Livros: Palavras mágicas de Tagore
A sensibilidade da sabedoria de Tagore sobressai no livro “A Asa e a Luz”, que junta duas obras do autor indiano - “Pássaros Perdidos” e “Pirilampos”. Ambas repositórios de um cruzamento de aforismos e pequenos poemas.
Rabindranath Tagore, que morreu em 1941, foi muito provavelmente uma das vozes mais marcantes da cultura indiana do século XX. Crítico atento das lógicas de "orientalismo" que despontavam no Ocidente a partir de finais do século XIX, desconfiado das concepções de modernidade e "desenvolvimento" ocidental que evoluíram no período vitoriano e que acenavam com um mundo mais materialista (ao "progresso" do comboio contrapunha o crescimento de uma árvore, como símbolo do "progresso" da vida), Tagore era um homem do mundo. Se se identificava com Bengala, terra de rios e campos de arroz, de onde era originário, olhava com curiosidade à sua volta. E buscava resposta para os problemas de uma enorme Índia que tentava livrar-se do colonialismo britânico.
Os seus escritos, quase desde o início, buscaram o passado da Índia como fonte de inspiração, mas a isso acrescentava sempre uma suficiente dose de humor e crítica social. O nacionalismo cresceu quando o então vice-rei britânico, Lord Curzon, decretou que Bengala deveria ser dividida devido ao seu tamanho, dentro do espírito imperial de dividir para reinar.
Tagore passou a ser visto como um elemento subversivo, embora a sua resistência fosse sobretudo cultural. Se era visto com desconfiança pelos que reinavam na Índia, Tagore foi criando uma legião de fãs na Grã-Bretanha. Os seus poemas começaram a ser traduzidos para inglês e W. B. Yeats declarou-se seu admirador. Tagore visitou novamente a Inglaterra e quando regressou à Índia foi informado que recebera o Prémio Nobel da Literatura de 1913. O seu livro "Gitanjali" teria 20 edições até 1915. O poder colonial britânico na Índia passou a ter de conviver com ele. Até aos seus últimos dias Tagore continuou a acordar antes do sol nascer para ver as cores de cada novo dia. Até morrer, no meio de um mundo que parecia ir contra tudo aquilo que defendera ao longo de 80 anos de vida.
Surgemagora em edição portuguesa, sob o título "A Asa e a Luz", duas obras de Tagore, "Pássaros Perdidos" e "Pirilampos", ambos repositórios de um cruzamento de aforismos e pequenos poemas, algo que sempre foi bastante comum no escritor. "Pássaros Perdidos" começou a ser escrito no Japão em 1916 e "Pirilampos", fruto de viagens ao Extremo Oriente, viria a ser publicado em 1928. Mas ambos têm em comum o fascínio do autor pela natureza e por tudo o que a povoa. Há frases que pautam o seu olhar calmo sobre o que o cerca: "Lemos mal o mundo, e dizemos depois que ele nos engana", "É fácil falar alto e sem hesitação quando se sabe que não se vai dizer a verdade completa", "Ele, que está demasiado ocupado em fazer o bem, não tem tempo para ser bom" ou "Os fracos podem ser terríveis porque tentam furiosamente parecer fortes". A enorme sensibilidade da sabedoria de Tagore que transparece nas suas palavras vai-nos conquistando. Entendemos então porque o mundo mágico de Tagore passou todas as fronteiras do tempo e ficou para sempre vertido em ensinamentos que não podemos esquecer.