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A formação mais cara é a que não se faz

Portugal tem hoje escolas de negócios com acreditação internacional, executivos em meio de carreira a voltar às aulas e investimento estrangeiro a bater recordes.

16:12
Profissionais em formação
Profissionais em formação GettyImages

Há uma cena que se repete, com variações, em salas de aula por todo o país. Um homem ou uma mulher na casa dos 50 anos senta-se numa cadeira que não ocupa há duas décadas. Não veio por lazer. Veio porque a empresa onde passou os últimos quinze anos começou a falar de automação de processos, de modelos preditivos, de ESG, de inteligência artificial aplicada à cadeia de valor e, numa reunião qualquer, percebeu que não sabia do que estavam a falar. Não completamente. Não o suficiente.

Durante anos, o ensino executivo viveu numa espécie de limbo de prestígio vago, algo que as empresas pagavam aos seus quadros mais prometedores como recompensa, ou que os próprios financiavam quando queriam mudar de emprego com um currículo mais robusto. O ROI era simples de calcular: mais formação, mais salário. Hoje, essa lógica está ultrapassada e, ironicamente, percebê-lo é já um sinal de literacia estratégica. O retorno do investimento deixou de ser salarial para ser de evolução. Quem não se atualiza não perde apenas uma promoção. Perde relevância. E relevância, no mercado de trabalho atual, é importante.

Os números confirmam o que as salas de aula já mostram. Segundo dados da Direção-Geral de Estatísticas de Educação e Ciência, cerca de 13% dos alunos em instituições privadas e 10% no ensino público têm hoje 40 ou mais anos. Não são curiosos intelectuais em busca de estímulos, a maioria já tem mestrado. Muitos procuram especializações dentro de nichos, como em tecnologia, em gestão de IA, em sustentabilidade aplicada, ou simplesmente a linguagem que lhes falta para liderarem equipas que já se movimentam com à-vontade nestes contextos.

Redesenhar a gestão com impacto

A par desta transformação no perfil do aluno, Portugal atravessa um momento económico que procura apoio na gestão de excelência. Em 2025, o país atraiu 3,58 mil milhões de euros em grandes projetos de investimento. O Banco de Portugal prevê um crescimento de 1,8% para 2026. O investimento estrangeiro bate recordes e com ele chegam exigências concretas: as empresas que apostaram em projetos de inteligência artificial no ano passado têm agora de provar que funcionam. Precisam de gestores que não apenas compreendam a tecnologia, mas que saibam redesenhar processos à sua volta, comunicar impacto a conselhos de administração e liderar equipas humanas em transição digital. É aqui que a formação executiva deixa de ser um custo para se tornar uma resposta.

Portugal tem uma proposta de valor difícil de replicar em matéria de formação de executivos. Óscar Afonso, diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, resume que o país apresenta, no contexto europeu, “um rácio qualidade-preço altamente competitivo na formação executiva”, reforçado por acreditações internacionais, docentes com experiência de mercado e conteúdos com aplicabilidade real. José Esteves, dean da Porto Business School, vai mais longe e aponta o que os executivos estrangeiros já perceberam antes de muitos portugueses: “Qualidade elevada, contexto internacional e um custo mais atrativo do que a maioria dos mercados europeus” tornam Portugal e as suas escolas de referência cada vez mais apelativos para quem procura uma experiência premium sem pagar uma fortuna. João Pinto, dean da Católica Porto Business School, acrescenta uma dimensão frequentemente esquecida: não é apenas o custo do programa que conta, mas “o contexto de vida”. Segundo este responsável, Lisboa e Porto oferecem qualidade de vida, segurança, conectividade e uma crescente comunidade internacional de executivos, fatores que pesam na decisão de quem pondera investir neste tipo de formação.

Requalificar 2030

Este ecossistema, com escolas acreditadas, preços não proibitivos, e um país que aprendeu a receber talento internacional, tem um acelerador ainda subestimado: o Portugal 2030, que responde às necessidades de qualificação de recursos humanos, especialmente no contexto de empresas que procuram modernização e formação executiva. Para as micro e pequenas empresas, que representam 99,9% do tecido empresarial português, este mecanismo é, muitas vezes, a única via realista de acesso a programas executivos de nível internacional. O problema é que poucos sabem como aceder, cabendo às escolas acompanharem o executivo no processo, relembrando-o de que a formação mais cara é a que se adia demasiado tempo, enquanto o mercado avançava e a distância entre o que se sabe e o que se exige cresce, trimestre a trimestre, até ao dia em que alguém usa um termo que deveria ser familiar e não é.

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