O valor do Paciente Inglês

Numa votação primeiro especializada, depois popular, “O Paciente Inglês” foi distinguido como o melhor livro do Booker Prize dos últimos 50 anos. A curiosidade agora é a de saber como é que o mercado do livro raro vai incorporar a distinção.
Jornal de Negócios
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José Vegar 14 de julho de 2018 às 18:00

Será curioso observar a evolução do valor do livro "O Paciente Inglês" nos próximos meses. Para os que não tomaram conhecimento da distinção, a novela do canadiano Michael Ondaatje foi escolhida na semana passada como o melhor livro dos últimos 50 anos do Prémio Man Booker, ganhando o galardão Booker Dourado.
Dando um pouco de contexto, convém começar por referir que o Man Booker rivaliza com o Nobel como o mais relevante prémio literário contemporâneo, embora só seja atribuído a livros em inglês. Este ano, o Man Booker decidiu escolher o livro mais importante dos últimos 50 anos, para comemorar os seus igualmente 50 anos de existência.
O critério de entrada para a lista era o de que um livro tinha de ter ganho anteriormente o prémio, o que aconteceu com "O Paciente Inglês" em 1992. Depois, foi nomeado um júri para escolher uma obra por década, e Ondaatje foi nomeado como representante dos anos 90. O passo final foi uma votação aberta aos leitores dos cinco livros escolhidos, e, aqui, "O Paciente Inglês" ganhou por uma boa margem.
A discussão sobre o mérito de o melhor livro dos últimos 50 anos ser o de Ondaatje dará para "terabytes" de discussão, a serem produzidos durante anos. O principal argumento dos opositores à escolha é, obviamente, o de que o livro tem tanta aceitação entre os leitores, daí a inclinação do voto para o seu lado, porque o filme feito a partir da obra é ainda extremamente popular.
Mas, para o que nos interessa, o importante é a discussão do valor do objecto no mercado dos livros e, claro, e como é construído esse valor. Editado há 26 anos, o livro não é ainda um clássico, mas tem já uma antiguidade assinalável. Por outro lado, quando foi publicado, transformou-se num "best-seller" imediato, aumentando de popularidade ao receber o Booker.
Actualmente, uma edição "first printing, first edition", sempre a mais valiosa, está cotada entre os 1.500 e os 1.900 dólares, e até um pouco mais, se estiver assinada pelo autor. Refira-se, a título de curiosidade, que um original do guião cinematográfico chega aos 2.500 dólares. A curiosidade, agora, é a de avaliar o impacto no mercado do Booker Dourado. Poderá, se se desenvolver uma tendência, ser responsável pelo aumento da visibilidade, e do valor, de um livro que seguia um percurso estável de valor. Ou poderá significar absolutamente nada, se o mercado considerar que o Booker Dourado é apenas mais um movimento de comunicação, numa época superlotada por fenómenos deste tipo... 
Nota ao leitor: Os bens culturais, também classificados como bens de paixão, deixaram de ser um investimento de elite, e a designação inclui hoje uma panóplia gigantesca de temas, que vão dos mais tradicionais, como a arte ou os automóveis clássicos, a outros totalmente contemporâneos, como são os têxteis, o mobiliário de design ou a moda. Ao mesmo tempo, os bens culturais são activos acessíveis e disputados em mercados globais extremamente competitivos. Semanalmente, o Negócios irá revelar algumas das histórias fascinantes relacionadas com estes mercados, partilhando assim, de forma independente, a informação mais preciosa.

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