A outra face do tigre

É a Indonésia rural, local de tradições e superstições, que é o palco perfeito para este livro muito estimulante de Eka Kurniawan. Uma obra sobre a violência e a justiça.
Jornal de Negócios
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Fernando Sobral 24 de fevereiro de 2018 às 17:00

Eka Kurniawan
Homem-Tigre
Elsinore, 176 páginas, 2018
Eka Kurniawan é a estrela mais brilhante da ficção indonésia da actualidade. Se a primeira obra de ficção de Kurniawan, "Beauty is a Wound", já tinha sido comparada à de Garcia Márquez ou mesmo à de Salman Rushdie, este seu novo livro, "Homem-Tigre", só vem confirmar que estamos perante um prosador de peso. O que atrai na sua escrita é a noção de herança oral que se vai encontrando nestas páginas que se entranham.
Este livro joga com o factor sobrenatural num contexto de mutação de uma sociedade onde se cruzam as espadas de samurai deixadas pelo colonialismo japonês e a "violência provada", que se vai entranhando nos seres humanos que vivem num contexto em que não estão em guerra. Este poderia ser um policial, embora ninguém saiba bem o que é que se deve perseguir. Anwar Sadat (não deixa de ser curioso a utilização do nome do antigo Presidente egípcio, também ele assassinado), um artista falhado, terá sido morto pelo jovem Margio, um assassino que é educado e distinto, mas que tem algo dentro dele, que o transforma.
O tigre-branco fêmea (que toma posse do corpo de Margio) deste livro é uma forma de representação. E isso tem que ver com as crenças javanesas sobre a possibilidade de existência paralela. Tudo tem que ver também com a própria vida da vila onde tudo se passa e que é descrita pelo autor de uma forma serena e fantástica. De alguma maneira, faz lembrar um reputado escritor indonésio, Pramoedya Ananta Toer, mas também tem outras influências, como a "pulp fiction", que era muito popular em Java quando o autor era jovem. As descrições do assassinato recordam muito essa conexão. E depois existe a influência da cultura popular indonésia e dos clássicos indianos. Mas as suas personagens, muito bem desenvolvidos, mostram que Kurniawan gosta de contar histórias que cativem, e as que têm que ver com as do policial, garantidamente, são seguidas aqui.
Kurniawan transporta-nos para o mundo rural indonésio, extremamente pobre, onde a tradição oral e as crenças continuam a ter um peso muito grande. E onde as noções de violência e de justiça têm outros contornos. Por isso, a posse de Margio pelo tigre-branco fêmea não era uma surpresa: "O tigre era tão branco como um cisne, violento como um cão-selvagem-asiático. Mameh viu-o uma vez, rapidamente, emergir do corpo de Margio como uma sombra. Nunca mais o voltaria a ver. Havia um sinal de que o tigre fêmea ainda vivia no interior de Margio, e Mameh não sabia se mais alguém tinha visto do que se tratava. Na escuridão, o fulgor amarelo dos olhos de um gato brilhava nas pupilas de Margio", escreve Kurniawan.
Livro de uma complexidade que parece pouco aparente, "Homem-Tigre" transporta-nos para um mundo que se recusa a desaparecer, nestes tempos de grandes urbes. Onde a tradição e a superstição continuam a resistir ao mundo pretensamente moderno e citadino. E é por isso que é tão empolgante.

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