Mediadores pressionam EUA e Irão a reunirem-se até quinta-feira. Sánchez fala em "desastre absoluto"
Acompanhe os desenvolvimentos do dia no conflito no Médio Oriente.
- 9
- ...
Sánchez fala em "desastre absoluto" e cenário "muito pior" que em 2003 com Iraque
O primeiro-ministro espanhol reiterou hoje que a guerra iniciada com ataques dos EUA e Israel ao Irão é ilegal e falou em "desastre absoluto" e num cenário "muito pior" do que o de 2003, com o Iraque.
Pedro Sánchez, que está hoje no parlamento nacional de Espanha para explicar a posição do Governo que lidera em relação à situação no Médio Oriente, repetiu o "não à guerra" que assumiu desde os primeiros ataques ao Irão, em 28 de março, e voltou a condenar os Estados Unidos e Israel por terem iniciado o conflito.
Depois de comparar o que aconteceu agora com o Irão com o ataque ao Iraque em 2003, por iniciativa dos EUA, a que somaram Espanha e Reino Unido, Sánchez considerou que, porém, "o cenário não é o mesmo da guerra ilegal do Iraque, é algo muito pior", com "um potencial impacto mais amplo e bem mais profundo".
O líder do Governo espanhol defendeu que a guerra no Iraque, para que outros países foram "arrastados" também por um Presidente dos EUA (George W. Bush), se transformou "no maior desastre geopolítico do mundo depois da guerra no Vietname", com mais de 300 mil mortos e cinco milhões de deslocados, um país (Iraque) que ficou em ruínas, uma onda de ataques terroristas na Europa ou crises migratórias de dimensões inéditas, a par de ter sido o rastilho para guerras como a da Síria ou o reforço e crescimento de grupos radicais como a Al-Qaeda ou o Estado Islâmico.
Sánchez sublinhou que o Irão, ao contrário do Iraque, é uma "potência militar" e tem um poder económico várias vezes superior, com impacto a nível mundial, e considerou que a guerra atual é já "um desastre absoluto", por ter sido iniciada sem qualquer consulta ou aviso por parte dos EUA aos aliados, sem "amparo legal" e sem um "objetivo definido", poucos dias depois de notícias que davam conta de avanços em negociações com o regime de Teerão e quando até cargos norte-americanos confirmam que não existia uma ameaça nuclear iminente.
Para o líder do Governo espanhol, a guerra está só a destruir a legalidade internacional, a desestabilizar o Médio Oriente ou "a enterrar Gaza nos escombros do esquecimento e da indiferença" e aquilo que conseguiu até agora foi substituir uma liderança iraniana por outra "ainda mais sanguinária", beneficiar a Rússia e enfraquecer a Ucrânia, com o Moscovo a beneficiar do levantamento de sanções, e perturbar a economia mundial.
"Isto é um desastre absoluto. Calar perante uma guerra injusta e ilegal não é prudência ou lealdade, é um ato de cobardia e de cumplicidade", afirmou.
Sánchez reiterou que Espanha não autorizou os EUA a usarem bases militares em território espanhol para qualquer operação relacionada com os ataques ao Irão, incluindo para planos de voo para reabastecimento de aeronaves, e revelou que "não foi fácil".
"Mas fizemo-lo porque assim o permite o acordo bilateral para a utilização das bases e porque somos um país soberano que não quer participar em guerras ilegais", afirmou.
O líder do governo espanhol pediu, por outro lado, aos deputados para validarem na quinta-feira o plano de resposta ao impacto da guerra na economia, aprovado na semana passada pelo Governo e que contempla descidas do IVA nos combustíveis, gás e eletricidade, a par de outros descontos fiscais e apoios a setores da economia e às energias renováveis.
O executivo prevê que o plano mobilize cinco mil milhões de euros de recursos públicos e, apesar de as medidas estarem já em vigor desde sábado, têm de ser validadas no prazo de um mês pelo parlamento para se manterem.
"A última coisa de que precisava o mundo era de outra guerra", sobretudo "uma guerra ilegal e absurda", que afasta os governos "das prioridades" como os serviços públicos ou o acesso à habitação e serve para "alimentar os interesses de uns poucos", afirmou Sánchez.
"Não é justo que alguns incendeiem o mundo e outros tenham de engolir as cinzas. Não é justo que os espanhóis e esoanholas e o resto dos europeus tenham de pagar do seu bolso a fatura desta guerra ilegal", lamentou.
Mediadores pressionam EUA e Irão a reunirem-se até quinta-feira
Mediadores da Turquia, do Egito e do Paquistão estão a pressionar as partes envolvidas na guerra no Médio Oriente para que seja marcada uma reunião entre responsáveis norte-americanos e iranianos nas próximas 48 horas, ainda que ambas as partes continuem muito distantes quanto a um possível acordo, avança o The Wall Street Journal (WSJ), que cita autoridades árabes e um responsável norte-americano a par das discussões.
As autoridades iranianas afirmaram inicialmente que estariam abertas a conversações, mas ainda não deram aprovação formal a uma reunião em Islamabad, capital do Paquistão, que se ofereceu para mediar negociações entre Washington e Teerão.
A agência Axios já tinha noticiado anteriormente que vários países estariam a pressionar os EUA e o Irão para se reunirem já nesta quinta-feira.
China apoia todas as iniciativas que contribuam para reduzir as tensões
A China indicou hoje que "é sempre melhor negociar do que intensificar os combates", apelando à resolução do conflito no Médio Oriente, e afirmou apoiar "todas as iniciativas que contribuam para reduzir tensões".
As declarações, feitas em conferência de imprensa pelo porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês Lin Jian, surgem após fontes governamentais do Paquistão terem assegurado que o país lidera uma iniciativa de mediação com a Turquia e o Egito para pôr fim à guerra entre o Irão, os Estados Unidos e Israel.
Trump afirmou na segunda-feira ter mantido conversações "ótimas e produtivas" com Teerão para alcançar o fim das hostilidades e garantiu que os contactos vão continuar ao longo da semana, embora o Exército do Irão tenha negado hoje a existência de negociações com Washington.
Lin afirmou ainda que "a China espera que todas as partes aproveitem qualquer oportunidade e janela para a paz e iniciem, o mais rapidamente possível, um processo de diálogo".
Acrescentou também que a situação está a afetar a segurança energética global, o funcionamento das cadeias de abastecimento e produção, bem como a ordem do comércio internacional, sublinhando que a China "está disposta a reforçar a coordenação e cooperação com a comunidade internacional para enfrentar conjuntamente os desafios em matéria de segurança energética".
Na véspera, o ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, manteve uma chamada telefónica com o seu homólogo iraniano, na qual apelou ao regresso à via do diálogo para pôr fim à guerra do Irão e iniciar negociações de paz "o mais cedo possível".
Wang insistiu que todas as questões sensíveis devem ser resolvidas através do diálogo e da negociação, e não pelo recurso à força.
A guerra no Médio Oriente entra na sua quarta semana, após a escalada iniciada a 28 de fevereiro com ataques coordenados dos Estados Unidos e de Israel em território iraniano.
Em resposta, o Irão lançou vagas de mísseis e veículos aéreos não tripulados ("drones") contra Israel e alvos estratégicos no Golfo, além de manter bloqueado o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do abastecimento mundial de petróleo.
A China, principal parceiro comercial de Teerão e maior comprador do seu petróleo, tem condenado reiteradamente os ataques ao Irão, embora também tenha apelado ao "respeito pela soberania" dos países do Golfo, com os quais mantém igualmente relações estreitas.
AIE disponível para libertar mais reservas de petróleo "se necessário"
A Agência Internacional de Energia (AIE) está disposta a libertar mais reservas estratégicas de petróleo "se for necessário", disse hoje o diretor executivo da organização, Fatih Birol, durante uma reunião no Japão com a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi.
"Birol expressou a sua gratidão ao Japão pela sua decisão exemplar de libertar as suas reservas estratégicas entre os membros da AIE, e afirmou que poderia considerar outra fase de libertação, se necessário", detalhou o Ministério dos Negócios Estrangeiros japonês num comunicado.
O responsável respondeu assim ao pedido japonês para "preparar possíveis libertações adicionais coordenadas no futuro", caso a guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irão se prolongue.
A primeira-ministra japonesa recebeu Birol em Tóquio para discutir possíveis formas de estabilizar o fornecimento de petróleo bruto, cerca de uma semana depois de a AIE ter aumentado a libertação das suas reservas estratégicas para 426 milhões de barris, a maior da sua história, para compensar perdas de abastecimento devido à interrupção do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz.
O responsável da AIE afirmou no início desta semana, a partir da Austrália, que a situação é "muito grave" e ultrapassa as crises energéticas da década de 1970.
Teerão nega acordo com Trump e afirma que preço do petróleo continuará alto
O Irão respondeu hoje às declarações do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que estaria a negociar com Teerão: "Não chames acordo à tua derrota. A era das tuas promessas chegou ao fim", disse o Exército iraniano.
Num comunicado divulgado pela agência Tasnim, ligada à Guarda da Revolução Islâmica iraniana, o porta-voz do Comando Unificado de Operações Khatam al-Anbiya, o coronel Ebrahim Zolfaghari, insistiu que as declarações da Casa Branca sobre as negociações com a República Islâmica são falsas.
"Não chames acordo à tua derrota. A era das tuas promessas terminou. Existem hoje duas frentes: a verdade e a mentira. E nenhum amante da verdade se deixa seduzir pelas tuas ondas mediáticas", afirma o comunicado.
"Será que os teus conflitos internos chegaram a um ponto em que estás a negociar contigo mesmo?", continuou.
O Exército iraniano também advertiu que o preço do petróleo não voltará a ser o que era até que as Forças Armadas iranianas "garantam a estabilidade da região".
"Nem os vossos investimentos na região se concretizarão, nem verão os preços da energia e do petróleo de antes, até compreenderem que a estabilidade na região é garantida pela mão poderosa das nossas forças armadas", acrescenta o texto do Comando Unificado de Operações.
Donald Trump manifestou-se na terça-feira convencido de que Teerão e Washington vão "chegar a um acordo" no âmbito das conversações que o Presidente norte-americano afirma estar a manter com a República Islâmica, onde se verificou "uma mudança no regime".
Teerão reconheceu ter mantido alguns contactos indiretos com a Casa Branca, mas rejeitou categoricamente qualquer tipo de negociação.
Trump afirmou ainda que os representantes do Irão com quem Washington está a dialogar "concordaram que nunca terão a arma nuclear" e que Teerão lhe concedeu um "grande presente" relacionado com o estreito de Ormuz, rota comercial fundamental para o petróleo, controlada pelo Irão, e pedra angular deste conflito.
O Exército iraniano declarou, porém, que, até que a sua "vontade" seja feita, nenhuma situação "voltará a ser o que era": "Ninguém como nós chegará a um acordo com alguém como vocês", sublinhou o porta-voz.
O The New York Times noticiou na terça-feira, citando uma fonte, que falou sob condição de anonimato, que a Casa Branca terá submetido ao Irão um plano de cessar-fogo com 15 pontos, através de intermediários do Paquistão, que se ofereceram para acolher negociações entre Washington e Teerão.
Paralelamente, o Pentágono está a mobilizar duas unidades da Marinha que irão adicionar à presença militar norte-americana na região cerca de 5.000 fuzileiros navais e milhares de marinheiros.
As duas medidas estão a ser interpretadas como uma manobra de Trump para se garantir "máxima flexibilidade" quanto ao que irá fazer a seguir, acrescentou a fonte.
Autoridades israelitas, que têm defendido que Trump continue a guerra contra o Irão, ficaram surpreendidas com a apresentação de um plano de cessar-fogo, ainda segundo a mesma fonte.
A Casa Branca não respondeu aos pedidos da Associated Press para um comentário sobre esta notícia.
Entretanto, ataques aéreos atingiram a República Islâmica, enquanto mísseis e drones iranianos atacaram Israel e alvos em toda a região.
Com os preços do petróleo a subir e os consumidores a sentirem o impacto nas bombas de gasolina, Trump tem estado sob crescente pressão interna para pôr fim à guerra.
O bloqueio de Teerão ao estreito de Ormuz paralisou o transporte marítimo internacional, fez disparar os preços dos combustíveis e ameaça a economia mundial.
"O poder estratégico de que costumavam falar transformou-se num fracasso estratégico", afirmou Zolfaghari.
"Aquele que se autointitula superpotência mundial já teria saído desta confusão se pudesse. Não disfarcem a vossa derrota como um acordo. A vossa era de promessas vazias chegou ao fim", reiterou.
Conflito prolongado eleva risco de tensões sociais na Ásia-Pacífico, diz Fitch
A agência de notação financeira Fitch alertou para um aumento do risco de tensões sociais e protestos na região da Ásia-Pacífico provocado pelo aumento do custo de vida, caso o conflito no Golfo se prolongue.
"O papel central do Golfo nos mercados globais de fertilizantes", a subida do preço do gás natural e "as perturbações no comércio" podem elevar os custos dos fertilizantes, sublinhou a Fitch, num relatório divulgado na terça-feira.
Em 28 de fevereiro, Israel e os Estados Unidos iniciaram uma vaga de bombardeamentos contra o Irão. Em retaliação, Teerão tem atacado alvos nos países vizinhos do Golfo, incluindo bases militares e infraestruturas energéticas, e encerrou o Estreito de Ormuz, por onde transita cerca de 20% do petróleo e gás natural do mundo.
Desde o início do conflito, os mercados asiáticos registaram um aumento de 143% no preço do gás natural liquefeito, componente que representa a maioria dos custos de produção de fertilizantes.
A China já impôs restrições às exportações de fertilizantes fosfatados e a Fitch disse esperar que a medida se mantenha, "restringindo o fornecimento em toda a região" da Ásia-Pacífico.
Uma subida no custo dos fertilizantes poderá tornar mais caros os alimentos e mais pesados os encargos financeiros dos países que têm "grandes programas" de subsídios à agricultura, referiu a agência.
Com menos fertilizante disponível no mercado, explicou a Fitch, os alimentos produzidos serão menos nutritivos, "aumentando os riscos para a segurança alimentar", particularmente nos países com baixos rendimentos.
Potenciais interrupções no fornecimento de petróleo podem também acelerar a inflação e limitar o crescimento nos países da Ásia-Pacífico, altamente dependentes das importações de combustíveis fósseis, referiu a Fitch.
"O impacto será desigual em toda a região", prevê a agência, com a Índia, Coreia do Sul, Paquistão, Filipinas, Maldivas e Tailândia entre os mais afetados.
Pelo contrário, os exportadores líquidos de energia, como a Austrália e a Malásia, poderão obter maiores receitas da venda de petróleo e gás natural, refere o relatório.
No entanto, a Fitch espera que nenhuma economia da Ásia-Pacífico beneficie, de forma geral, de um conflito prolongado no Golfo, devido ao impacto na inflação e no crescimento económico e às "pressões políticas associadas".
A agência diz que jurisdições como Singapura ou Macau, com "grandes reservas financeiras", podem implementar apoios aos combustíveis, eletricidade ou aos fertilizantes para estabilizar a economia.
Mas "as finanças públicas deterioraram-se em muitos países da região Ásia-Pacífico desde a pandemia de covid-19", lembrou ainda a Fitch, o que resultou na diminuição das reservas disponíveis para a política orçamental.
Taiwan assegura que abastecimento de gás natural está garantido até junho
O abastecimento de gás natural em Taiwan está "totalmente garantido" até junho, assegurou hoje o ministro dos Assuntos Económicos, Kung Ming-hsin, numa altura de preocupação com possível escassez energética devido ao conflito no Médio Oriente.
Em declarações citadas pela agência noticiosa CNA, o governante indicou que a programação para junho já está concluída em cerca de 50%, o que "garante a estabilidade geral do abastecimento".
O ministério dos Assuntos Económicos indicou anteriormente que o fornecimento de gás natural se manteria estável até ao final de maio e que as fontes de importação da ilha estão diversificadas por 14 países, reduzindo a dependência exclusiva do Médio Oriente.
"Perante o impacto do conflito, a empresa estatal CPC Corporation reforçou a redistribuição de fornecimentos provenientes de fora do Médio Oriente para assegurar um abastecimento suficiente", referiu o ministério, em comunicado divulgado na segunda-feira.
Segundo dados da Administração de Energia, o gás natural liquefeito (GNL) foi a principal fonte de produção de eletricidade em Taiwan em 2025, representando mais de 47% do total, à frente do carvão (35,4%), das energias renováveis (13,1%) e da energia nuclear (1,1%).
As principais origens das importações de GNL foram o Qatar (33,7%), que na semana passada foi alvo de ataques com mísseis iranianos contra infraestruturas de gás, seguido da Austrália (33,5%), dos Estados Unidos (9,9%) e da Papua-Nova Guiné (7,9%).
Taiwan, sede da TSMC, maior fabricante mundial de 'chips' avançados para inteligência artificial, depende fortemente de combustíveis importados por via marítima, o que a torna particularmente vulnerável a eventuais interrupções no fornecimento.