmão Leo (André Nunes) e a melhor amiga Filipa (Leonor Seixas) decidem dar numa de cupido.

Jorge e Júlia decidem encontrar-se só para calar os amigos. O charme involuntário (com um discurso meio atrapalhado) numa conversa ao telefone acaba por ditar a decisão. A vida troca-lhes as voltas e lá estão eles, num apartamento de Lisboa, completamente derretidos um pelo outro. Em duas semanas, decidem casar.

É aí que volta o fantasma do passado, de uma mulher tomada como exemplar e para a qual não há substituição. Até que ponto somos capazes de viver novos amores sem fazer comparações com o que já se viveu? Como ajustar expectativas? Como não viver de memórias? É isso que vamos descobrir em palco.


O discurso é de uma certa ironia (para não dizer descrença) face às relações humanas. As piadas e as indirectas seguem-se em catadupa, uma atrás da outra. O público ri-se, identifica-se, afinal o que está à nossa frente é a vida comum.

A leveza (quase constante) da narrativa faz com que saiba bem estar sentado no Teatro da Luz, em Lisboa, enrolado numa manta, a desafiar o frio enquanto se assiste ao espectáculo. Pelo prazer de um teatro que não quer ser mais do que uma distracção momentânea, com uma história simples. Interpretações com uma certa dose de exagero, é certo, mas sem chegar à caricatura.

Este texto de Neil Simon foi um sucesso na Broadway e, no final da década de 1970, seria adaptado ao cinema em "Capítulo Segundo". Talvez a força esteja no seu carácter autobiográfico: também Simon teve de passar pelas mesmas questões que o seu protagonista Jorge enfrenta.

Procuramos sempre nos outros a solução para os nossos problemas. Não precisamos de ir tão longe. Basta uma volta solitária ao quarteirão.





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