Weekend Se a minha memória fosse um teatro, prometias percorrê-la?

Se a minha memória fosse um teatro, prometias percorrê-la?

Em fila, transformados em vultos, passando os corredores deste teatro. Cada movimento poderia ser fixado, como uma fotografia. Porque as imagens, de tão simples, se tornam fortes.
Wilson Ledo 02 de junho de 2018 às 14:00
"Cortado por todos os lados, aberto por todos os cantos" - O trabalho de Gustavo Ciríaco integrou a programação do Alkantara Festival, que ainda decorre. No final de Junho, é a proposta para abrir mais uma edição do festival Walk & Talk, em São Miguel, nos Açores.

O espectáculo já tinha terminado. Entre as conversas casuais, uma mulher junta-se. Traz o rosto enrugado e o cabelo todo branco. Uma muleta em cada um dos braços, a denunciar a deficiência nos pés, que a acompanha desde o nascimento, explica. "Sinto-me tão feliz. Ainda bem que consegui ver. Nunca desistam dos vossos sonhos, por mais que vos digam que não." E despede-se sem sequer dizer o nome.

Apesar dos problemas de mobilidade, insistiu que queria ver "Cortado por todos os lados, aberto por todos os cantos", o novo trabalho de Gustavo Ciríaco. E, com ele, os bastidores de um teatro que já visitara inúmeras vezes, o Teatro Nacional D. Maria II. Simplicidade e bom gosto, assim se resume este percurso "sight-specific" pensado pelo artista que se divide entre Lisboa e o Rio de Janeiro.

A cada etapa, são construídas imagens. Todo o movimento é elevado por Ciríaco a um outro nível, conduzindo inevitavelmente a um momento de paragem: como quando um actor empurra, em câmara lenta, um sofá ao longo de um salão. Cada mudança de posição poderia ser transformada em fotografia. Os gestos, a iluminação, o enquadramento ou a proximidade do público permitem fixar essas memórias: as memórias de um teatro desconhecido para a maioria, que se vai revelando perante os nossos olhos.

Há uma estética sólida em "Cortado por todos os lados, aberto por todos os cantos", da gama cromática dos figurinos dos actores à linearidade que é exigida aos participantes durante algumas partes do percurso, sobretudo em áreas de corredores. Vamos passando, como vultos externos, que parecem não se fixar na história deste teatro. Contudo, nele experienciamos surpresa, desconforto ou alegria, ao espreitar para dentro de cada nova porta.

Não raras vezes, Ciríaco coloca os seus actores como parte integrante do edifício. Eles tocam o chão e as paredes, procuram fundir-se com eles, enquanto o público é conduzido para a cena seguinte. Fórmula económica, porque orientam a multidão sem a necessidade de um diálogo. Aliás, o diálogo é uma parte mínima deste trabalho. Quando muito, um gesto com a cabeça ou a ponta dos dedos e a informação passa.

Ao olhar para o teatro como "escultura expandida" - conceito que vai buscar ao minimalismo das artes plásticas -, Gustavo Ciríaco está consciente da importância do espectador neste percurso. É o público quem o completa, sem fechar possibilidades. Pelo contrário, abrindo-as, através do seu processo de interpretação.

Para comprová-lo, o artista leva o espectáculo para a rua logo nos primeiros minutos. Este é um teatro que se abre à comunidade, se alimenta dela, reforçando a lógica shakesperiana de que o mundo inteiro pode ser um palco. Porque não a Baixa de Lisboa? A determinado momento, quem está de passagem assume involuntariamente o protagonismo. Como duas turistas que, alheias ao desempenho do actor a poucos metros delas, se excedem na pose para uma selfie em frente à estação do Rossio. Gargalhada geral na varanda do D. Maria II.

"Cortado por todos os lados, aberto por todos os cantos" tem uma força única. Capaz de fazer uma multidão de quase 90 pessoas baixar-se naturalmente para, em silêncio, ouvir um piano tocar. Ou, na sala que guarda os figurinos daquele teatro, ver os actores dançar e logo depois solidificar, transformar-se em esculturas vivas.

É uma festa tão bonita, daquelas que nos fazem não querer desistir. Porque nos sentimos parte, por muito que estejamos de passagem.





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