pixel

Negócios: Cotações, Mercados, Economia, Empresas

Mobilidade Sustentável 2026

Rede pública de carregamento cresce de forma desigual

Portugal já tem mais de 15.900 pontos públicos de carregamento. Persistem grandes assimetrias territoriais e faltam soluções para veículos pesados.

09 de Setembro de 2026 às 15:16
Rede pública de carregamento está a crescer em Portugal.
Rede pública de carregamento está a crescer em Portugal. GettyImages

A rede pública de carregamento continua a crescer em Portugal, acompanhando a rápida expansão do parque de veículos elétricos. No final de agosto, existiam mais de 15.900 pontos de carregamento, mais 13% do que no final de 2025, segundo a MOBI.E, entidade que agrega os dados do sistema.

Sílvia Amaral, do Conselho de Administração da , diz que “a infraestrutura de carregamento, em Portugal, continua a crescer a bom ritmo”. Na rede conectada à plataforma da entidade entraram em funcionamento quase 900 postos desde o início do ano. A 31 de agosto estavam ligados mais de 8.320 postos, correspondentes a cerca de 15.850 pontos onde é possível carregar veículos em simultâneo. Um crescimento que resulta do investimento de cerca de 90 operadores.

Segundo esta entidade, em maio tinha já sido ultrapassada a fasquia dos 15 mil pontos de carregamento, cumprindo a meta estabelecida pelo Plano de Recuperação e Resiliência. E os indicadores mostram que, em termos de potência disponível, a infraestrutura está a acompanhar o crescimento do parque de veículos eletrificados. Efetivamente, o regulamento europeu AFIR estabelece como referência para os Estados-membros uma potência na rede pública de 1,3 kW por cada veículo 100% elétrico e de 0,8 kW por cada híbrido plug-in. Considerando apenas a rede conectada à MOBI.E, Portugal encontrava-se, no final de agosto, 5,69% acima dessa meta.

Preocupação com distribuição

Este indicador positivo não conta, porém, toda a história. A utilidade da rede depende também de os carregadores estarem disponíveis onde a procura existe e nos momentos em que aumenta. “Importa avaliar outros fatores, como a dispersão da rede no território nacional e o comportamento da procura, como, por exemplo, com os movimentos sazonais”, explica Sílvia Amaral. Para a responsável da MOBI.E, é por isso necessário olhar, não apenas para o crescimento global da infraestrutura, mas também para a sua distribuição pelo território.

Para a UVE – Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos – a evolução global é positiva, mas a associação está preocupada com a capacidade da infraestrutura para acompanhar uma procura que aumenta rapidamente. Segundo a Associação, entram aproximadamente 10.000 novos utilizadores na rede pública todos os meses, colocando “uma pressão muito significativa sobre a capacidade instalada e o seu necessário crescimento”, afirma Pedro Faria, presidente da UVE.

Interoperabilidade reforçada

No entanto, para a Associação, a distribuição da infraestrutura de carregamento é também uma das principais fragilidades da rede. A UVE alerta para as assimetrias territoriais e para a necessidade de reforçar o carregamento nos principais eixos rodoviários e nas cidades, sobretudo para quem não dispõe de estacionamento privado. Neste contexto, Pedro Faria atribui às autarquias um papel decisivo e aponta para a classificação dos 308 municípios portugueses criada pelo Observatório da Mobilidade Elétrica da UVE, que evidencia, segundo o responsável, “enormes diferenças entre municípios”. “Um município deve facilitar a transição energética dos seus habitantes e não ver a mobilidade elétrica apenas como uma nova fonte de receita, pela ocupação do espaço público”, defende.

Para a MOBI.E, outra questão central é a interoperabilidade. “O fator chave em Portugal é a interoperabilidade da rede, e esse, sim, é o fator decisivo para o conforto do utilizador de veículo elétrico”, recorda Sílvia Amaral. Para esta responsável, seja através do pagamento com cartão bancário ou da interoperabilidade entre operadores, o objetivo é permitir ao utilizador “tirar proveito de toda a rede disponível sem fricção”. A questão ganha relevância com o novo Regime Jurídico da Mobilidade Elétrica, que deixou de obrigar todos os postos a estarem ligados à plataforma da MOBI.E e cujo período de transição foi, entretanto, prolongado até 31 de dezembro de 2027.

Infraestrutura para pesados

Se a infraestrutura está a dar – de forma geral – resposta às necessidades dos veículos ligeiros, para os pesados a resposta é ainda insuficiente. A UVE identifica aqui uma das principais lacunas da rede: “Neste momento, a principal falha, e aquela que mais nos preocupa, está na infraestrutura de carregamento destinada aos veículos pesados”, confessa Pedro Faria. A Associação considera Portugal “muito atrasado face à média europeia” e alerta para o risco de incumprimento dos requisitos do AFIR, neste particular.

A rede portuguesa de carregamento elétrico entra, assim, numa nova etapa. Além de ser necessário continuar a aumentar o número de pontos de carregamento, o desafio passa igualmente por garantir que a infraestrutura cresce de forma mais equilibrada no território, acompanha o aumento da procura e responde às diferentes necessidades dos veículos. No caso dos pesados, em particular, isso exigirá articular carregamento, capacidade da rede elétrica e operação logística.

O fator chave em Portugal é a interoperabilidade da rede. Sílvia Amaral, membro do Conselho de Administração da MOBI.E
Mais notícias