A Quinta de Cidrô é uma escola

Uma escola para quem na Real Companhia Velha tem de gerir muitas castas e uma escola para a educação cosmopolita dos consumidores.
Jornal de Negócios
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Edgardo Pacheco 07 de julho de 2018 às 13:00

Se um crítico francês esmiuça todos os perfis de Chardonnay que o seu país dá e se outro profissional alemão disseca os Riesling em função da altitude das vinhas do rio Mosel, um português com a mesma vida gosta é de falar de Arinto, Antão Vaz, Encruzado, Fernão Pires, Cercial, Viosinho, Rabigato, Samarrinho ou Alvarinho (o nosso e o galego). Num mundo comercialmente globalizado, só nos safamos se apostarmos em castas que mais ninguém tem.
Se, por razões que tanto misturam a curiosidade e o negócio, as grandes castas internacionais sempre se instalaram em Portugal, talvez não seja exagero salientar que a Real Companhia Velha foi uma das empresas que levou a coisa mais a sério, quer pelo facto de ter instalado com rigor científico as grandes castas mundiais na sua Quinta de Cidrô (São João da Pesqueira), quer pelo facto de fazer uma colheita tardia com Sémillon há mais de 100 anos (convém não esquecer).
Como é evidente, a família Silva Reis não contratou o enólogo Jerry Luper ou tomou decisões vitícolas sobre a Quinta de Cidrô no final dos anos 90 por razões românticas. Se é certo que estamos numa quinta que, pelo facto de estar a 550 metros de altitude, funciona como um laboratório vitícola e enológico, não é menos certo que o objectivo de Pedro Silva Reis, líder da RCV, foi mostrar ao mundo que o Douro era muito mais do que vinho do Porto, sendo que, para tal, dava jeito apresentar vinhos que os estrangeiros identificassem de olhos bem fechados. Desconhecidos, os vinhos de castas portugueses viriam depois por arrasto.
E havendo quem pergunte se, nos dias que correm, faz sentido uma empresa portuguesa dedicar uma quinta emblemática às castas estrangeiras, convém sublinhar um certo número de coisas. Primeiro, os vinhos da Quinta de Cidrô representam cerca de 2% da produção da empresa; segundo, a RCV tem feito um trabalho notável de recuperação e promoção de castas portuguesas que quase se extinguiam (Colecção Séries); terceiro, todo este processo da Quinta de Cidrô trouxe a Portugal um enólogo que mexeu com os procedimentos vitícolas e enológicos (marcações de vindima rigorosas, fermentações em madeira ou atenção redobrada à acidez dos vinhos) e, quarto e mais importante, foi a partir da eleição, em 1999, do Quinta de Cidrô Chardonnay 1997 como o melhor Chardonnay presente na toda poderosa Vinexpo, em Bordéus, que os mercados externos começaram a olhar com curiosidade para a RCV.
Na recente apresentação das novas colheitas da Quinta de Cidrô, o enólogo Jorge Moreia enfatizou que, "durante muito tempo, ninguém queria provar o nosso Chardonnay em feiras internacionais. Passava as feiras todas (em França ou Itália) e não dava uma prova. Mas, a partir do que aconteceu em Bordéus em 1999, toda a gente quis conhecer este e todos os outros vinhos do nosso portefólio".
Eu cá percebo a coisa. Se, por hipótese, participando numa prova de Malvasias na vulcânica ilha de Lanzarote, desse de caras com um belo Arinto dos Açores ou um Terrantez do Pico feito aqui, é evidente que iria a correr conhecer o produtor e todos os seus vinhos.
Posto isto, vale a pena sublinhar que todos os vinhos da Quinta de Cidrô reflectem com brio o ano climático. Todos menos o Chardonnay, que, pelas razões já apontadas, tende a repetir um perfil padrão, sempre com as notas da madeira de fermentação e estágio e a clássica untuosidade de boca. Não querendo ser um desmancha-prazeres, digo que os vinhos da recente fornada da Quinta de Cidrô que mais me encantaram foram o Alvarinho 2017 (gordo na boca e nada exuberante no nariz), o Touriga Nacional 2016 (muito sério, fresco e vegetal na boca e capaz de baralhar os descritores típicos da casta), o Cabernet Sauvignon+Touriga Nacional 2015, (numa primeira fase é a casta francesa que se releva para, meia hora depois, as coisas se inverterem) e, claro, o Quinta de Cidrô Marquis tinto 2007, pelo facto de revelar o potencial de evolução dos tintos do Douro quando bem feitos à nascença. Tivesse sido feito à moda de um Vintage (hiperextraído) e, com 11 anos, estaria bem chatinho. Como houve o cuidado de trabalhar bem a sua componente ácida do Cabernet e da Touriga, está aqui para as curvas.
Então, e os outros vinhos? Diria que se o Sauvignon Blanc foge - e bem - ao padrão exuberante a que estamos habituados (é muito mais francês do que Novo Mundo), o Gewurztraminer é uma explosão de líchias no nariz que nunca mais acaba. O rosé andará em fase de afirmação e o Pinot Noir não esconde um certo peso duriense. Mas, como já acompanho os vinhos Cidrô há anos, sei muito bem que o tempo em garrafa faz-lhes bem e de que maneira. Ensina-nos muita coisa. 

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