Portugal está entre os mercados europeus onde a eletrificação dos veículos ligeiros mais avançou. No primeiro semestre de 2026, os veículos 100% elétricos representaram 25,3% das novas matrículas de ligeiros de passageiros, contra 20,7% na União Europeia. Se incluirmos os híbridos plug-in, os veículos recarregáveis atingiram 39,6% do mercado português, face a 30,5% na UE.
Para Pedro Faria, presidente do Conselho Diretivo da UVE – Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos –, os números colocam o país numa posição de destaque: “Portugal está claramente entre os países europeus com maior adoção do veículo 100% elétrico.” O crescimento do mercado contrasta, porém, com a dimensão e previsibilidade dos apoios à aquisição. Na segunda fase do programa do Fundo Ambiental, aberta em junho, estavam disponíveis 1.375 incentivos de quatro mil euros para particulares adquirirem ligeiros de passageiros elétricos. A dotação esgotou-se em menos de duas horas.
A rapidez com que os apoios esgotaram é apontada pela ACAP – Associação Automóvel de Portugal – como um sinal das limitações do atual modelo de incentivos. “A eletrificação está a avançar, mas uma transição não se faz com incentivos que se esgotam em horas”, afirma Helder Pedro, secretário-geral da Associação. Para a ACAP, o episódio demonstra que a dimensão dos apoios continua aquém das necessidades do mercado. Helder Pedro defende, por isso, “mecanismos mais estáveis e previsíveis, capazes de dar confiança aos consumidores e de acompanhar a procura de forma consistente”, afirma.
Um diagnóstico partilhado pela UVE, que coloca a tónica no acesso das famílias a mobilidade elétrica. Pedro Faria identifica o preço de aquisição como um dos principais obstáculos e defende “um regime de apoio à compra de veículos 100% elétricos, para particulares, que seja simultaneamente ambicioso e justo”. Um apoio que, além de previsível e estável, deve favorecer a renovação do parque e chegar aos segmentos onde possa produzir maior impacto.
Fiscalidade em discussão
Para a ACAP, os incentivos são apenas uma parte da equação da transição para a mobilidade sustentável. A Associação defende uma “revisão estrutural” da fiscalidade automóvel, considerando que o modelo atual foi concebido para uma realidade diferente e deve ser reavaliado à luz da eletrificação e dos objetivos de renovação do parque automóvel. O problema ganha particular relevância num país onde a idade média dos ligeiros de passageiros é de 14,3 anos e cerca de 1,8 milhões de veículos, correspondentes a 28,3% do parque, têm mais de 20 anos.
Helder Pedro sublinha que a descarbonização não depende apenas dos veículos novos que entram no mercado, mas também da capacidade de retirar de circulação os mais antigos, menos eficientes e mais poluentes. A estabilidade do enquadramento regulatório é outra das preocupações da associação. “A transição para a mobilidade elétrica exige regras claras, coerentes e ajustadas à evolução tecnológica e à realidade do mercado”, sustenta.
Novas regras para o carregamento
Ao nível das infraestruturas, também o quadro regulatório do carregamento elétrico está a mudar. O novo Regime Jurídico da Mobilidade Elétrica procura simplificar e tornar mais transparente a apresentação dos preços, aproximar as práticas portuguesas das europeias e permitir novos casos de utilização, como o vehicle-to-grid e o autoconsumo.
Já a MOBI.E, entidade pública que desempenha funções de gestão e agregação de dados no ecossistema da mobilidade elétrica, sublinha que as alterações na forma como o setor opera não deverão traduzir-se numa experiência mais complexa para quem utiliza a rede. Os operadores terão de estabelecer parcerias e acordos que assegurem a interoperabilidade. Para Sílvia Amaral, do Conselho de Administração da MOBI.E, a prioridade é assegurar a continuidade da experiência de carregamento apesar da alteração das regras. “O principal objetivo da MOBI.E é garantir que nenhum utilizador sinta qualquer impacto nesta transição entre regimes”, afirma, defendendo a manutenção de um acesso simples e conveniente a uma rede ampla e interoperável.
Nesta fase, se os números das novas matrículas colocam Portugal numa posição favorável na transição para a mobilidade elétrica, o impacto na descarbonização da frota automóvel dependerá também da capacidade de renovar um parque automóvel ainda envelhecido. Para que a vantagem portuguesa na adoção do elétrico se traduza numa transformação mais profunda da mobilidade, o desafio passa agora por criar condições mais estáveis para consumidores e empresas, tanto nos apoios à aquisição como na fiscalidade e nas regras que enquadram o carregamento.
Mobilidade elétrica tem encontro em Guimarães
Guimarães recebe, nos dias 19 e 20 de setembro, a 14.ª edição do ENVE – Encontro Nacional de Veículos Elétricos. Organizado pela UVE, o evento decorrerá no Multiusos e zona envolvente e reunirá utilizadores, famílias e empresas do setor. A organização espera “muitos milhares de visitantes”, num encontro dedicado a veículos, tecnologias e soluções de carregamento. A edição de 2026 realiza-se no ano em que Guimarães é Capital Verde Europeia.