A eletrificação está a ganhar terreno no mercado automóvel português, com os veículos 100% elétricos a registarem o crescimento mais acentuado. Entre janeiro e agosto foram matriculados 45.388 ligeiros de passageiros elétricos (BEV), mais 43,1% do que no mesmo período de 2025, elevando a sua quota para 26,8% do mercado de ligeiros de passageiros novos, segundo os dados da Associação Automóvel de Portugal (ACAP).
Em agosto, esta tendência foi reforçada: foram matriculados 5.079 veículos 100% elétricos, um crescimento de 65,2% em termos homólogos, e a sua quota de mercado atingiu os 36,1%. Ou seja, nesse mês mais de um em cada três ligeiros de passageiros novos matriculados era 100% elétrico. O crescimento desta categoria insere-se numa transformação mais ampla do mercado. Nos primeiros oito meses do ano, foram matriculados 116.679 ligeiros de passageiros eletrificados (categoria que inclui elétricos, híbridos plug-in e híbridos), o que significa um crescimento de mais 29,4% em termos homólogos. Só em agosto foram matriculadas 10.391 unidades, no que constitui um aumento de 20,5% face ao mesmo mês de 2025.
Maior oferta e maior procura
Para Helder Pedro, secretário-geral da ACAP, “a eletrificação continua a ganhar peso no mercado automóvel português e os dados mais recentes confirmam uma evolução muito significativa ao longo de 2026”. Para este responsável, por detrás deste crescimento está uma combinação entre maior oferta e maior procura. “Existe hoje uma oferta muito mais ampla de veículos eletrificados e uma crescente adesão do mercado a estas motorizações”, explica. Por outro lado, a fiscalidade tem também um papel determinante, sobretudo no mercado empresarial. As empresas beneficiam de um conjunto de incentivos que torna a opção pelos veículos elétricos particularmente atrativa e ajuda a explicar o peso significativo das frotas profissionais neste segmento.
Desta forma, é entre os particulares que permanecem os maiores obstáculos à adoção da mobilidade elétrica. “O valor de aquisição continua a ser uma barreira para muitos consumidores.” Por isso, a ACAP diz que a resposta passa também por rever os apoios existentes. “Os atuais mecanismos de apoio não têm ainda a abrangência, a estabilidade e a previsibilidade necessárias para produzir uma renovação do parque à escala de que o país necessita”, afirma o secretário-geral.
Crise energética acelera mudança
Do lado dos utilizadores, a UVE – Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos considera que a crise energética deu um impulso adicional a uma mudança que já estava em curso, ao tornar mais evidente a necessidade de reduzir a dependência dos combustíveis fósseis e a exposição de famílias e empresas à volatilidade dos preços dos combustíveis. Ainda assim, Pedro Faria, presidente do Conselho Diretivo da Associação, alerta que “seria um erro explicar este crescimento apenas pela conjuntura”. Na perspetiva da UVE, a evolução resulta também da maior confiança na tecnologia e de “uma crescente perceção, por parte dos consumidores e das empresas, de que o veículo elétrico é hoje uma alternativa madura e competitiva”, afirma o responsável.
Assim, a Associação defende que o crescimento da mobilidade elétrica não pode ficar dependente da atual conjuntura energética. “A nossa ambição, enquanto UVE, é que este crescimento não se altere quando a atual crise energética passar. Porque uma coisa é certa: esta crise vai passar, mas rapidamente outra surgirá”, prevê Pedro Faria. Desta forma, para a UVE, reduzir estruturalmente a dependência dos combustíveis fósseis é uma forma de diminuir também a exposição a futuras crises geopolíticas. Como sublinha o presidente da Associação: “Temos de conseguir criar as condições para que a mobilidade elétrica seja, de forma permanente, a opção mais racional, económica e sustentável para famílias e empresas e não apenas circunstancialmente, porque vivemos um período crítico de instabilidade e forte aumento dos combustíveis.”
Parque envelhecido é problema sério
Por outro lado, atualmente, a rápida subida do número de matrículas de veículos elétricos convive com um problema estrutural: o envelhecimento do parque automóvel. A idade média dos ligeiros de passageiros em Portugal atingiu os 14,3 anos e cerca de 1,8 milhões de veículos em circulação têm mais de 20 anos. Segundo Helder Pedro, “não basta aumentar a quota dos elétricos nas novas matrículas se não se conseguir acelerar, em paralelo, a substituição dos veículos mais antigos”. A infraestrutura de carregamento é outro dos obstáculos identificados pela Associação. Apesar do desenvolvimento da rede, nota o responsável, “persistem desafios ao nível da cobertura, da facilidade de acesso e da capacidade instalada”. Estes fatores estão, segundo a ACAP, a condicionar uma adoção mais generalizada do veículo elétrico.
No entanto, para a Associação, o sentido da mudança é, apesar destes obstáculos, inequívoco: “A eletrificação é uma tendência irreversível, mas a transição deve ser feita de forma economicamente sustentável e socialmente abrangente”, afirma Helder Pedro.
Fiscalidade automóvel no centro do debate
A fiscalidade e a renovação do parque automóvel estarão entre os temas centrais do Fórum ACAP AUTO’26, que se realiza a 1 de outubro, na Fundação Oriente, em Lisboa, sob o mote “Conduzir o Futuro Automóvel”.
O encontro vai debater algumas das principais transformações do setor, da fiscalidade à transição energética e tecnológica, passando pela rede de carregamento, pelo retalho automóvel e pela renovação do parque nacional de veículos. Um dos momentos em destaque será a apresentação de um estudo sobre a reforma da fiscalidade automóvel, promovido pela ACAP, num contexto em que a Associação considera o atual modelo desajustado face à evolução tecnológica, ambiental e económica do setor.