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"As energias renováveis existem para todos e não se extinguem"

António Sá da Costa, presidente da Associação das Energias Renováveis (APREN), diz que uma das grandes vantagens das fontes renováveis usadas para produzir electricidade é serem democráticas. Porque estão por todo o lado, não estão sujeitas a conflitos locais e a regimes instáveis, como os do Médio Oriente, Nigéria ou Venezuela, algumas das principais origens de petróleo e gás natural.

José Miguel Dentinho 30 de Maio de 2011 às 11:25
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Quais as soluções mais amigas do ambiente que aponta para suprir as necessidades energéticas do futuro?
Há que procurar um futuro sustentável. Mas precisamos de energia, o combustível do desenvolvimento, e sabemos que não há formas de energia baratas. Por isso temos de apostar em dois vectores fundamentais.

Um deles é a eficiência energética, a melhor utilização que se pode fazer da energia, até porque minimiza desperdícios. O outro é o uso de energias de fontes sustentáveis, ditas renováveis porque se renovam, e não se esgotam como acontece com as fósseis.

Quando se queima uma pedra de carvão para fazer calor para aquecimento ou gerar electricidade, ela acaba por virar cinzas. E tem de se queimar outra pedra se se quiser continuar a produzir calor. Mas quando se usa a energia do sol para aquecer, por exemplo, águas sanitárias, ele não deixa de aparecer no dia seguinte.

A utilização das fontes renováveis também tem a vantagem de não emitir gases com efeito de estufa em toda a cadeia de produção de electricidade ou de outras formas de energia.

Quando se fala de renovável, estamos a referir-nos a uma escala temporal compatível com o homem. A biomassa residual florestal utilizada para fazer calor ou electricidade não é regerada num ano. Leva vários a crescer, mas o processo ocorre ainda no período de vida de um ser humano.

Se há soluções, o que é que tem condicionado o caminho?
O caminho foi condicionado por três factores ao longo do tempo. O primeiro e talvez mais antigo, é que a tomada de consciência de que as fontes utilizadas eram finitas ocorreu há coisa de 15 a 20 anos. E não lhes estávamos a associar todos os custos devidos.

O segundo factor é que nem sempre houve tecnologias que permitissem a utilização de fontes renováveis. A que permite usar a água para produzir electricidade tem 150 anos, a que utiliza o vento tem 20 a 25 anos e a da energia solar ainda menos do que isso.

Para além disto, a substituição dos equipamentos actuais não pode ser feita instantaneamente, até porque o processo tem custos. De facto, mesmo que nós consigamos ter, à disposição, veículos eléctricos, o parque automóvel não podia ser substituído num ano ou dois. Leva alguns anos, até porque cada carro tem um tempo médio de vida útil de 10 anos.

Como é que deve ser, então, orientada a política energética?
Já referi os dois vectores principais em Portugal. O primeiro passa por orientar os comportamento das pessoas para a eficiência energética, porque o quilowatt mais barato é aquele que não é gasto. Mas para implementar esta medida é necessária uma campanha de educação e informação junto das pessoas.

Podemos reduzir os consumos energético a dois grandes grupos: privados e industriais. Os segundos, com a globalização e competição actual, já têm um valor bastante alto de eficiência, até porque querem minimizar custos.

Onde não há eficiência energética é no sector privado, onde há três tipos de utilizações de energia: Electricidade, transportes e aquecimento e arrefecimento. As medidas típicas de eficiência energética, a tomar neste último caso, incluem o crescimento do número de colectores solares para aquecimento de águas sanitárias.

Outro aspecto a ter em conta nas casas é a questão do isolamento de janelas e dos hábitos de consumo energético. Basta pensar que é mais eficiente do ponto de vista energético vestirmos uma camisola e baixarmos um ou dois graus a temperatura da casa.

No caso do transporte, a questão é alterar hábitos e passarmos a utilizar, no mais curto prazo possível, os transportes públicos, que são mais eficientes do ponto de vista energético do que os individuais. Mas isso também envolve planeamento urbano.

O terceiro aspecto diz respeito à utilização da electricidade. Hoje em dia, as pessoas já têm consciência que 7% do consumo nas casas europeias se deve a electrodomésticos em stand by. Se tivermos isso em conta, podemos reduzir significativamente o consumo.

Em Portugal, segundo um estudo feito pela EDP, os aparelhos que mais gastam electricidade nos agregados domésticos são os frigoríficos e congeladores. Por isso, temos de diminuir o número de vezes que se abrem as portas, para que o ar frio não se escape e os motores trabalhem menos tempo.

Também estamos a assistir à substituição gradual da iluminação por equipamentos energeticamente mais eficientes, quer lâmpadas fluorescentes compactas, quer também LED, que consomem menos de um décimo das lâmpadas incandescentes normais.

São tudo medidas que vão actuar na área da eficiência energética. Na da produção de diferentes tipos de energia, temos que mudar a filosofia enquanto país.

Um dos problemas que temos, hoje em dia, é que importamos mais do exportamos. Como os combustíveis fósseis ainda pesam muito nas importações, é preciso inverter essa situação. Por um lado, melhorando a nossa eficiência energética, como referi, por outro, substituindo combustíveis fósseis, que importamos, por recursos renováveis que existem em Portugal.

O peso das renováveis está a crescer, mas ainda está longe de suprir as necessidades energéticas mundiais. Quais são os principais avanços a decorrer neste campo?
O consumo mundial de electricidade representa actualmente entre 20 e 25% de toda a energia consumida anualmente. Em Portugal, a parcela é superior e chega aos 25 a 30%, mas inferior ao norte e centro da Europa, porque gastamos menos a aquecer-nos.

O nosso país vai continuar a ser muito dependente da energia hidroeléctrica. Mas existe uma grande variação de capacidade produtiva entre os anos húmidos e secos. Nestes, este tipo de unidades podem produzir 40% das nossas necessidades médias anuais. Em anos húmidos, como 2010, a produção nacional poderá chegar aos 130% do ano médio.

No primeiro trimestre deste ano, quase 54% da electricidade que consumimos foi de origem renovável. Mas este valor irá caindo ao longo do ano, por causa dos meses mais secos. A produção de energia eólica, por seu turno, supriu 17,1 % das necessidades nacionais em 2010, ou seja, em cada hora de consumo de electricidade, algo mais do que dez minutos teve origem no vento. Este ano essa quota está um pouco acima, perto dos 19%. Já tem um peso significativo na nossa balança energética.

Ainda há investimento a ser feito em renováveis?
Sim. Neste momento devemos ter cerca de 4 mil megawatts (MW) instalados. Mas ainda estão atribuídos, em processo de licenciamento, construção, ou financiamento, mais 1200.

E como é que está a evolução tecnológica das energias renováveis, e em particular da energia solar?
A produção de electricidade a partir de fontes renováveis mais antiga é a hídrica. Teve um desenvolvimento e praticamente estabilizou, apesar de terem havido algumas inovações tecnológicas em termos de acabamento de materiais e principalmente na automação e controlo de gestão das centrais hídricas.

Posteriormente apareceram os aerogeradores e a energia eólica para produção de electricidade, que arrancou praticamente do nada. Esta tecnologia nasceu com a evolução de duas coisas em paralelo. Uma é a informática e outra a electrónica de potência, em que se conseguem fazer máquinas que transformam a energia do vento em corrente eléctrica.

Os equipamentos termoeléctricos usam o sol para aquecer água e gerar vapor, mas constituem uma via com menos capacidade de evolução do que está a ter a fotovoltaica, devido à melhoria do conhecimento dos materiais à escala molecular. E o fenómeno de transformação da radiação solar em electricidade ocorre à escala das moléculas. Ainda há um caminho muito grande a percorrer. Basta pensar que os primeiros painéis fotovoltaicos tinham uma eficiência de 10 a 12% e hoje em dia têm de 14 a 17%. O seu preço também deverá baixar, com a massificação da sua produção e melhoria de processos de fabrico.

É evidente que ninguém irá fazer uma central hídrica do Saará ou uma instalação de painéis solares no Ártico. Uma das grandes vantagens das fontes renováveis usadas para produzir electricidade é serem democráticas. Não estão sujeitas a conflitos locais e a regimes instáveis, como os do Médio Oriente, Nigéria ou Venezuela, algumas das principais origens de petróleo e gás natural. Afinal, vento, chuva e sol há em todo o lado.

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