“A tecnologia pode ser comprada ou contratada, mas o mesmo não acontece com uma organização que tenha cultura de inovação, equipas multidisciplinares verdadeiramente colaborativas e apetite por aprendizagem contínua”, refere Nuno Sousa, Financial Services & Insurance Director da Claranet Portugal, sublinhando que é precisamente essa dimensão humana e cultural que não se compra. “Uma organização com uma cultura de inovação não se adquire no mercado. É aqui que reside o verdadeiro desafio”.
O diagnóstico ganha peso à medida que se aproxima a próxima década. “Os estudos estimam que a escassez de competências tecnológicas custará às organizações milhares de milhões de euros até 2030”, lembra Nuno Sousa, apontando para um impacto que no terreno se traduz em atrasos em projetos, perda de competitividade e oportunidades de negócio desperdiçadas. No setor financeiro europeu, acrescenta, a transformação digital é simultaneamente urgente e complexa, o que torna o défice de talento “o obstáculo principal à modernização”.
Nuno Sousa enquadra esta pressão com as previsões da consultora tecnológica Gartner, que apontam para uma realidade em que “até 2030, nenhum trabalho de TI será realizado por humanos sem assistência de inteligência artificial”, num modelo em que “75% do trabalho será feito por humanos aumentados por IA e 25% exclusivamente por IA”. A mudança, insiste o Financial Services & Insurance Director da Claranet Portugal, não é apenas tecnológica, é sobretudo uma mudança de perfil profissional. “Esta transformação exige um novo perfil de profissional”, defendendo que a vantagem não estará apenas em técnicos que programam, mas em “pessoas que sabem colaborar com sistemas inteligentes, formular os problemas certos e interpretar resultados”. E deixa uma ideia-chave para o setor. “Os serviços financeiros que conseguirem construir equipas com este perfil híbrido terão uma vantagem competitiva decisiva, combinando veteranos requalificados com talento novo especializado”. O mesmo raciocínio surge quando olha para o curto prazo.
Transformação de competências
A Gartner prevê também que “até 2027, a IA generativa exigirá que 80% da força de trabalho de engenharia se requalifique”. Para Nuno Sousa, esta leitura deve afastar interpretações simplistas. “Não se trata de substituir pessoas por máquinas, mas sim de reconhecer uma transformação profunda nas competências necessárias”. Na sua perspetiva, a decisão estratégica é binária. “As organizações que investirem agora em desenvolvimento de competências terão vantagem competitiva, enquanto as que não o fizerem enfrentarão custos crescentes e incapacidade de executar as suas estratégias de transformação”.
Quando desce ao detalhe do que está a travar o setor, o responsável identifica um conjunto de competências que continuam a separar a ambição e a execução. “As competências que impedem as organizações financeiras de atingir os seus objetivos incluem capacidade de resolução de temas críticos de forma estruturada com pensamento inovativo e crítico, cloud, a inevitável IA, desenvolvimento aplicacional com linguagens modernas, flexíveis e escaláveis e, obrigatoriamente, cibersegurança”. É nestas áreas que a procura global excede a oferta, refere Nuno Sousa, descrevendo um cenário de “guerra pelo talento, onde os serviços financeiros europeus competem não só entre si, mas também com gigantes tecnológicos, fintechs e consultoras, muitas vezes com condições mais atrativas”. O resultado, conclui, é direto. “Os serviços financeiros tradicionais precisam de repensar a sua proposta de valor enquanto empregadores, se quiserem atrair este talento escasso.”
Neste caminho, Nuno Sousa defende que a requalificação interna tem uma lógica económica óbvia. “Um engenheiro que conhece os sistemas core há 10 anos e aprende cloud é mais valioso do que um especialista cloud que não conhece o setor financeiro.” Ainda assim, admite limites. Para competências verdadeiramente novas e disruptivas, como a IA ou a cibersegurança ofensiva, “a contratação externa é, frequentemente, a única opção viável no curto prazo”.
Há uma variável que considera decisiva e que nem sempre entra na equação. O tempo. “De pouco serve investir em reskilling se as equipas internas continuam absorvidas por tarefas operacionais rotineiras”, alerta, referindo como exemplos a manutenção de sistemas ou a gestão de incidentes de baixa complexidade. Para o responsável da Claranet Portugal, “o talento interno, precisamente por conhecer o contexto e as idiossincrasias, deveria estar reservado para atividades de maior valor acrescentado, onde o conhecimento institucional faz a diferença”.
É neste ponto que os serviços geridos e o outsourcing estratégico ganham relevância. “Delegar operações de rotina, monitorização, suporte de primeiro nível ou gestão de infraestrutura a parceiros especializados não é uma questão de redução de custos. É uma questão de foco”, afirma. O objetivo é libertar recursos internos para aquilo que considera essencial.
No fim, a proposta não passa por escolher uma única via. “A resposta não é escolher entre reskilling, contratação ou outsourcing estratégico”, defende, mas sim combinar estratégias com base num mapeamento rigoroso do que existe e do que falta. Para competências core adjacentes às existentes, como cloud, DevOps ou analytics, “o reskilling pode fazer sentido”. Já para “competências verdadeiramente novas e especializadas”, a contratação estratégica é inevitável.
É por isso que Nuno Sousa aponta uma estratégia composta, que junta a requalificação para elevar as competências internas, contratação cirúrgica de especialistas em áreas novas como IA, cibersegurança avançada e RegTech, outsourcing estratégico e uma cultura que integre veteranos e novos talentos num ecossistema de aprendizagem mútua. E conclui que “os investimentos em pessoas serão a verdadeira vantagem competitiva numa era em que a tecnologia evolui mais depressa do que as organizações se conseguem adaptar.”