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Virgolino Faneca escreve uma cristalina carta ao senhor Mário

O senhor Mário é um dos pais fundadores da pátria dos favores. Fernando Pessoa, na sua morada celestial, já está arrependido de ter escrito "a minha pátria é a língua portuguesa".

Celso Filipe cfilipe@negocios.pt 30 de Setembro de 2016 às 17:00
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Estimado Mário David

Venho pela presente manifestar-lhe a minha total compreensão, colocando-me desde já à sua disposição para o defender daqueles que o catalogam como um traidor da pátria por apoiar a candidatura da senhora Kristalina à liderança da ONU, contra o nosso senhor Guterres.

O senhor Mário, na minha modestíssima opinião, é um vetusto peixe de águas profundas que navega com sabedoria nos mares da União Europeia e mais não faz, no caso da senhora Kristalina, do que seguir o exemplo do senhor João Rocha.

Passo a explicar. O senhor Rocha, quando era presidente do Sporting, nos idos anos 80, ficou célebre por naturalizar dois jogadores de futebol búlgaros, Kostov e Bukovac, tendo para o efeito recorrido a duas simpáticas portuguesas que vendiam o seu corpo em troca de favores monetários, as quais acederam a casar com os ditos, para que eles adquirissem a nacionalidade portuguesa. Não houve amor, reza a lenda que os cônjuges nem sequer se conheceram, mas houve vantagens, e muitas, para ambas as partes.

O senhor Mário faz o mesmo, vende os seus favores de lobista à senhora Kristalina, que no futuro lhe irá retribuir os préstimos com favores que você docilmente irá cobrar, em benefício próprio ou para usufruto daqueles a quem deve favores ou que, pela sua acção, lhe irão ficar devedores de favores.

Isto é, basicamente, o senhor é um génio e a senhora Kristalina irá ter, na ONU, caso seja eleita, uma actuação baça, conveniente à insigne classe dos lobistas, da qual você é um lídimo representante. A nacionalidade não tem nada que ver para o caso, embora o senhor, no seu site, convide os visitantes a conhecer os melhores momentos que viveu "ao serviço dos portugueses, de Portugal e da Europa". Aqui, a palavra-chave, não é portugueses, Portugal e muito menos Europa, mas sim serviço. E esta é uma área em que você é um artífice de fina igualha.

O senhor Guterres, ingénuo, candidata-se ao cargo de secretário-geral da ONU porque tem a ousadia de pensar que pode desempenhar o cargo a contento. A senhora Kristalina candidata-se porque o senhor Mário e outros senhores de quem você é amigo têm a certeza de que ela tem o perfil certo para o cargo. Uma circunstância que, claro, faz toda a diferença.

Que raio passou pela moleirinha do senhor Guterres para achar que pode pensar pela sua própria cabeça? Pessoas como o senhor Mário existem para ajudar pessoas como a senhora Kristalina a pensar e é por isso que o mundo, e a Europa em particular, está como está, ou seja, bem.

Eu, por exemplo, nunca teria sido capaz de escrever-lhe se não tivesse a ajuda de uma pessoa com qualificações semelhantes à do senhor Mário, que no caso específico desta carta foi o meu primo Paragrafino.

Prezado senhor Mário, arrisco-me a dar um passo em frente nesta minha cristalina análise, considerando que você, com a sua brilhante actuação, acaba de dar a extrema-unção à frase ingénua do senhor Pessoa "a minha pátria é a língua portuguesa", estabelecendo um novo paradigma que é o da criação da língua dos favores, pátria da qual é pai fundador.

Se me puder fazer o favor de me arranjar um passaporte para essa linda pátria, ficaria muito agradecido, até porque já nem falo bem o português. Já sei, fico-lhe a dever uma, mas não me importo. É uma honra viver na pátria dos melhores e você é um deles.


Um abraço repleto de favorecimentos deste seu,

Virgolino Faneca



Quem é Virgolino FanecaVirgolino Faneca é filho de peixeiro (Faneca é alcunha e não apelido) e de uma mulher apaixonada pelos segredos da semiótica textual. Tem 48 anos e é licenciado em Filologia pela Universidade de Paris, pequena localidade no Texas, onde Wim Wenders filmou. É um "vasco pulidiano" assumido e baseia as suas análises no azedo sofisma: se é bom, não existe ou nunca deveria ter existido. Dele disse, embora sem o ler, Pacheco Pereira: "É dotado de um pensamento estruturante e uma só opinião sua vale mais do que a obra completa de Nuno Rogeiro". É presença constante nos "Prós e Contras" da RTP1. Fica na última fila para lhe ser mais fácil ir à rua fumar e meditar. Sobre o quê? Boa pergunta, a que nem o próprio sabe responder. Só sabe que os seus escritos vão mudar a política em Portugal. Provavelmente para o rés-do-chão esquerdo, onde vive a menina Clotilde, a sua grande paixão. O seu propósito é informar epistolarmente familiares, amigos, emigrantes, imigrantes, desconhecidos e extraterrestres, do que se passa em Portugal e no mundo. Coisa pouca, portanto.


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