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Da ideia ao impacto: a evolução dos projetos vencedores

Numa conversa entre antigos vencedores do Prémio Empreendedorismo e Inovação do Crédito Agrícola, investigadores e empreendedores mostraram como os seus projetos evoluíram após a distinção e que caminhos estão a seguir para transformar inovação em impacto real no setor agrícola.

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À conversa sobre a evolução da inovação no setor agroalimentar, Filipa Sacadura, da P-BIO, moderou um debate que reuniu José Torres Farinha, Maria Beatriz Oliveira, Lucas Coelho e Maria de Lurdes Inácio, antigos vencedores do Prémio Empreendedorismo e Inovação do Crédito Agrícola.
À conversa sobre a evolução da inovação no setor agroalimentar, Filipa Sacadura, da P-BIO, moderou um debate que reuniu José Torres Farinha, Maria Beatriz Oliveira, Lucas Coelho e Maria de Lurdes Inácio, antigos vencedores do Prémio Empreendedorismo e Inovação do Crédito Agrícola. Fernando Costa

A evolução de projetos distinguidos no Prémio Empreendedorismo e Inovação do Crédito Agrícola esteve em destaque numa mesa-redonda que reuniu antigos vencedores da iniciativa. O painel permitiu perceber como estas ideias evoluíram após o reconhecimento inicial e, sobretudo, que obstáculos persistem quando se tenta levar inovação científica e tecnológica até à aplicação real no setor agrícola e agroindustrial.

Ao longo das várias intervenções, moderadas por Filipa Sacadura, da P-BIO, foram apresentados quatro projetos com percursos distintos, mas com desafios semelhantes: transformar investigação em soluções aplicáveis e economicamente viáveis.

Um dos exemplos mais antigos apresentados foi o projeto Máquina Autónoma de Classificação de Fruta com Colheita Automática, desenvolvido por José Torres Farinha e distinguido na primeira edição do prémio, em 2014. A iniciativa partiu de investigação em visão artificial e realidade aumentada aplicada à manutenção industrial e evoluiu para um conceito de colheita seletiva de fruta através de automação. Segundo o investigador, a tecnologia acabou por encontrar aplicação industrial através de um antigo doutorando envolvido no projeto, que implementou o conceito numa empresa internacional. Para José Torres Farinha, iniciativas como este prémio têm um impacto claro na motivação científica. “Este tipo de prémios faz um jovem acreditar no futuro, acreditar que vale a pena lutar, que vale a pena fazer investigação, que vale a pena criar”, destacou o investigador. Este testemunho ilustra uma das conclusões mais repetidas ao longo do debate, que é a de que o reconhecimento público pode funcionar como catalisador de carreiras científicas e de novos projetos tecnológicos.

Transformar conhecimento em produto

Outro exemplo apresentado foi o SoiLife, premiado na 5ª edição do Prémio em 2018, coordenado por Maria Beatriz Oliveira, que procura valorizar o bagaço de azeitona, um subproduto abundante da indústria oleícola, para aplicações em alimentação, cosmética e saúde. A investigação resultou em várias patentes e abriu novas possibilidades de utilização de compostos bioativos presentes neste resíduo agrícola. No entanto, apesar do potencial tecnológico, a transferência para o mercado continua a ser um desafio.

A investigadora explicou que a inovação está muitas vezes pronta do ponto de vista científico, mas encontra resistência no tecido empresarial. “Nós inovamos, temos ideias, fazemos estudos de aceitabilidade e produzimos produtos alimentares. Mas muitas empresas acabam por não avançar”, lamentou a coordenadora.

O caso evidencia uma realidade que parece ser comum em projetos de bioeconomia e que evidencia a dificuldade de transformar conhecimento científico em produtos comercializáveis, uma vez que este processo exige investimento, parceiros industriais e capacidade de escalar a produção.

Ponte entre inovação e investimento

A valorização de resíduos esteve também no centro do projeto STEX, premiado na 7ª edição do Prémio em 2020, apresentado por Lucas Coelho. A tecnologia baseia-se num processo de “explosão a vapor” que permite extrair açúcares de biomassa vegetal, posteriormente fermentados para produzir etanol e outros produtos químicos. A ideia nasceu no Brasil, onde a indústria do etanol tem grande dimensão, e foi posteriormente adaptada ao contexto europeu.

Para o empreendedor, a visibilidade obtida com o prémio teve impacto direto na sobrevivência da empresa. “Por conta desse prémio, uma empresa entrou em contacto connosco. Em 2021 estávamos em falência técnica e esse contacto acabou por gerar um contrato que permitiu manter a empresa e continuar a desenvolver os projetos”, esclareceu Lucas Coelho. O testemunho demonstra como o reconhecimento institucional pode funcionar como ponte entre inovação tecnológica e investimento empresarial.

A mesa-redonda incluiu também o projeto AlertaARROZ, na 9ª edição do Prémio em 2022, apresentado por Maria de Lurdes Inácio, dedicado à proteção fitossanitária da cultura do arroz. A iniciativa pretendia desenvolver ferramentas de diagnóstico rápido para doenças emergentes que possam ameaçar a produção nacional, através de um dispositivo do tipo lab-on-chip. O prémio recebido teve um papel importante no desenvolvimento inicial da investigação. “Este prémio foi um boost necessário de confiança, mas também permitiu comprar reagentes, participar em congressos e ganhar conhecimento”, confirmou a investigadora.

Inovar é apenas a primeira etapa

Apesar das diferenças entre os projetos apresentados, que abarcam temas como a automação agrícola, a bioeconomia, a energia e a proteção de culturas, os participantes convergiram num diagnóstico comum: inovar é apenas a primeira etapa. O verdadeiro desafio surge quando é necessário convencer empresas e investidores a integrarem novas soluções nos seus processos produtivos.

Segundo Lucas Coelho, a inovação só se concretiza verdadeiramente quando chega ao mercado. “Só falamos de inovação quando chega ao mercado. Antes disso é invenção ou ideia”, explica o responsável. Também Maria Beatriz Oliveira destacou a dificuldade de encontrar empresas dispostas a testar ou a adotar novas soluções, mesmo quando estas apresentam benefícios ambientais ou económicos.

Para os investigadores, é precisamente neste ponto que iniciativas como o Prémio Empreendedorismo e Inovação podem desempenhar um papel decisivo para dar visibilidade a projetos emergentes, aproximar investigadores da indústria e reduzir o risco percebido pelos investidores.

Além do apoio financeiro, os participantes sublinharam o impacto simbólico do prémio no desenvolvimento das equipas de investigação. O reconhecimento público funciona como validação externa e reforça a confiança dos investigadores e empreendedores. Num setor como o agroalimentar, em que inovação tecnológica, sustentabilidade e produtividade estão cada vez mais interligadas, estes projetos demonstram que Portugal dispõe de capacidade científica e tecnológica para desenvolver soluções de elevado valor acrescentado.

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