O Alvarinho dá-se bem com os vinhos do mundo

Durante dois dias, produtores de Monção e Melgaço conviveram com colegas de outras regiões nacionais e internacionais, coisa rara em Portugal. O “White Experience” foi uma aula e uma festa.
Jornal de Negócios
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Edgardo Pacheco 28 de julho de 2018 às 12:00

Se me dissessem que o presidente de uma das nossas regiões vitícolas iria convidar produtores de outra região portuguesa para, em conjunto, organizarem uma mostra de vinhos, eu, de cara à banda, fecharia um olho e arregalava o outro. Mas se me contassem que esse tal responsável institucional iria convidar, para os mesmos fins, produtores de referência de regiões vitícolas internacionais afamadas, eu, muito honestamente, mandaria uma gargalhada. "O quê, o país em que cada produtor acha que tem o melhor vinho do mundo vai aceitar, cá na terra (não é uma feira internacional, atenção), estar lado a lado com produtores de França, Alemanha, Áustria e Espanha...? Isso só pode ser piada". E, todavia, a coisa aconteceu. Durante dois dias, reuniram-se em Monção para dar a provar ao público 20 produtores de Alvarinho da sub-região Monção/Melgaço, mais oito de outras regiões nacionais e outros tantos produtores de quatro países europeus. O evento chamou-se "White Experience" e foi uma festa e uma aula que chocalhou certas mentalidades.

Organizado pela Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV) e pelas câmaras municipais de Monção e Melgaço, mas produzido pela equipa da revista Grandes Escolhas, o evento surgiu, segundo Manuel Pinheiro, presidente da CVRVV, a partir de uma ideia lançada por Anselmo Mendes, um dos produtores de referência em Portugal, que faz da sub-região um laboratório para a casta Alvarinho. "A ideia é tão simples que se resume numa frase: se nós, em Monção e Melgaço, estamos convencidos que produzimos vinhos de excelência, vamos trazer cá produtores, também eles de excelência, de outras regiões nacionais e estrangeiras e permitir que o público prove, aprecie e aprenda com a experiência".

Ao contrário de outros eventos com carácter popular, por uma tenda em Monção passou gente que, de facto, queria saber mais sobre o Alvarinho destes dois concelhos, provar clássicos portugueses de outras regiões nacionais e conhecer vinhos brancos de terroir distantes, explorados nalguns casos por dois produtores de uma mesma região. Não deixou de ser comovente ver consumidores a comentar as diferenças entre os Chardonnay da Borgonha dos produtores Chanson Père et Fils e Joseph Drouhin, os Riesling de S. A Prüm ou de Bender ou até os Sauvignon Blanc de Sancerre contra Sauvignon Blanc da Nova Zelândia, ambos produzidos pelo Domaine Henri Bourgeois. Os produtores Gelbmann Birtok Wine State (Hungria), Hugel (Alsácia), Sattlerhof (Áustria) e Bodegas Ruchel (galegos de Valdeorras com os seus vinhos Godello) formaram o resto da comitiva estrangeira.

Do meu ponto de vista, este modelo de evento não só permitiu provar coisas desconhecidas e distantes como contribuiu para que a insuportável lengalenga dos "melhores vinhos", das "melhores regiões" ou dos "melhores produtores" comece mesmo a ser um jargão de outros tempos. Em lado algum existe o melhor vinho, o melhor azeite, o melhor mel, o melhor queijo ou a melhor gastronomia (ia escrever presunto, mas recuei porque, de facto, os nossos vizinhos..., mas adiante). O que temos são vinhos necessariamente diferentes, com terroir e histórias únicas e destinados a momentos de consumo variados. Até porque, quando conhecemos vinhos estrangeiros, tornamo-nos mais exigentes na prova dos nossos vinhos. E é isso que interessa.

Até as masterclass promovidas pelos críticos Luís Lopes e João Paulo Martins e as provas realizadas em quatro adegas da sub-região serviram para abrir a mente de quem nelas participou. Sim, é certo que António Luís Cerdeira (Vinhos Soalheiro) e Anselmo Mendes são dois motores da região pelo permanente carácter experimentalista que desenvolvem há anos (devem ter caderninhos na mesa de cabeceira para apontar as ideias que lhes interrompem o sono), mas na Provam foi possível provar as primeiras experiências de Alvarinho fermentado em madeira (coisas sérias) e na Adega de Monção ficou muita gente de queixo caído com algumas colheitas recuadas (2006 e 2008) desse clássico e acessível Alvarinho que é o Deu La Deu. Já nem se fala do Deu La Deu Reserva. Dá logo vontade de comprar uma caixa e deixá-la esquecida na cave.         

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Como enfatizou Luís Lopes, na sub-região de Monção e Melgaço "fazem-se os vinhos brancos com a qualidade geral mais elevada e constante do país". E, como foram provados vinhos a partir de 1989 (Soalheiro), a tese foi fácil de comprovar. Poder sentir tal qualidade de Alvarinho com outros vinhos do mundo por perto, com muita conversa cruzada entre produtores de todas as regiões, isso sim foi uma festa e tanto.

E, como para o ano há mais, aqui se aproveita para fazer dois humildes pedidos: primeiro, a melhoria substancial dos aspectos gastronómicos (ainda bem que não havia jornalistas estrangeiros presentes); segundo, o convite a produtores de Albarino (que diabo!). Se calhar também não seria má ideia fazer um diálogo de gastronomias das diferentes regiões presentes, com os vinhos e tal, mas pronto, fico-me pelos tais dois pedidos. Não são nada do outro mundo.

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