O que falta é transformar conhecimento em ação. Nesta conversa, Rafael Rocha, diretor-geral da CIP, fala dos desafios da formação profissional, defende que a inteligência artificial já faz parte do exercício de liderança e que as empresas que não investem nas suas pessoas correm mais riscos do que as que investem.
Na visão da CIP, existe um desfasamento entre o que as escolas de gestão ensinam e os problemas reais que os CEO portugueses enfrentam hoje? Em que áreas falta mais preparação?
O nosso país conta hoje com escolas de negócios de elevada qualidade, muito alinhadas com as melhores práticas internacionais. Não diria que existe um desfasamento estrutural, mas sim uma necessidade crescente de aproximar ainda mais a formação executiva à velocidade a que a realidade está a mudar. É precisamente na ligação entre conhecimento e execução que identificamos maior margem de evolução. Mais do que conceitos ou frameworks, os líderes precisam de ferramentas práticas e de espaços onde possam trabalhar problemas reais com outros decisores. Em termos de áreas, destacaria três: a integração estratégica da inteligência artificial como alavanca de transformação do negócio; a capacidade de decisão em ambientes de elevada incerteza; e a liderança de pessoas em contextos de mudança, mobilização de equipas, gestão de talento e criação de culturas orientadas para resultados.
Portugal tem um problema crónico de produtividade. Que tipo de formação executiva a CIP considera crítica para inverter este cenário?
Esse problema não pode ser explicado, tão-pouco resolvido, apenas pela via da formação. Trata-se de uma questão fundamentalmente estrutural, ligada à dimensão das empresas, ao investimento, à adoção de tecnologia e à organização do trabalho. Mais do que escolher entre gestão financeira, inovação tecnológica ou gestão de equipas, o que se revela crítico é desenvolver lideranças com capacidade de integrar estas dimensões, líderes que consigam ligar estratégia, tecnologia e pessoas com um foco claro na eficiência e na criação de valor. A formação é necessária, mas não é suficiente. O que verdadeiramente importa é toda a formação que ajuda a transformar conhecimento em ação, estratégia em resultados e investimento em ganhos concretos de produtividade.
A formação executiva é vista pelas empresas portuguesas como uma ferramenta de retenção ou existe o receio de que, ao formar o executivo, este saia para a concorrência?
A formação executiva é cada vez mais vista como uma ferramenta estratégica de progresso e retenção, e nunca como um risco. Naturalmente, esse receio pode existir em contextos mais tradicionais, mas a nossa experiência, sobretudo com os projetos de capacitação Promova e Progrida, demonstra precisamente o contrário. Quando as empresas investem consistentemente no desenvolvimento das suas pessoas estão a reforçar o compromisso e o sentido de pertença à organização. A questão não deve ser tanto o risco de saída, mas sim o risco de não investir. As empresas que não desenvolvem as suas pessoas correm um risco maior de perder talento, não por excesso de investimento, mas por falta desse mesmo investimento.
A formação executiva em Portugal ainda é um luxo das grandes empresas? Como é que um quadro de uma PME pode aceder a estas competências de forma viável?
Foi, durante muitos anos, mais acessível a grandes empresas. Mas essa realidade está a mudar. Hoje há uma consciência crescente de que o desenvolvimento de lideranças não é um luxo, mas uma necessidade para a competitividade, independentemente da dimensão da empresa. Para um quadro de uma PME existem hoje vários caminhos: instrumentos de financiamento público para qualificação e transição digital, programas com bolsas parciais, iniciativas interempresas que permitem diluir custos, ou modelos em que grandes empresas apoiam a capacitação de parceiros da sua cadeia de valor. Iniciativas como o AI Nation, que estamos a desenvolver no âmbito da Academia CIP, refletem precisamente esta ambição de capacitar um universo mais alargado de empresas, tornando o acesso à formação executiva mais transversal. O tema já não deve ser visto como uma questão de dimensão da empresa, mas sim de prioridade estratégica.
Para os associados da CIP, vale mais um diploma de uma escola no topo dos rankings internacionais ou uma formação muito específica e técnica feita à medida para o setor?
A pergunta enuncia duas dimensões que não são necessariamente opostas. O programa de uma escola de referência traz visão estratégica e exposição a boas práticas. Formações mais específicas respondem diretamente aos desafios concretos de um setor, com aplicação imediata. As empresas mais exigentes procuram combinar estas duas abordagens: valorizam a qualidade das instituições, mas são cada vez mais criteriosas na escolha de conteúdos que façam sentido para o seu contexto. O que verdadeiramente importa é a capacidade de a formação gerar mudança, melhorar decisões e traduzir-se em resultados.
Como é que a CIP antecipa que a inteligência artificial mude a estrutura das direções das empresas? Os cursos atuais estão a preparar os alunos para gerir algoritmos tanto quanto gerem pessoas?
A IA não vem substituir a gestão, mas vai transformar profundamente a forma como as empresas se organizam e tomam decisões. O que antecipamos não é apenas a criação de novas funções, mas uma mudança estrutural nas direções, organizações mais orientadas a dados, com decisões cada vez mais suportadas por algoritmos, e com maior integração entre tecnologia, estratégia e operações. Não se espera que os líderes sejam especialistas técnicos, mas que compreendam como os sistemas funcionam, que decisões suportam, quais os seus limites e como os integrar de forma estratégica. Gerir algoritmos não substitui gerir pessoas, mas passa a fazer parte do mesmo exercício de liderança. A formação executiva está a evoluir, mas ainda com margem de progressão. O desafio não está apenas em ensinar ferramentas, está em preparar líderes para transformar a IA numa alavanca real de criação de valor.
Que Pactos Setoriais para a Requalificação a CIP tem promovido e como é que os alunos podem beneficiar dessas parcerias entre associações e universidades?
A CIP tem estado presente na negociação de acordos no quadro das políticas públicas de formação profissional, de que é exemplo o Acordo sobre Formação Profissional e Qualificação de 2021. Este acordo foi determinante para introduzir maior flexibilidade, orientando a formação para as necessidades específicas das empresas e trabalhadores. Na ligação entre universidades e empresas, coexistem várias velocidades. Por um lado, temos institutos politécnicos e universidades que evidenciam maior proximidade ao tecido empresarial, nomeadamente regional, de que é exemplo o Programa Líder + Digital dirigido a empresários e gestores numa dinâmica e bem-sucedida parceria associações/academia. Por outro, verificamos uma maior lentidão nessa aproximação. Todavia, é cada vez maior o número de estudantes, sobretudo nas engenharias, que realizam estágios e desenvolvem os seus trabalhos finais em contexto empresarial. Os alunos beneficiam destas parcerias através de uma formação mais aplicada, e de contacto direto com a realidade, sendo essencial reforçar a sua dimensão operacional e escala. Por fim, encontramos excelentes iniciativas conjuntas de que é exemplo o protocolo celebrado entre a CIP e a Universidade Nova SBE no âmbito do movimento AI NATION Portugal.
Liderança feminina em dois ritmos
O Promova é um programa anual de desenvolvimento pessoal e profissional, dirigido a mulheres em funções de liderança de topo, que inclui um programa de formação executiva em parceria com a Nova SBE, sessões de coaching individual, mentoria cruzada e atividades de networking com líderes empresariais. Já soma seis edições, 180 participantes de mais de 90 empresas e uma taxa de progressão de carreira de 53%. O Progrida, com a mesma estrutura do Promova, é orientado para mulheres em cargos de gestão intermédia com elevado potencial e ambição de progressão. Tem como parceiro académico a Porto Business School e encontra-se na segunda edição, com 60 participantes de 26 empresas.
Uma plataforma para tornar a IA num ativo nacional
A AI Nation Portugal é uma iniciativa que tem como objetivo envolver empresas e o Governo, juntamente com startups, universidades, decisores públicos e cidadãos numa plataforma colaborativa de capacitação e de transferência de conhecimento para posicionar a IA como um motor de transformação económica, social e industrial do país e tornar Portugal mais competitivo na economia digital.