Os grandes Alvarinhos chegam a Lisboa

A Feira do Livro de Lisboa decorre no Parque Eduardo VII e, mesmo ao lado, no Pavilhão Carlos Lopes, entre os dias 8 e 10 de Junho, estarão 31 produtores de Alvarinho em provas. Livros e vinho – o encontro perfeito.
Jornal de Negócios
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Edgardo Pacheco 02 de junho de 2018 às 13:00

Julgo que a minha primeira viagem a sério à pátria dos Alvarinhos foi mais ou menos na altura em que Cavaco Silva catalogou Mário Soares como "força de bloqueio", porque guardo na memória uma monumental zaragata entre jornalistas e gastrónomos no interior de um autocarro em direcção a Monção e Melgaço, com destino a mais um Congresso de Gastronomia do Minho.
Não sei se ainda se realizam tais congressos, mas, nos anos 90, eram uma coisa bastante séria, que metiam sempre discussões acaloradas sobre o nosso património gastronómico (naturalmente, o melhor do mundo) com quantidades generosas de presunto, fumeiro variado e, claro, Alvarinho. Muito Alvarinho.
Foi nessa altura que conheci uma figura imponente e desbragada da crítica nacional: Hélder Pinho, que na altura assinava textos na Capital com a marca D. Pipas. De manhã, era um tipo culto, capaz de explicar a história de qualquer produto alimentar ao detalhe; com meia dúzia de copos, começava a azedar e, depois do almoço, dizia tantas e tão boas que eu só as conto a amigos de grande confiança. A última vez que encontrei o tipo foi na Defensor de Chaves, em Lisboa. Com barba e cabelo que mais pareciam uma oliveira nunca podada, levava num saco de plástico uma posta de bacalhau num pano de linho ensopado em vinho tinto, com destino a um jantar romântico em casa de uma amiga. Morreu uns dias depois, com 55 anos, provando que a vida de gastrónomo tem riscos consideráveis.
De maneira que foi na companhia deste grande maluco e de outras figuras mais sérias (Maria de Lourdes Modesto) que visitei naquele tempo não sei quantos pequenos produtores de Alvarinho de Monção e Melgaço, em ambiente de grande festa. O autocarro que gania nas curvas apertadas da região deixava-nos num produtor. A malta deitava abaixo umas quantas garrafas de Alvarinho com petiscos de variada natureza e, claro, ia de seguida confirmar a outros produtores por que razão uns Alvarinhos exploram uma componente floral, outros uma variante mais cítrica e outros ainda uma via mineral. Era uma festa com gente que tinha (e tem) muita alegria em receber a malta de fora.
E é justamente este ambiente de festa que, ainda hoje, se repete sempre que se junta meia dúzia de produtores de Alvarinho. Eu não sei se é do vinho em si ou se é do carácter dos minhotos, mas que há sempre alegria, lá isso há.
De maneira que quem quiser comprovar esta tese só terá de aparecer no Pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa, entre os dias 8 a 10 de Junho, para mais uma edição do Alvarinho Wine Fest, onde estarão 31 produtores de Monção e Melgaço. Como de costume, haverá petiscos, este ano a cargo do restaurante O Chafarix e da muito castiça Confraria da Foda (termo que se usa para designar cordeiro ou cabrito assado), sendo que, nesta edição, haverá carne Cachena, raça bovina com direito a selo de DOP.
Como se sabe, a região de Monção e Melgaço andou em polvorosa nos últimos anos por causa da propagação de casta Alvarinho a outras regiões do Minho e do país. Agora, a questão estará ultrapassada porque os consumidores percebem de facto que é na sub-região mais a nordeste do Minho que o Alvarinho atinge o patamar da excelência. Hoje temos Alvarinhos por todo o lado, mas é em Monção e Melgaço que se encontra o solário perfeito da casta. Em tese, até poderíamos exportar famílias de Melgaço e Monção com varas de Alvarinho para Estremoz para fazer o grande branco português, mas com eles não iam o solo, a orografia, o clima, o rio Minho e as brisas marinhas que através deste chegam às vinhas. Isto é que é terroir. E é isto que dá uma identidade vincada ao Alvarinho de Monção e Melgaço.
Donde, para um enófilo exigente, o Alvarinho Wine Fest é a grande oportunidade para, inclusive, comparar estes Alvarinhos com outros produzidos no Douro, na Península de Setúbal ou nas terras quentes do Alentejo.
Assim como é outra oportunidade para, junto de alguns stands, comparar Alvarinhos da colheita mais recente com outros de anos anteriores. Os consumidores deveriam dar tempo ao Alvarinho em garrafa. Se é certo que um Alvarinho jovem é um vinho apetecível, desafiante e festivo (cheio de fruta e frescura), com a idade transfigura-se, ganhando mistério, seriedade e patine. Com dois ou três anos, já é muito interessante, mas com cinco ou 10 alguns são tão deslumbrantes que podem baralhar o mais encartado dos provadores.
Assim sendo, o ideal é, quando gostamos de determinado produtor, comprar sempre várias garrafas. Uma abre-se agora e as outras vão estagiando na cave. Quando abrir a última, perceberá que, se calhar, foi um erro não ter comprado mais. Nada como passar pelo Alvarinho Wine Fest para tirar as teimas. E fazer boas compras...

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