Issing: "Jamais a Alemanha abandonará o euro"
Não será pelo abandono da Alemanha que o euro acabará, mas o risco de a união monetária colapsar é real. Economista-chefe do BCE refere ainda Portugal como exemplo de país que optou por respeitar os compromissos e fazer reformas que deveriam ter sido feitas ao longo da última década. Já a Grécia continua a fumar num clube de não-fumadores.
"Regressar ao marco ou a uma nova moeda nacional seria um absurdo e muito perigoso. Estou absolutamente certo de que a Alemanha nunca sairá do euro, por razões económicas e políticas", assegura o primeiro economista-chefe do BCE (1999-2006) em entrevista à BBC, no programa "Hard Talk".
Issing teme, porém, pelo fim do euro. A situação de persistente instabilidade e de incerteza na Grécia preocupa-o, como o preocupa o regresso dos maus espíritos em torno do passado da Alemanha, e a transferência de responsabilidades que diz estar a ocorrer entre países e entre Governos e BCE.
Tudo isso leva-o a concluir que a partilha de uma mesma moeda "não tem apoio, nem compreensão suficiente" dos seus povos. "Quando ouço dizer que a solução agora é 'mais Europa', temo que seja um erro. O problema é que provavelmente já fomos longe de mais".
Uma união política, argumenta, deveria ter acompanhado o lançamento do euro, mas "não vejo como uma união política possa agora ser o mecanismo para corrigir os problemas actuais, nem tão pouco vejo que as pessos queiram mais união". "Veremos o que sucede quando o primeiro país tiver de fazer um referendo".
Issing, que trabalhou muito de perto com o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, no BCE, concorda que manter a Grécia e preservar a integridade do euro é "um argumento relevante", mas não pode ser dominante. "A questão é saber o que se faz quando se tem um clube de não fumadores e um membro continua ou começa a fumar: Muda-se o clube ou quem quer fumar é obrigado a sair?", exemplifica. Por oposição à Grécia, refere Portugal como exemplo de um país que está a fazer reformas que deveriam ter sido desencadeadas na última década, e de um Governo que optou por "respeitar os compromissos".
Conhecido como o mais aguerrido "falcão" do euro, pela ortodoxia com que defende o mandato do BCE centrado no controlo da inflação, Issing considera que o banco central, agora presidido por Mário Draghi, está já a actuar fora da sua área de intervenção.
"Estamos numa união de Estados soberanos que, no fim da linha, são responsáveis pelas suas acções - más ou boas. A situação actual é o resultado de erros cometidos por vários Governos no passado", frisa, voltando a lamentar que França e Alemanha tenham também violado os limites orçamentais, e mudado então, em 2005, as regras para saírem impunes. "A raiz da solução tem de estar na raiz dos problemas, que são os governos, certamente não é o banco central".
Não concorda, por tal, com o programa de compra de dívida no mercado secundário potencialmente "ilimitado", recentemente anunciado, na medida em que traduz uma transferência inadequada de responsabilidades dos Governos para o BCE. Por outro lado, acrescenta, a ideia de "mutualizar dívida, em contrapartida de uma união política no futuro, pode ser fatal para a união monetária e até para a União Europeia", se não for previamente submetida e aceite pelos povos europeus.