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Das Kapital - Um livro que sobreviveu a 150 anos

Este ano marca o 150.º aniversário da publicação do primeiro volume d'O Capital, de Karl Marx. Um século e meio depois, sabemos que o capitalismo ainda não colapsou, mas vários elementos da crítica marxista continuam a fazer sentido. Quão relevante é para entendermos o mundo em 2017?

Nuno Aguiar naguiar@negocios.pt 19 de Maio de 2017 às 10:17
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Os dias eram passados enfiado no Museu Britânico. Das nove da manhã às sete da tarde, Karl Marx mergulhava nas estatísticas de produção industrial e escavava dados de comércio internacional. À noite, passava horas a escrever sem dormir, rodeado por uma persistente nuvem de fumo. Constantemente doente - de problemas de fígado a furúnculos incómodos - e com dívidas até ao pescoço, Marx poderá ter sentido que o seu esforço não estava a valer a pena ("O Capital nem sequer vai pagar os cigarros que fumei a escrevê-lo", terá confessado). Cerca de uma dúzia de pessoas foram ao seu funeral. A sua grande obra, Das Kapital (O Capital), vendeu apenas mil exemplares em quatro anos e só seria traduzido para inglês duas décadas depois. Hoje ela é vista como uma obra fundamental e Marx como um dos investigadores mais influentes de sempre. Mas quão relevante para perceber a economia actual pode ser um livro com um século e meio de existência?

Em 1867, Marx publicou o primeiro volume d'O Capital. A Terra deu muitas voltas ao Sol desde essa altura. 150, para ser mais preciso. Entretanto, Thomas Edison testou a primeira lâmpada, o Titanic bateu num icebergue, Albert Einstein escreveu E = mc2, a Europa caiu em duas guerras mundiais, o Homem deixou pegadas na Lua, o Muro de Berlim caiu e, com ele, a URSS, a Internet foi inventada, a Zona Euro nasceu, o Lehman Brothers e o sistema financeiro colapsaram. A generalidade das pessoas vive muito melhor e por muitos mais anos. Acho que percebem a ideia: o mundo mudou muito desde 1867. No aniversário dos 150 anos d'O Capital, o Negócios quis ouvir economistas de tradição marxista ou que admiram o trabalho de Marx e questioná-los sobre a actualidade do trabalho do filósofo e economista alemão.

N'O Capital, Marx analisa com detalhe o sistema fabril e procura explicar as leis que estão na base do sistema económico capitalista, partindo de conceitos de economistas clássicos, como David Ricardo e Adam Smith, mas tirando depois implicações políticas dessa análise. Marx argumenta que a força motriz do capitalismo é a exploração do trabalho. Ele assume como premissa que o preço de uma mercadoria é essencialmente definido pelo esforço de trabalho que esteve envolvido na sua produção e que parte desse trabalho não é pago. Por exemplo, um trabalhador demora 4 horas a coser 20 t-shirts. Isso seria suficiente para justificar o seu salário, mas a jornada de trabalho são oito horas, o que significa que ele está a trabalhar "de graça" durante outras quatro. Esse excedente, ou mais-valia, fica para quem detém o capital - o capitalista. É o lucro. Para Marx, entre trabalhadores, capitalistas e detentores das terras, apenas os primeiros são uma classe produtiva.

No seu retrato de um novo mundo industrializado e de acumulação de capital - "Acumulai, acumulai! Eis Moisés e os profetas!", escreveu -, Marx antevê que a dinâmica do capitalismo o encaminhe para a autodestruição. A competição entre os capitalistas levará a tentativas de redução de custos de produção e de aumento da produtividade. Mais capital (máquinas) e menos trabalho humano resultariam, prevê Marx, numa queda dos lucros e numa concentração cada vez maior em grandes empresas.

Descrever a complexidade do sistema capitalista é um projecto ambicioso. De tal forma que Marx nunca o conseguiu acabar. Com demasiado material em mãos, publicaria, em vida, apenas o primeiro volume d'O Capital. Trabalha no segundo e terceiro volumes até ao final da década de 1870, mas não os termina. Friedrich Engels assume a tarefa de organizar e editar as notas deixadas por Marx e publica o segundo livro em 1885, dois anos após a morte deste. O terceiro chegaria nove anos depois.

As ideias de Karl Marx fundaram uma escola económica, inspiraram revoluções, trouxeram os trabalhadores para as ruas e constituíram os alicerces de regimes que marcaram a História do século XX, assumindo-se como um dos bastiões da luta ideológica dos últimos 150 anos. O marxismo obviamente ainda existe e inspira movimentos políticos, mas a sua relevância na cena internacional acabou enterrada nos escombros do Muro de Berlim. Mesmo tendo perdido relevância, pode continuar a ser útil?

"Conquanto as sociedades tenham mudado, os escritos de Marx tratam de um modo de produção que se mantém o mesmo: o capitalismo. Marx vai para lá daquilo que aparenta ser uma mera economia de troca e foca-se nas relações sociais que estão por detrás da produção, nomeadamente a divisão entre capitalistas, proprietários dos meios de produção, e trabalhadores que vendem a sua força de trabalho. Uma divisão que se mantém até aos nossos dias", explica Nuno Teles, economista do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, que se integra naquilo que se pode chamar uma tradição marxista na economia. "Perceber como a produção, distribuição e troca estão organizadas é essencial para compreender as mais recentes tendências do capitalismo contemporâneo, seja na expansão da mercadorização de cada vez mais bens e serviços, na formidável concentração e centralização de capital a que assistimos, hoje dominadas pela finança, na desigualdade crescente trabalho e capital na distribuição de rendimento e no carácter anárquico da produção propício a crises."

Para a generalidade das pessoas não é fácil distinguir entre Marx, o historiador económico, e Marx, o ideólogo revolucionário. Porém, mesmo que se discorde profundamente da segunda, é possível encontrar utilidade na primeira. Claro que algumas ideias sobreviveram melhor do que outras ao longo destes 150 anos. A passagem do tempo raramente é simpática para qualquer pessoa e Marx não é excepção. A fragilidade normalmente mais referida é a vertente determinista das suas teorias: o mundo caminhava no sentido do socialismo, que seria o estado natural seguinte das relações económicas. Socialismo esse cujas sementes o próprio capitalismo já carregava. A História encarregar-se-ia de mostrar que o capitalismo tem uma maior capacidade de adaptação do que Marx julgava e que o socialismo não está escrito nas estrelas. Mesmo que acabe por ser esse o caminho da humanidade, ele está longe de ser inevitável. Aliás, alguns marxistas dirão que, se o capitalismo colapsar, o que virá a seguir pode não ter nada a ver com socialismo.

Nuno Ornelas Martins, professor da Universidade Católica, não é um marxista no sentido que a maioria das pessoas dá ao termo. Católico, não concorda com as propostas políticas de Marx, mas define-se como um economista clássico e tem nele um dos pensadores que mais admira e estudou. O que não significa que não lhe identifique limitações: "Ele achava que o fim do capitalismo estava próximo e que os trabalhadores se uniriam em torno de uma revolução comunista." Isso não se concretizou, nem o socialismo surgiu onde Marx tinha previsto: no coração do capitalismo. Na realidade, seria a quase feudal Rússia a fazer a revolução.

Outra ideia que parece ter sobrevivido mal é a teoria do valor-trabalho, que serve de base ao trabalho de Marx. Já utilizada por economistas clássicos como David Ricardo e Adam Smith, parte do princípio que o valor de mercado dos bens depende do trabalho que a sua produção envolve. Um relógio é mais caro do que um pão alentejano, porque encontrar os materiais do relógio demora mais tempo, assim como a sua construção. Essa é uma ideia que não envelheceu bem.


Além disso, deixa inúmeras questões por responder. Muitas delas relacionadas com a transição entre sistemas. A abundância que reconhece no capitalismo continuaria a existir sem alguns dos seus elementos centrais, como a divisão do trabalho?

Por outro lado, outras ideias fazem todo o sentido em 2017. Exemplos disso são a financeirização da economia, a concentração de riqueza, a produção de desigualdades, a expansão da lógica de mercado e a ideia de um sistema com crises cíclicas.

"Algumas luzes, muitas sombras e uma derrota"

A verdade é que, justa ou injustamente, Karl Marx e O Capital são julgados à luz daquilo que outros fizeram com essas ideias. Se perguntar à pessoa que está à sua direita se já ouviu falar de Marx, ela provavelmente responderá que sim. Isso não seria possível sem o assalto ao Palácio de Inverno e sem Lenine liderar os bolcheviques à vitória (este ano, há outra efeméride: a Revolução Russa faz 100 anos). Para Marx, é uma bênção e uma cruz. Garantiu-lhe um lugar na História, mas também a associação a um regime responsável por vários crimes contra a humanidade e que, em última análise, falhou.

"Mal ou bem, o destino do marxismo é ensombrado por essa experiência [da URSS]. Algumas luzes, muitas sombras e uma derrota. [O socialismo] foi menos resiliente", aponta João Rodrigues, também investigador do CES. Contudo, o economista considera que isso não retira validade às ideias de Marx. "Diz-se que o marxismo sofreu uma grande derrota, mas confunde-se vitória ou derrota política com validade intelectual. [A URSS] ter falhado espectacularmente não reduz o seu pensamento. Marx não tem responsabilidade pelo futuro do socialismo."

Nuno Teles argumenta que, se o marxismo for julgado pelo que foi feito em seu nome, essa lógica pode ser alargada a outros conceitos. "O legado político de Marx foi invocado para justificar alguns crimes da História recente, tal como aconteceu com as ideias de "democracia" ou "liberdade". Marx e a sua obra devem, por isso, ser avaliados não à luz das variadas apropriações de que foi alvo, mas da sua relevância na análise do capitalismo e do potencial emancipatório das classes trabalhadoras", afirma. "O movimento operário dos séculos XIX e XX, a cuja acção política devemos as grandes conquistas socioeconómicas e políticas do último século tem uma enorme dívida intelectual para com as análises de Marx."

Ao contrário daquilo que Marx esperava, o comunismo - ou o caminho para lá chegar - não resolveu o "enigma da História". Talvez o tenha tornado ainda mais desafiante. A guerra ideológica travada durante todo o século XX entre os pólos Washington-Moscovo terá provavelmente contribuído para uma leitura mais contaminada de Karl Marx. Preso entre propaganda comunista e anticomunista, nenhuma das trincheiras fazia uma interpretação desinteressada das suas ideias. "Na URSS, só se podia falar de Marx de determinada forma, nos EUA não se podia sequer falar", diz Ornelas Martins.

Talvez Marx ficasse bastante desiludido com a organização económica da União Soviética, mas desresponsabilizá-lo totalmente pode ser simplista. Marx sabia, reconhecia e desejava que as ideias transformassem a sociedade. E nem sempre é da forma como mais desejamos. José Maria Castro Caldas admite que essas experiências políticas contagiaram a imagem que existe das teorias marxistas e que existe uma tensão por resolver entre aqueles que as defendem. "Quem reivindica a actualidade d'O Capital não pode deixar de ter em conta os erros e as tragédias daqueles que reclamaram O Capital nas suas experiências políticas", aponta. "[Mas] o facto de muitas coisas terem corrido mal não invalida que não haja no livro instrumentos de análise ao capitalismo actual."

Que instrumentos são esses? "Onde o marxismo dá mais contributos é a olhar para o capitalismo como um sistema histórico. Os economistas marxistas dão cartas nas áreas da financeirização, mercadorização, integração económica internacional, globalização…", refere João Rodrigues. "No debate público, Marx causa fascínio e repulsa. Quem tem contacto com a sua obra sem preconceito, mesmo que não concorde, vê que há um esforço para articular economia, política e sociedade."

Nuno Teles aponta que a crítica marxista permite dar respostas que outras abordagens não conseguem. "Por exemplo, [Paul] Krugman diz que se há um problema de desemprego, o Estado devia ter uma maior intervenção. O problema não é a economia de mercado. O marxismo pode ajudar a explicar que o problema é endógeno. Quando se diz que mais desemprego resulta em menos salários, isso é Marx."

Ornelas Martins sublinha que o grande mérito do filósofo alemão está na sua vertente de historiador. "Foi fundamentalmente um analista do capitalismo. Um grande historiador do pensamento económico. Um dos melhores", afirma.

De facto, pode ser difícil não pensar em Marx quando se assiste a uma crescente concentração da riqueza no topo da pirâmide. Nos Estados Unidos, os 0,1% mais ricos da população detinham no início do século passado quase 25% de toda a riqueza do país. Esse valor caiu durante o pós-II Guerra Mundial, estabilizando em torno dos 10%. A subida que se começou a observar no início dos anos 80 já colocou esse rácio novamente acima dos 20%. Os 1% mais ricos têm hoje mais de 40% de toda a riqueza do país.

Dedicatória de Marx para Portugal

Na academia portuguesa, o marxismo não teve um impacto decisivo, mas deixou alguma marca, sempre mais virado para a intervenção política e com alguma dificuldade em fazer a transição da universidade para a fábrica. "O marxismo tem relevo na cena do pensamento económico em Portugal. No século XIX, a obra de Marx foi objecto de conhecimento parcial por alguns académicos de Coimbra, em particular José Frederico Laranjo e José Marnoco e Sousa", explica ao Negócios Carlos Bastien, professor do ISEG. "Já o movimento operário da mesma época, privado de intelectuais, revelou fraquíssimo conhecimento da teoria - e consequentemente incapacidade de ler o concreto português à luz do marxismo - mesmo quando politicamente alinhou com a facção marxista no âmbito da Internacional", acrescenta Bastien. "José Nobre França chegou a receber um exemplar de O Capital com uma dedicatória do próprio Marx, mas o episódio tem um significado apenas simbólico."

Já depois da Revolução Russa de 1917, o marxismo ganha mais alguma força, assistindo-se à fundação da Federação Maximalista Portuguesa e do Partido Comunista Português. Uma influência que teve, no entanto, "uma dimensão essencialmente política e não teórica". "O marxismo desses anos vai-se revelando crescentemente um leninismo prático." Só nos anos 30 é que começariam a surgir intelectuais marxistas, como Álvaro Cunhal e Bento de Jesus Caraça. Ainda assim, continuam a não ser economistas, embora tenham alguma reflexão nessa área.


A corrente marxista pode não ter tido grande peso em Portugal, mas muitos dos economistas dessa tradição queixam-se que ela recebe ainda menos atenção dos media, que marginalizam essas ideias. É difícil encontrar um economista assumidamente marxista a comentar actualidade económica na televisão. Há resistência em colocar duas pessoas a discutir de que forma deve ser um tijolo se uma delas defender que o tijolo não deve sequer estar ali. Ainda assim, talvez mais do que dos media, estes economistas queixam-se da academia e da falta que faz uma dimensão mais histórica no ensino da mesma. "Um estudante de economia não tem contacto nenhum com Marx", nota Nuno Teles. Para Castro Caldas, "já esteve mais longe de se tornar escandaloso". "Como é que não há uma história do pensamento económico? Economia não é uma ciência positiva, é um campo de controvérsia, de factos versus valores", acrescenta.

Viver num mundo diferente

Um desafio permanente quando se fala de Marx é resistir à tentação de o ver como alguém que acabou de se sentar à secretária para escrever, que viu e que sabe o mesmo que nós. 150 anos é muito tempo. Pela altura em que Marx publicou O Capital, na Europa Ocidental, apenas seis em cada dez pessoas tinham acesso a uma educação básica. Um valor que hoje ascende a 99,8%. De 3,5 anos de escolaridade média, saltou-se para 12 anos. As pessoas viviam, em média, apenas até aos 38 anos (!). Hoje, a esperança média de vida ronda os 80. Na década de 1870, um trabalhador podia passar mais de 80 horas por semana na fábrica e o salário diário de um europeu pouco qualificado só lhe permitia comprar 13 cabazes de subsistência (com um mínimo de 1.940 kcal). Actualmente, consegue comprar 163 e tem grande probabilidade de viver numa democracia.

Ou seja, é importante colocar Marx no seu ambiente original: o século XIX, envolvido em várias batalhas ideológicas com outros autores seus contemporâneos. A História haveria de ditar que ele se distinguiria de todos. Para além de ter inspirado Lenine, o que o diferenciava? Segundo, Ornelas Martins, Marx tinha duas vantagens face aos outros intelectuais do seu tempo: a formação filosófica, inspirada pela dialéctica de Hegel; e a sua capacidade e vontade de ler e estudar os economistas clássicos, como Smith e Ricardo. No entanto, seria ingénuo manter Marx fechado no século XIX. Ele deu motivação a revolucionários e ferramentas de luta aos trabalhadores, serviu de arma nas grandes batalhas ideológicas do século XX e ainda influencia a luta política em 2017.

Se as notícias da morte do capitalismo foram grandemente exageradas por Karl Marx, talvez o óbito intelectual do marxismo tenha também sido decretado cedo demais. Mesmo com falhas e limitações que todos reconhecem, é impossível negar a sua influência. A Scientific American escrevia em 2013, com base numa ferramenta criada na Universidade de Indiana, que Marx era o académico mais influente de sempre, usando como avaliação o número de citações e quantidade de publicações.

O colapso financeiro de 2008 trouxe Marx novamente para a ribalta. As vendas d'O Capital aumentaram, talvez em busca de soluções que a economia mainstream não estava a conseguir dar. No entanto, aconselha-se cautela nas leituras mais literais. "Não se pode ver O Capital como uma bíblia. É um livro bastante flexível, mas não se pode levar à letra", aconselha Nuno Teles. "O marxismo não pode ser uma cartilha. Se ler O Capital não vai ver a luz."

150 anos depois da sua publicação, usar O Capital como manual de instruções indisputado para a economia pode ser o mesmo que pedir a Copérnico para comentar o funcionamento de buracos negros. O que não significa que o astrónomo não estivesse certo sobre o heliocentrismo. 


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